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sexta-feira, 29 de maio de 2015

Francisca Joaquina


CHIQUINA

Olha só eu aquiii!!! Olha como é grande esse tal de teatro! A dona Leni falou que era grande, mas não pensei que era tããão grande assim! O forro fica lá encimão! Olha só quanta coisa linda desenhada no forro. Lá na frente é o palco. É lá que eles vão dançar. Que cortinona bonita. Onde vão ficar os músicos? Deve ser naquele buraco, na frente do palco. Se a dona Leni estivesse aqui eu perguntava pra ela, mas ela falou: Chiquina, você que é uma menina bem comportada eu vou deixar aqui sozinha, e vou ficar lá atrás tomando conta daqueles bagunceiros. Tá certo, né? Aqui no teatro não pode fazer bagunça. Principalmente depois que a dança começar. Fiquei tão contente, mas tão contente, quando a dona Leni disse que ia trazer a gente aqui que até chorei de alegria, e ela até me pegou no colo quando me viu chorando. Nunca na minha vida eu vi de perto esse tal de balê, só um pouquinho na televisão, mas tenho certeza que quero ser bailarina. É a coisa mais linda do mundo. Lá na escola as meninas deram risada de mim quando eu disse que ia ser bailarina e coleógrafa. Elas são burras, não entendem nada. Pensaram que eu queria rebolar na televisão e fazer coleção de autógrafo. Não tem nada a ver com autógrafo, eu disse, é coleógrafa! Coleógrafa é quem inventa as danças! As bobonas ficaram dizendo que além de rebolar eu também queria inventar os rebolados. Não dá pra explicar as coisas praquelas meninas. São muito burras. Esse apelido que me botaram, Chiquina Chiqueiro, é coisa de quem não sabe de nada. Chiqueiro é lugar de porco, mas eu não sou porca, sou até bem limpinha. Depois eu descobri que elas estavam pensando que o Lar das Crianças é sujo que nem chiqueiro! Mas não é, lá é tudo muito bem limpo, não tem nada a ver com chiqueiro. Elas nunca foram lá e ficam inventando. Não sei não, mas outro dia a dona Leni estava falando umas coisas que eu fiquei pensando... Essa implicância que as meninas têm comigo vai ver que é aquilo que a dona Leni estava falando, um tal de perconceito. Ela disse que perconceito é quando os outros não gostam da gente sem a gente ter feito nada de errado, só porque a gente é pobre, ou é um pouco diferente, ou porque a pele não é branquinha. Pobre eu não sou, nem sou diferente, mas como a minha pele é bem escura perguntei pra ela se era errado ter pele escura. Só se for escura de sujeira, ela disse. Ela disse que se tem flor de toda cor, então por que não pode ter gente de toda cor? Por acaso flor vermelha é mais bonita que flor amarela? ela perguntou. Eu gosto mesmo é de flor azul, mas entendi bem o que ela estava querendo dizer. Daí perguntei pra ela quando é que vai parar esse negócio de perconceito. Ela disse: não sei, minha filha. Só quando a humanidade melhorar... E ficou olhando longe, pensando. A dona Leni é a voruntália mais boazinha de todas. Hoje ela me deixou sentar na janelinha, porque ela sabe que eu adoro olhar pela janelinha. Tanta coisa bonita passando! Gosto tanto de passear de ônibus. Mas hoje além do passeio ainda tem o balê, que é melhor do que tudo. Será que tem bailarina preta? Não vi nenhuma na televisão. Tomara que tenha. Aposto que as bailarinas não ligam pra esse negócio de perconceito. Isso é coisa de gente burra. Essa menina aqui do lado é que tem a pele bem branquinha. Olha só como o cabelo dela é clarinho! Será que essa muletinha é dela? Olha os músicos entrando! Vai começar, vai começar!! Ai, meu Deus, que o meu coração tá batendo feito louco, parece que vai explodir! Ai, meu Deus, me ajuda senão eu morro de tanta emoção!!!

FRAN JÔ

Que gracinha essa menina que acabou de se sentar aqui ao lado. Deve ser bailarina, pelo jeitinho do corpo. Eu nunca tinha visto bailarina de cor... Que sorte ela tem, pode treinar, pode dançar... Mas um dia eu vou poder também. Tive paciência até aqui, vou continuar tendo. Não vou perder a esperança. Quem sabe um dia não estarei junto com essa menina dançando naquele palco? Estou atrasada, mas vou recuperar o atraso. Já fiz quatro cirurgias, agora falta pouco. O doutor Edson diz que é só ter mais um pouco de paciência. Eu tenho. Balê é a coisa mais linda do mundo, vale todo o esforço. Fazia tanto tempo que eu não saía de casa... Quando a vovó perguntou se eu queria ver o balê, fiquei tão feliz que comecei a chorar. Acho que foi porque lembrei que também existem coisas lindas nesta vida, que nem tudo é triste e ruim. Foi a primeira vez que fiquei feliz de verdade desde o acidente. Tinha até esquecido como era estar alegre. A última vez que me lembro de estar alegre foi naquele dia de tarde, antes de voltarmos para a cidade, quando o papai e a mamãe estavam arrumando as coisas no carro e eu fiquei brincando com o Marajá. Que cachorrinho lindo! O pessoal do sítio é que tem sorte, eles podem brincar com o Marajá a semana inteira. Foi tão legal, eu corri tanto, dei tanta risada, cheguei a rolar no chão. Fiquei tão suja e suada que tive que tomar banho de novo. Depois na volta me mandaram sentar atrás, porque é perigoso criança sentar na frente. Até que gostei de ficar sozinha atrás, porque tinha as duas janelas só para mim. Adoro viajar olhando pela janela do carro, quanta paisagem linda a gente pode ver. Quando escureceu e não dava mais pra ver nada, deitei no banco e dormi. Só fui acordar no hospital, com todos aqueles tubos e aparelhos. Não lembro quase nada daqueles dias. Só lembro bem de quando a vovó veio me dizer que a mamãe e o papai tinham ido para o céu. Demorei um pouco para entender o que ela queria dizer... A vovó é muito legal. A psicóloga disse que era melhor eu ficar um tempo fora da escola, mas a vovó respondeu na mesma hora: Minha querida, viver é o melhor remédio! Só a vida cura a vida! É, mas as coisas ficaram diferentes na escola. As minhas colegas estão esquisitas. Me olham de outro jeito, me tratam como se eu fosse outra pessoa. No começo eu estava triste mas mesmo assim me esforçava para participar de tudo. Só a vida cura a vida, me lembrava sempre da vovó dizendo isso. Mas não sei não, desconfio que não era bem a minha tristeza que incomodava as garotas, porque agora estou bem melhor e elas continuam esquisitas. Estou achando que o problema é a minha dificuldade de andar. Acho que se sentem incomodadas com as minhas muletas. É uma coisa que não consigo entender. Que é que tem uma pessoa usar muletas? Não continuo sendo a mesma de sempre? Se antes gostavam da minha companhia, por que agora não gostam mais? Não entendo, parece que se sentem superiores! Olha só, a vovó convidou a Taís e a Marcela para virem ao balê conosco, mas elas não quiseram. E me perguntaram: Como é que é isso, Fran Jô, você ainda está interessada em balê? Eu respondi: Mas é claro, por que não estaria? Então perguntaram: Mas você desistiu de ser bailarina, não desistiu? Fiquei com tanta raiva que nem respondi nada. A Taís viu que eu não tinha gostado e cutucou a Marcela. Que meninas idiotas! Não adianta explicar nada pra quem é burro. Desisto. Quando eu ficar boa vou me enturmar com o pessoal do balê, e aí é que vai ser legal, porque no balê só tem gente inteligente. Jesus amado, a orquestra está entrando! Vai começar!! Meu coração disparou! Estou suando frio! Meu Jesus, será que vou aguentar tanta emoção?!


FRANCISCA JOAQUINA

Primeiro Ato

A música começou suavemente e as cortinas foram se abrindo. Francisca Joaquina não está mais sentada naquela poltrona. Está lá no palco entre os bailarinos, naquele cenário colorido, fazendo parte da música, da luz, da beleza. Veja só, é uma aldeia antiga, camponeses, caçadores, moças bonitas. Todos dançam juntos. Agora a música está ligeira, crescendo sutilmente. As bailarinas tão lindas, tão precisas! Os bailarinos tão ágeis e belos. A música cada vez mais alegre. O ritmo se acelera, as saias coloridas se agitam. É primavera, flores e passarinhos, tons amarelos e vermelhos. Todos estão felizes. Francisca Joaquina também está feliz com seu sapato de ponta, executando aquele "pas-de-deux". Não existem dificuldades para ela, dançar é como respirar. Mesmo agora, na cena da loucura, quando tanto é exigido da técnica e da sensibilidade da primeira bailarina, ela dança como se fosse a própria camponesa apaixonada, enlouquecida pela dor do abandono. Como pode o desespero ser belo assim?

Segundo Ato

Acabou-se o colorido. A cena é melancólica, as cores azuladas, a música lenta. Floresta escura: noite, talvez madrugada. Francisca Joaquina continua encantada, envolvida totalmente. O cenário é triste, mas essa é uma tristeza bela. Veja as bailarinas, com seus trajes brancos, quase translúcidos. Como são perfeitas nos movimentos e na beleza. A luminosidade é azul. A música agora fala do arrependimento do amado, cuja leviandade levou a donzela à loucura e depois à morte. Francisca Joaquina é a donzela que volta da morte para salvar seu amado dos perigos sobrenaturais da floresta noturna. Seus movimentos deixaram de ser alegres ou desesperados, agora são suaves, cheios de poesia. Ela o perdoou e vai salvá-lo. Só Francisca Joaquina poderia expressar, com seu talento e emoção, esse perfeito amor. Desponta a luz da aurora, os entes sobrenaturais se retiram, o amado está salvo. Francisca Joaquina faz suas últimas evoluções, e finalmente se vai.

Percepção

Ao começarem os aplausos, ela está de volta à sua poltrona, o rosto molhado de lágrimas e a certeza clara e serena de que, apesar de todas as dificuldades e de todos os preconceitos, vai se tornar aquilo que escolheu ser.

Imagem: http://elizabethblaylock.blogspot.com.br
Balê descrito no conto acima: Giselle

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