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domingo, 29 de março de 2015

Adeus à Ilha das Flores

O que faz o jovem Melker Öberg lá no meio da campina, deitado sobre a relva, em plena meia-noite?
Está esperando o mundo acabar.
Ele esteve até as 11 da noite, hora do por-do-sol de verão, orando em companhia dos tios e primos. Agora que anoiteceu e todos foram descansar pela última vez em suas camas, ele resolveu esperar o fim do mundo ali, em contato com a natureza, a fim de usufruir plenamente o que está para acontecer. Seja para o bem, seja para o mal.
Vildablommorö é a ilha das flores silvestres. Por isso Melker está rodeado de flores. A luminosidade crepuscular vai durar até as 5 da manhã, hora do nascer do sol. Não é possível ver as estrelinhas mais fracas. Mesmo assim o céu está bonito, o ar está fresquinho, a grama está macia.
Ele abre os braços, fica olhando o céu e pensando em Hedvig Falk. Se ela fosse sua namorada estaria aqui com ele, de mãos dadas, esperando juntos o fim do mundo. Mas ela não retribui seus olhares, então como pode ele se aproximar e conversar? Uma pena que acabe tudo assim, cada um no seu canto, separados para sempre.
Seria preferível que Hampus Holmgren não tivesse voltado com a notícia e que ninguém ficasse sabendo do que estava para acontecer. Acabar tudo de surpresa seria melhor.
O velho comerciante viajava regularmente a Estocolmo, onde vendia os produtos da ilha e providenciava as encomendas. Desta vez voltou com uma novidade. Ouviu de um pastor, durante o culto em um templo da cidade, que um cometa se aproximava da Terra. Não ia colidir, mas a sua incomensurável cauda tóxica envenenaria toda a atmosfera. A data para o acontecimento era entre hoje e amanhã, provavelmente de madrugada. Todos morreriam asfixiados, não havia como escapar.
Melker pensava que era uma sorte os seus pais terem falecido anos atrás. Não suportaria vê-los passar por essa agonia. Fechou os olhos levemente mas abriu depressa, não queria dormir. Queria ver tudo acontecer. Será que o ar se tornaria brilhante, cheio de fagulhas? Talvez escuro como fumaça? Talvez opaco e esbranquiçado como vapor?
Fechou os olhos de novo, para pensar em Hedvig. Foi quando sentiu-se subindo ao espaço. Com toda a leveza. Flutuando. Morrer era assim tão suave?
Acordou de repente com o sol no rosto. Olhou em volta. Estranho, tudo estava normal. O mundo não havia acabado.
Voltou para casa e descobriu que todos estavam muito zangados com Hampus Holmgren por ter pregado uma peça de tão grande mau gosto. Quase toda a população da ilha (umas duzentas pessoas) foi bater à porta do comerciante.
— Vocês estão zangados comigo porque o mundo não acabou? Não tenho culpa! Foi o pastor quem disse!
Melker achou engraçado as pessoas estarem irritadas por não terem morrido. Ele mesmo estava irritado, mas era por ter sido tão ingênuo. Tomou uma resolução. Não queria mais viver assim longe de tudo, sem conhecimento das coisas, tornando-se vulnerável a qualquer bobagem trazida de fora por um ignorante. Com certeza o povo de Estocolmo não tinha passado a noite orando e esperando o fim do mundo.
— Vovô Melker, foi assim que o senhor resolveu vir para o Brasil?
— Foi. Tomei a resolução nesse mesmo dia.
— Mas por que não escolheu morar em Estocolmo, que era muito mais perto?
— Porque eu estava cansado do frio, dos verões sem noite, dos invernos sem dia, da mesmice das coisas, de tudo. Eu queria movimento, aventura, cores e calores, frutas tropicais e animais exóticos.
— E a senhora, vovó Hedvig? Nunca sentiu saudade da sua vida lá em Vildablommorö?
— Só tenho saudade de uma coisa. Daquela campina verdinha, extensa, coberta de flores silvestres...

(Vovó disse isso sorrindo, olhando para o vovô com um brilho no olhar que não deixava a menor dúvida sobre o verdadeiro motivo da saudade...)
Imagem: http://www.masterfile.com

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