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domingo, 22 de março de 2015

Primeiro dia de aula

Fevereiro. Início do segundo colegial. Minha colega Helena veio correndo me encontrar assim que cruzei o portão da escola. Devia estar me esperando. Eram tempos sem internet; mesmo o telefone comum era raro nas residências. As notícias não circulavam com tanta rapidez, mas sempre se podia contar com a Helena, que sabia tudo de todos o tempo todo. Nem me cumprimentou apesar dos quase três meses de separação e foi perguntando afobada:
— Você já viu a Rafaela? Hein? Já viu?
— Qual das duas? A Cabelinho ou a Narizinho?
Pausa para uma nota explicativa.
Havia duas Rafaelas na nossa classe.
1) Rafaela Cabelinho: ela cortava o cabelo muito curto, quase careca, estilo bem masculino. Sentava-se na última carteira da fila da parede. Nunca fazia perguntas, nunca pedia pra ir ao banheiro, nunca nada. Só se levantava do lugar na hora do intervalo e na hora da saída. Suspeitava-se que era lésbica e que estava apaixonada pela professora de Português, dona Mirtes, a mais jovem e bonita da escola. A suspeita de tal paixão vinha do fato de que ninguém — na escola inteira — tirava notas tão altas em Português como a Cabelinho.
2) Rafaela Narizinho: essa menina era bonita, bem cuidada, participativa. Mas tinha o nariz encurvado, o que lhe causava complexo de feiura. Aquilo não era um defeito, era apenas herança genética devido à etnia da sua família. Mas ela não enxergava assim. Quando ninguém estava pensando em nariz, lá vinha ela com algum assunto relacionado a nariz. Principalmente ao próprio. Ô coisa chata.
Fim da nota explicativa.
Voltando ao assunto, Helena respondeu:
— A Narizinho! Você já viu?
— Não.
— Então se prepare! Você não imagina o que ela fez!
— Me conta aí!
— Ela fez plástica no nariz! Ficou ridículo!
E começou a rir tanto que as lágrimas escorriam. Comecei a rir também só de ver.
— Ridículo por quê? Ridículo por quê?
Fazendo grande esforço, ela interrompeu as gargalhadas:
— Sabe o triângulo retângulo? Aquele do ângulo reto, do teorema de Pitágoras?
— Sei, sei! O que tem a ver?
— O cirurgião plástico deve ser fã do Pitágoras! A parte de cima do nariz da Rafaela ficou igual a uma hipotenusa!
E voltou a gargalhar feito louca.
Descontado o exagero da minha colega, tive que concordar com a descrição. Parecia que o médico havia aplainado o encurvamento do nariz seguindo o traçado de uma régua. Ficou retinho, apontando pra baixo num ângulo de quarenta e cinco graus.
Foi muito duro ter de cumprimentar a Narizinho fazendo cara de admiração e dizer:
— Como você está bem, Rafaela! Sua plástica ficou ótima!
E a coitada sorrindo feliz, acreditando piamente. Enquanto isso a peste da Helena, de costas, não parava de tossir. Disfarçando a gargalhada, é claro.
Tudo isso aconteceu antes de entrarmos na classe. Mal sabia eu como aquele dia seria longo...
A primeira aula era de Biologia. Dona Valquíria, geralmente bem humorada, estava com cara de poucos amigos. Paramos de cochichar sobre a hipotenusa de Narizinho e ficamos bem quietos. Coisa esquisita: era o primeiro dia de aula, nem tinha dado tempo de aprontarmos nada, então por que a professora estava com aquela cara?
Dona Valquíria nos cumprimentou e disse que estava muito triste por ter de nos receber, no primeiro dia letivo, com uma notícia grave. Céus, pensei eu, será que ela vai embora da escola?
— Pessoal, lembram do Sérgio, aquele menino loirinho que foi transferido para cá no fim do ano passado?
Todo mundo ficou parado, na expectativa da notícia. Esse menino, o Sérgio, era muito bonito. Loiro, esbelto, olhos cor de mel. Não era da nossa classe, mas não passou despercebido pelas meninas. Pena que já tinha namorada lá na outra escola, segundo informações levantadas na época pela Helena. A professora continuou:
— Infelizmente o Sérgio faleceu.
Ela esperou a surpresa se consolidar, os comentários diminuírem, e prosseguiu:
— Foi um acidente. Está fazendo uma semana. A missa de sétimo dia é hoje.
Mais comentários. Acidente? Que acidente? Como assim?
— Ele foi mexer na arma do pai e ela disparou acidentalmente. Uma tragédia.
Mais comentários. Por que ele foi mexer na arma? Por que o pai dele tinha uma arma? Por que a arma não estava guardada fora de alcance?
— Não temos resposta para essas perguntas. Só nos resta orar por ele e dar apoio à família. A missa de sétimo dia é hoje, no final da tarde. Quem puder ir, faça essa caridade. Pela família, principalmente para dar aos pais o consolo de saberem que o filho tinha muitos amigos.
Nessa altura várias meninas já estavam chorando. Nenhum dos meninos chorou, porém mostravam semblantes muito sérios, até os mais gozadores da turma. Pude observar tudo isso por ser uma adolescente imatura, sem experiência de vida, capaz de analisar friamente a situação e incapaz de entender o motivo de se chorar por alguém praticamente desconhecido.
Dona Valquíria falou por muito tempo sobre a morte, segundo ela “esse fato inevitável da vida”, e quanto mais ela falava mais o pessoal se acalmava. Hoje reconheço como ela foi admirável nos ensinando, naquele momento delicado — e sem que percebêssemos — coisas importantes para o resto de nossas existências.
Não me lembro das outras aulas daquela manhã. Só sei que todos deixaram de lado a hipotenusa de Rafaela Narizinho. A morte do colega virou o único assunto. Mas Helena tinha que "enriquecer a discussão", como sempre. Na hora do intervalo ela veio com a história de que não havia sido acidente.
— Como assim, não foi acidente?
— Fiquei sabendo que ele brigou com a namorada, chegou em casa, foi direto pegar a arma de cima do guarda-roupa do pai, e se suicidou.
— Helena, pelo amor de Deus, como você pôde ter ficado sabendo de uma coisa dessa?
— Uma funcionária escutou os professores comentando, contou pra outra, e eu escutei a conversa das duas.
Nessa hora eu fiquei com muita, mas muita raiva da Helena. Podia ser mentira da tal funcionária. Tem gente que adora inventar história só pra aparecer. Mesmo que fosse verdade, não era coisa para se espalhar. Será que ela não percebia isso? Falei tudo com a maior calma possível mas com bastante ênfase. Ela respondeu que estava fora do seu alcance porque outras pessoas também tinham ouvido e já estavam espalhando. A partir daí, falsa ou verdadeira, foi a versão que predominou.
No fim da tarde fui à igreja. Cheguei atrasada e tive que sentar bem atrás. O lugar estava cheio de gente que eu não conhecia; deviam ser os parentes e também os colegas da outra escola. Consegui ver dona Valquíria lá na frente, junto com outros professores e a diretora.
Como foi triste aquela missa. Na hora em que o coral começou a cantar, a música era de uma tristeza tão profunda como eu jamais tinha ouvido. Quase todo mundo caiu em prantos. Ao perceber que eu também estava quase chorando, forcei-me a pensar que não conhecia o Sérgio, que o fato era lamentável mas não ia afetar a minha vida em nada, e que eu estava sendo mais uma vítima da estratégia maquiavélica daquele coral para obrigar todo mundo a chorar. Então olhei fixamente o lustre mais próximo para que a luz represasse e secasse alguma lágrima inoportuna. Fiquei assim um bom tempo, e dessa maneira pude assistir à missa bem quietinha, sem chorar nenhuma vez.
Quando acabou lá veio a Helena, que tinha me localizado na multidão. Percebi que ela também não havia chorado.
— Sabe quem estava aí? A namoradinha do Sérgio, coitada. Foi ela quem mais chorou a missa toda. A Rafaela Cabelinho sentou bem do lado da professora Mirtes, você viu? E adivinha quem também veio? A Rafaela Narizinho, com hipotenusa e tudo.
E escondeu o rosto no meu ombro como se chorasse. Mas aquilo não era choro.
Estava mesmo era rindo até não poder mais.

Imagem:http://bloodedkuni.deviantart.com


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