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terça-feira, 17 de março de 2015

Abel e Floripes

Minha prima Patrícia é muito chata. Eu jamais escolheria uma menina como ela para ser minha amiga. Muito dramática e exagerada, meiguinha e sentimental até enjoar. Tem o costume idiota de só me chamar de “prima”.
Vira e mexe lá vem uma mensagem com uma oração anexada e a ameaça: “Mande para cinco pessoas. Três dias depois terá uma boa surpresa. Fulana ignorou esta mensagem e depois de três dias foi arrastada pela enxurrada. Nunca encontraram o corpo.”  Ou então coloca um vídeo de cachorrinho na rede social e pede: “Se achou esse cachorrinho fofo, compartilhe.” Como assim? O cachorrinho fofo está perdido, ou é pra compartilhar se eu o achei fofo? 
Um dia ela me liga toda espavorida:
Prima! Cê nem imagina o que aconteceu! Tô besta até agora!
Que ela estivesse besta eu nunca duvidaria, mas que fato a fez admitir essa verdade incontestável, isso eu nunca adivinharia mesmo.
“Que aconteceu, Patrícia?”
“Foi um livro que comprei. Descobri uma coisa incrível. Falar não adianta, vou levar aí pra te mostrar.”
Ai, meus deuses! Eu cheia de coisas para fazer, sem tempo nem paciência para futilidades. Mas sou frouxa demais para protestar, e meia hora depois ela está na minha frente me mostrando um livro antigo. “Histórias Românticas”, de Machado de Assis. Uma brochura envelhecida, capa amarelada com uma foto do autor. Abaixo do título as indicações:

W. M. Jackson Inc. - Editôres  
Rio de Janeiro, São Paulo, Pôrto Alegre, Recife. 

Assim mesmo: Editôres e Pôrto com acento circunflexo. Edição de 1957.
“Onde você arranjou isso, Patrícia?”
“Comprei num sebo. Quando vi que era do Machado de Assis, e “Histórias Românticas” ainda por cima, comprei na mesma hora. Só fui abrir em casa. Aí comecei a descobrir umas coisas intrigantes.”
Nem tentei fazer hipóteses. Sem tempo a perder com papo furado, perguntei que coisas eram essas. Ela pegou o livro da minha mão e foi apontando:
“Olha aqui, prima. Tá vendo essa dedicatória?”
Escritas com caneta-tinteiro, as letras caprichadas e desbotadas ainda deixavam ler:



Não vi nada de intrigante ali.
“O que tem de intrigante aqui, Patrícia?”
“Por enquanto nada. A esquisitice começa quando se descobre que a Floripes não leu o livro! Ela nem abriu e nem folheou! Recebeu o presente, guardou em algum lugar e nunca mais pegou! Aliás, o primeiro ser humano que abriu esse livro fui eu!”
“Mas como você sabe?”
“Eu sei porque tive que usar uma régua para cortar as páginas!”
“Como assim, criatura de Deus?”
“Coisa de publicações muito antigas! A encadernação era feita de um jeito que as folhas ficavam unidas duas a duas pela borda lateral, então a primeira pessoa que pegava para ler precisava separar as folhas. É só usar uma faca ou uma régua pequena e ir passando assim, de dentro pra fora.”
Ela ia dizendo e me mostrando. Realmente, as bordas não estavam retinhas, perfeitas, mas sim um pouquinho esfarrapadas. Patrícia continuava me explicando:
“Teve uma época em que era considerado anti-higiênico ler livro que já estava com as bordas cortadas.”
“Uai! Por quê?”
“Porque significava que outras pessoas já tinham lido e então ele podia estar contaminado.”
Fiquei um pouco admirada pela cultura livresca inútil da minha parenta.
“Caramba, que povo esquisito. Mas ainda não entendi qual é a coisa intrigante.”
“Veja você que o tal de Abel ofereceu um presente carinhoso para a prima Floripes e ela nem se incomodou em dar uma folheada. Devia ser uma ignorante, nem devia conhecer Machado de Assis.”
Eu estava incomodada com aquela perda de tempo e só por isso resolvi contrariar:
“Não necessariamente. Ela podia preferir poesia em vez de prosa. Ou podia conhecer o Machado mas não gostar. Ou então esse primo era um chato e ela estava irritada com ele.”
“Que seja, que seja. Mas me deixe continuar. Eu fui cortando as bordas e sabe o que encontrei escondidinho no meio de duas folhas ainda unidas?”
“Nem imagino.”
“Esta carta! Estava bem dobradinha, ela nunca foi lida.”
E me passou um papel amareladíssimo, com a mesma letra da dedicatória. Estava escrito:


Patrícia me observava com olhos ansiosos e deve ter notado que fui ficando cada vez mais espantada. Eu estava de queixo caído quando terminei.
“Esse Abel era um imbecil! Bem feito que ela não leu. Tomara que ele tenha se suicidado, um idiota a menos no mundo!”
Mas a prima meiguinha e romântica discordava.
“Como tem coragem de dizer isso, prima? Não vê que pode mesmo ter acontecido o pior?”
“Esse cara era covarde. Isso que ele fez foi uma tentativa de manipulação. Duvido que tenha cumprido a palavra.”
Mas ela estava melancólica:
“Sabe o que me deixa triste, prima? É que eu nunca vou saber o que aconteceu... Essa carta, que era para a Floripes ler, fui eu que li. Coitado do Abel. Pensou que tinha sido desprezado. Vai ver ela até gostava dele, mas era tímida. E no final, uma verdadeira tragédia...”
“Quem tá fazendo tragédia é você. Não deve ter acontecido nada. O manipulador imbecil não se matou, eles se casaram, tiveram muitos filhos e foram felizes para sempre.”
“Prima, você está dizendo isso só pra me consolar.”
Não era para consolar, era para ela ir embora logo e me deixar com os meus afazeres.
“Patrícia, tem um jeito de você descobrir o que aconteceu. É só fazer uma pesquisa nos jornais da época e ver se nessa data existe notícia de atropelamento por bonde. E se existir, qual o nome da vítima.”
Uma luz se acendeu nos olhos da prima! Ela me abraçou, me beijou, agradeceu e foi embora rapidinho.  Que alívio!
Dois dias se passaram em perfeita paz. No terceiro, logo de manhã, ela me liga.
“Prima, estive pesquisando sem parar. Até faltei na aula.”
Pausa. Eu tentando adivinhar o desfecho da história pelo tom da sua voz. Mas o tom era neutro.
“O que você descobriu, Patrícia?”
“Pesquisei tudo, prima. Todos os jornais daquela época que o acervo já foi digitalizado. Olhei tudo. Demorou.”
Pausa. Tom neutro. Eu começando a ficar nervosa.
“Mas qual foi o resultado da pesquisa, Patrícia?”
“Prima, que bom eu ter ido falar com você. Não sabe como me ajudou.”
Pausa. Eu francamente desesperada.
“Patrícia, pelo amor de Deus! O que você descobriu?”
Do outro lado da linha, silêncio. Uns dez segundos depois, o primeiro soluço.
"Você está chorando, Patrícia? Quer dizer que o Abel morreu?"
Cinco soluços depois:
"Morreeeeeeeeuuuu....."
Confesso que fiquei chateada. Tenho vergonha de confessar, mas fiquei.
"Não chore, Patrícia. Isso faz muito tempo."
"Prima, eu acho que sou a reencarnação da Floripes. É a única explicação para aquela carta ter vindo parar na minha mão."
"Nada a ver, é só coincidência."
Breve silêncio. Uma fungadela.
"Prima..."
(Dai-me paciência, Senhor!)
"Que é, Patrícia?"
"Me ajuda numa coisa? Depois não te peço mais nada, prometo."
(Já vi que é mais amolação que vem por aí.)
"O que você quer?"
"Me ajuda a localizar o túmulo do Abel?"


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