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"OS MENINOS DA RUA BETO"

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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Exobacterjulian

          Quando o meu noivo me trocou por uma vagabunda desclassificada, a dor que passei a sentir chegava a ser física. Forte e profunda, quase insuportável, me obrigou a desenvolver estratégias de autopreservação. Durante o dia eu trabalhava obsessivamente. À noite criava imagens mentais que me confortassem.
          Minha profissão é técnica, o trabalho é complexo, exige grande concentração. O que acabou sendo conveniente, pois não sobrava neurônio desocupado para me fazer lembrar daquela pessoa absurda que, de um momento para o outro, me eliminou de sua vida como se eu fosse um objeto descartável.
          Analisando objetivamente, foi assim que conquistei o que tenho agora. Onde estaria se não tivesse trabalhado tanto ao longo daqueles meses? Certamente não teria recebido o convite para participar desta missão e estaria, talvez, sentada em um sofá, calçando chinelos macios, lendo o best seller do momento, sentindo o cheiro do chocolate quente na xícara de bordas douradas sobre a graciosa mesinha...
          Não, não! Foco na realidade! Foco na realidade! Sem chinelos, sem chocolate, sem livrinho romântico. Agora é a aridez vermelha, o oxigênio controlado, os equipamentos de proteção.
          Lá atrás, naquelas noites sem sonhos, a imagem que mais me aliviava o sofrimento era a fantasia de ser um micro-organismo em um muro em ruínas. Não um muro qualquer: esse ficava em um planeta de outra galáxia. Sem receber energia suficiente do seu velho sol, o planeta havia perdido as condições de vida. Sobreviviam apenas algumas bactérias, como eu. Minha espécie não precisava de energia solar, bastava a radiação de alguns elementos químicos. Esse muro estava lá há milhões de anos, construído por uma civilização extinta. Resto de um palácio, de uma fábrica, de um templo, sei lá.
          Só sei que aquele muro arruinado abrigava alguns organismos inertes, silenciosos, tranquilos. Aconchegados ao calor da radioatividade, não sentiam dor, não tinham necessidades nem desejos, nem anseios nem esperanças, nem mágoas nem frustrações. Talvez nem tivessem memória ou poder de raciocínio. Não sabiam quando tinham surgido, não imaginavam seu próprio fim.
          Eu era um desses micro-organismos. Nada ouvia, nada sentia, nada pensava.
          E assim conseguia dormir.
          Agora (quem poderia imaginar?!) aqui estou eu diante desse mesmo muro! Não na forma de bactéria mas na minha própria forma humana, contemplando o repositório das últimas criaturas vivas deste mundo agonizante.
          Será que existem realmente? Embora sem ter examinado ainda as pedras, eu sei que vou encontrá-las. Aqui é o mesmo lugar que fantasiei: o mesmo céu avermelhado, a mesma poeira fina, a mesma aurora boreal estranhamente amarela, a mesma luminosidade fantástica.
          Mesma, mesma, mesma... resma! lesma! quaresma! tesma!
          − Ei, não existe tesma!!! (disse eu atirando nele um pãozinho parcialmente comido)
          Brincadeira boba que o Juliano e eu fazíamos às vezes: encontrar palavras que rimassem. Ganhava quem se lembrava de mais palavras. No final, risadas e abracinhos.
          Trocada por uma vagabunda com cara de sonsa que se fez de amiguinha até o último momento. Sem explicações, sem um adeus, sem nada. Nem pediu de volta a aliança. Que joguei fora. Dentro estava escrito “Sempre seu, Juliano”.
          Sempre. O que é sempre? O que é para sempre? O que é eterno? Certo estava Einstein, o tempo é relativo. A eternidade é relativa.
          Tempo me lembra oxigênio. O recipiente de oxigênio pesa. Aqui a gravidade é quase igual à da Terra, mas um pouco maior, suficiente para se fazer sentir. O recipiente tem volume limitado. Então não posso desperdiçar tempo. Foco, menina! Foco! Não se perca em devaneios. Tempo é oxigênio, e oxigênio é vida. Vida é...?
          O que é vida? Meu trabalho em exobiologia? Se isso não for vida então estou mais morta-viva do que as bactérias do muro, porque tudo o que tenho é o meu trabalho. E as minhas lembranças.
          Mudei de país para fugir de você, Juliano. Deixei tudo para trás, suportei anos de treinamento intenso para esta missão. O que eu queria na verdade era me enfiar dentro de um Buraco de Minhoca (obrigada, Einstein!) e mudar de galáxia.
          Mentira que estou pesquisando vida alienígena! Mentira que estou interessada em altas descobertas científicas. É tudo pra ficar longe de você. Mas você sempre vem junto. Você está em todos os lugares. Você preenche todas as galáxias.
          Pronto, desperdicei mais alguns minutos preciosos. Saí sozinha apenas pra olhar essa aurora boreal amarela. Prova de que o planeta ainda tem núcleo ativo. Aí está a magnestosfera para protegê-lo. Muito fraca, porém. A incidência de raios cósmicos é grande. Estou em ambiente perigoso para a vida humana. Por que fui me afastar da base? Nem percebi o quanto me afastava. Todos aqueles anos de capacitação e agora quebro o procedimento mais elementar de segurança. Se me perder nem saberão onde me encontrar, porque deixei o anel localizador no alojamento. O que acontece comigo, a funcionária padrão do projeto?
          Se me perder nem saberão onde me encontrar. Se me deitar aqui, ao lado desse muro e ficar bem quieta... O oxigênio se esgotando lentamente... Meu sistema saturado de dióxido de carbono... vou ficar com sono, vou dormir...
          Que absurdo seria. Que absurdo seria ficar aqui deitada, contemplando com os olhos da mente o rosto do Juliano. Que está a milhões de anos-luz. Luz. Os olhos do Juliano. Escuros, grandes, tão expressivos.
          Foco! Foco! Qual o motivo dessa cor na aurora boreal? Sódio em suspensão na ionosfera? O solo é vermelho de ferrugem, como em Marte. Mas esse brilho amarelo no céu me lembra luz de sódio. Preciso perguntar a alguém quando voltar à base. Não posso demorar. Tanta aridez me deprime. Um planeta inteiro sem vida vegetal. Nenhuma árvore, nenhuma flor. Só as bactérias no muro, se é que existem.
          Um planeta sem flor deve morrer mesmo. Merece ser vaporizado por uma estrela em explosão. De que vale a vida sem flores? Por insignificantes que sejam, como aquelas violetas pequeninas que se abrem escondidas no meio da folhagem. É preciso ir lá, agachar no chão e afastar as folhas para achar as florezinhas. Violetinhas cor de violeta, perfumadinhas. Mas é preciso procurar e prestar atenção para ver a beleza e sentir o perfume.
          Exatamente como Juliano. No meio de uma multidão ele passa despercebido, uma pessoa completamente comum. Prestando atenção é que se vê como o seu rosto é harmonioso, parece ter sido desenhado por Michelangelo. Nunca vi nariz tão perfeito. Os lábios são lindos. Ficam mais lindos quando ele sorri. Não o sorriso banal das situações cotidianas, mas sim aquele sorriso espontâneo que vem antes de uma risada gostosa ou de uma insinuação marota. Aquele sorriso sempre me trouxe à mente a imagem de um lírio crescendo à beira de um riacho: alvo, puro, cheio de vida, cheio de frescor.
          Nada há de alvo, puro, cheio de vida e frescor aqui onde estou. Somente aridez. Óxido de ferro, sódio, radiação, perguntas sem respostas.
          Eu também sou uma estrela agonizante. Já brilhei mas agora estou me apagando. Meu coração é o planeta sem vida que a estrela já não aquece. E você, Juliano, é a bactéria que resiste nas reentrâncias das pedras, dentro deste coração. De onde vem a radioatividade que te alimenta?
          Meu desejo é deitar no chão, encostada no muro. Fechar os olhos e imaginar que estou à beira daquele riacho contornado pelos lírios-sorrisos. Sono. Nada.

* * * *

          Nunca se descobriu por que a doutora Juliana saiu sozinha da base usando no dedo, em vez do anel localizador, uma aliança de ouro. Nela estava escrito: “Sempre seu, Juliano”.
          O primeiro ser vivo genuinamente alienígena descoberto pela humanidade foi denominado, em sua homenagem, “Exobacterjulian radiophilus”.



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Imagem: http://jjcanvas.deviantart.com

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