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domingo, 24 de maio de 2015

A morte do vampiro

Eu sou psiquiatra. Ou costumava ser, antes de ter o meu registro cassado pela Ordem dos Psiquiatras do Brasil.
Tudo começou quando minha secretária recebeu a ligação daquele homem que desejava ser atendido depois das nove horas da noite. Bastante fora do meu horário, mas resolvi abrir uma exceção. Até porque ele se dispôs a pagar um “adicional noturno”.
Quando chegou, fiquei admirado com sua aparência, mas como sempre aparentei naturalidade. Alto, magro, muito pálido e extremamente bem vestido. Ao apertar minha mão tive um arrepio, tão gelada era a sua pele.
Sentou-se devagar e olhou-me profundamente nos olhos.
“Estou aqui porque a minha mulher me obrigou.”
“Por que a sua mulher achou necessário o senhor vir aqui?”
“Ela acredita que eu seja vítima de uma fantasia criada por minha mente.”
“Que fantasia seria essa?”
“Não há nenhuma fantasia, somente a realidade. Realidade que ela insiste em não admitir.”
“Que realidade seria essa?”
“Que eu sou um vampiro.”
Nesse momento senti-me grato por todos os anos de prática, pela experiência em lidar com os tipos mais bizarros de delírios psicóticos, porque consegui manter a compostura sem desviar os olhos da figura intrigante que tinha à minha frente.
“Conte-me mais a respeito.”
“Faz muito tempo que me tornei vampiro, mas por algum motivo não me adaptei bem a esse estado. Desde o começo tentei reverter a transformação apelando para alguns amigos que tinha na época, religiosos e alquimistas. Eles obtiveram um sucesso parcial, não pleno.”
Dito isso se calou, baixando os olhos como se estivesse recordando fatos muito distantes. Tive que incentivá-lo a continuar:
“Explique melhor, por favor.”
“Eles conseguiram me curar da compulsão por sangue. Consigo viver com alimentação normal. Necessito de complemento proteico sob forma líquida de vez em quando, mas é receita que se pode preparar em uma cozinha comum, sem nenhuma complicação. Além disso, possibilitaram a minha vida à luz do sol. Cruzes e réstias de alho também deixaram de me incomodar. Meus amigos não conseguiram, porém, me livrar da imortalidade.”
E eu, fingindo indiferença:
“Isso o incomoda?”
“Sempre me incomodou, mas já que nada podia fazer a respeito, segui vivendo. Simples falta de alternativa.”
“Ainda não entendi por que a sua esposa o obrigou a esta consulta.”
“O problema é que voltei a ter fobia à luz do sol. Sinto que perdi a capacidade de estar ao ar livre durante o dia. Desde então só me atrevo a sair à noite. Isso incomoda a minha esposa e também a mim.”
“Entendo.”
“É pior do que isso, doutor. Não é um simples incômodo. Tenho receio de que esteja sofrendo uma reversão do meu quadro. Isso pode ser apenas o começo. O que me garante que daqui a pouco eu não volte a ter compulsão por sangue? Essa possibilidade me aterroriza.”
“O que acha a sua mulher dessa possibilidade?”
“Ela não acredita que eu seja um vampiro. Nunca lhe escondi, mas ela nunca acreditou. Sempre achou que fosse uma extravagância minha.”
“O senhor trabalha em que, atualmente?”
“Há muitos anos não trabalho. Devido à minha - digamos - longevidade, pude acumular um razoável capital. Atualmente apenas administro os meus bens. Minha esposa frequentemente me auxilia nessa tarefa. Não chamo de trabalho porque é uma ocupação esporádica.”
“Como a sua esposa pensa que um psiquiatra possa lhe ajudar?”
“Ela acha que o doutor vai poder me livrar daquilo que ela considera um delírio.”
“E o senhor, o que acha?”
“Eu acho que nada pode ser feito. Estou pensando em me divorciar, porque não quero expor a minha mulher ao perigo que provavelmente passarei a representar quando a compulsão por sangue se restabelecer.”
“Então o senhor acredita que realmente vai readquirir todas as suas características por assim dizer vampirescas?”
“Não posso dizer que acredito, mas sim que suspeito. E suspeito fortemente.”
Depois desse diálogo achei melhor encerrar a sessão para que pudesse refletir sobre o caso. Precisava pesquisar a literatura e me informar a respeito desse tipo de delírio, que nunca havia encontrado antes. Disse a ele que telefonaria para marcar uma nova entrevista. Ele agradeceu a consulta, concedeu-me outro desagradável e gelado aperto de mão, pagou à minha secretária o preço combinado e foi embora.
No dia seguinte, sem que eu tivesse tido a chance de começar os estudos, recebi um telefonema. Era da esposa do “vampiro”.
Ela desejava falar comigo pessoalmente. Com urgência.
Mais uma vez abri exceção na minha agenda. Achei conveniente recebê-la naquele dia mesmo. Quanto mais informações pudesse obter sobre o caso, melhor.
Ela era uma mulher baixinha, de pele muito alva e alguns quilos acima do peso. Um tanto ansiosa. Foi logo me dizendo que tinha uma ideia para livrar o marido daquela estranha mania. Mas precisava da minha colaboração. Pedi mais detalhes.
“É simples”, respondeu-me ela. “Se o meu marido ficar exposto à luz do sol e verificar que nada lhe acontece, não terá razão para continuar com essas cismas. Vai recuperar o bom senso. Voltará a ser aquela pessoa razoável e lógica com quem me casei. E de quem tenho saudade...”
Levou o lencinho aos olhos. Deve ser difícil conviver com um desarranjo mental dessa monta, pensei.
“Mas por que a senhora precisa de um psiquiatra para isso?”
“Porque quero fazer tudo de uma maneira limpa, honesta, para que ele não fique zangado comigo no final. Empurrá-lo para fora de casa em um dia de sol - caso eu conseguisse - poderia surtir o efeito, mas ele ficaria ressentido. Não quero magoá-lo. Ele perderia a confiança em mim. O que seria do nosso casamento?”
Abaixou a cabeça, escondeu o rosto com as mãos, esfregou os olhos e disse alguma coisa soluçante que não entendi.
“O que a senhora disse?”
Levantou a cabeça e fitou-me com olhos chorosos:
“Eu disse que não poderia viver sem ele. É o grande amor da minha vida. Que será de mim se o perder?”
E voltou a esconder o rosto com as mãos.
“Pobre mulher, pensei eu. Que situação complicada.”
“Está bem, senhora, eu entendo. Mas não vejo como posso ajudá-la. Eu não serei capaz de convencê-lo a se expor ao sol. A senhora não pode arrastá-lo porta a fora, e nem eu posso.”
A mulherzinha mostrou-se mais animada. Aprumou-se na poltrona, esqueceu o lencinho e explicou-me a ideia com muita desenvoltura. Era óbvio que havia dedicado bastante tempo à composição daquele plano. Entendi perfeitamente suas explicações. Parecia simples. Ninguém sairia machucado. Apenas eu, talvez, caso o pretenso vampiro se irritasse ao perceber o que havia acontecido. Ele podia não ser uma criatura das trevas, mas era alto. Apesar da palidez, aparentava ser bem mais forte que eu.
Em resumo, aceitei a sugestão da mulherzinha. Nesse instante assinei minha sentença.
Hoje, rememorando os fatos, não consigo uma justificativa razoável para tal procedimento. Fui insano. Agi contra a ética da minha profissão. Foi justo cassarem o meu diploma.
Telefonei ao paciente e marquei uma nova entrevista para aquela noite. Uma noite quente de verão. Quando ele chegou dispensei a secretária. Mal tínhamos começado a conversar fingi estar com sede e perguntei se ele me acompanharia em um suco gelado. Aceitou sem grande entusiasmo, mas quando viu o líquido vermelho e denso no copo alto, seus olhos brilharam. É verdade, eu juro, os olhos brilharam.
Disfarcei o tremor das minhas mãos quando lhe passei o suco feito de frutas vermelhas com um pouco de beterraba para acentuar a cor.
Ele bebeu com sofreguidão. Perguntei se queria mais um pouco. Acho que queria, mas era educado demais para deixar transparecer a vontade, então recusou. Iniciei uma conversa lenta e monótona, como se estivesse fazendo um apanhado da nossa conversa da noite anterior.
A estratégia deu certo. Poucos minutos depois ele já pendia a cabeça de sono. Mais alguns instantes, e dormia profundamente.
Não perdi tempo. Acomodei-o da melhor forma possível no divã para que repousasse em posição confortável, e fui empurrando pouco a pouco o móvel para perto da janela que dava para o leste. Depois de um esforço razoável, a localização ficou perfeita. Abri bem as cortinas.
Os raios do sol, assim que este nascesse, bateriam em cheio no homem adormecido.
Nessa noite não voltei para casa. Fiquei na sala ao lado, a porta entreaberta a fim de ouvir os ruídos do consultório. Atormentava-me o pensamento de estar agindo errado. Quais eram as chances de o paciente acordar, descobrir-se naquela situação, e vir me agradecer por tê-lo sedado descaradamente, obrigando-o a passar a noite fora do seu domicílio sem prévio consentimento?
E tudo por sugestão de uma mulher que não entendia nada da prática médica e que deveria ter sido ouvida e confortada, mas nunca acatada. E que sairia imune de tudo isso qualquer que fosse o resultado, já que eu havia dado a minha palavra de jamais mencionar a sua participação.
Foi uma noite terrível. Não sei a que horas cochilei um pouco, de pura exaustão. Sentado ali na sala de espera, o pescoço mal acomodado no encosto do sofá, acordei de repente com um berro excruciante.
Jamais conseguirei esquecer aquele som. Não imaginava que pudesse existir um brado tão desesperado, tão lancinante, tão cheio de dolorosa agonia.
Corri para o consultório. O sol de verão havia nascido e banhava o ambiente com uma luz intensa. No divã, restos fumegantes de uma coisa que, instantes atrás, ainda conservava uma forma humana...
Fui preso. A viúva, alegando que o seu esposo não havia voltado da consulta noturna, acionou a polícia.
Não pude explicar o monturo no divã. A análise técnica revelou que eram restos mortais humanos. Humanos?!
Já que nunca consegui esclarecer o ocorrido, várias hipóteses foram levantadas. Até mesmo de um caso amoroso entre o psiquiatra e seu paciente, levando o primeiro a assassinar cruelmente o segundo por motivo de ciúmes.
O que importa é que hoje estou preso, cumprindo uma longa pena.
A mulher do vampiro chorou bastante durante o processo. Sempre esfregava os olhos antes de começar a chorar. Agora, porém, não chora mais. Ri muito e se diverte escandalosamente.
Como eu sei? É que leio notícias suas em revistas aqui na prisão. Colunas sociais sempre trazem fotos da mulherzinha se esbaldando em lugares bem frequentados da Europa, geralmente na companhia de gente famosa. Perdeu o excesso de peso e está bela e bronzeada.
Eu, pelo contrário, torno-me a cada dia mais pálido e inexpressivo...

Imagens:
http://commons.wikimedia.org
http://www.clker.com


2 comentários:

Beto disse...

Nossa Zulmira você escreve incrivelmente bem, eu não imaginei um desfecho assim realmente me surpreendeu. Parabéns

Beijos

Beto
www.blogcoisastriviais.blogspot.com

Zulmira Carvalheiro disse...

Beto, mais uma vez você me deixa toda orgulhosa! Obrigada! Eu também gosto muito do seu jeito de escrever. Beijo!