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terça-feira, 26 de agosto de 2014

Um anjinho meio torto - "Os meninos da Rua Beto"

Abril de 1958

Havia uma casa na rua de baixo com um jardim cheio de roseiras. Ali morava a Clarice, menina da minha idade, que tinha uma irmã ainda bebê chamada Sônia.

Minha mãe era madrinha da Sônia. Bonitinha mas de rostinho triste, ela sofria de alguma doença que a levou para o céu com cerca de um ano, vítima do atraso da medicina e da ignorância generalizada. Foi a primeira morte, o primeiro velório, o primeiro caixãozinho que vi na vida.

Clarice e eu brincávamos juntas muitas vezes. Minha suspeita era de que havia ali um certo retardo mental, já que se conseguia enganá-la nas brincadeiras com demasiada facilidade.

Além disso, ela apresentava certas atitudes estranhas.

Quando se zangava com alguém, disparava a gritar os palavrões e impropérios mais absurdos, coisas que eu jamais tinha ouvido ou imaginado existir. Ela acompanhava os insultos com gestos que às vezes eram ainda piores que as palavras. Lembro-me de ficar olhando aquilo de boca aberta e olhos arregalados, tamanho o espanto que me causava.

Certo dia eu estava comendo uma fatia de pão quando, perdendo a vontade, simplesmente joguei fora. Clarice foi lá, pegou aquela sobra toda suja de terra e disse:

”Não pode jogar fora assim, é pecado.”

Então deu um beijinho no pão e jogou no mesmo lugar.

Fiquei admiradíssima. Tanto com a ausência de nojo na menina, que nem ligou para a sujeira na hora de dar o beijinho, como pelo conceito novo que ela me apresentou: nunca tinha escutado falar e nem pensado no pão, ou qualquer outro alimento, como algo a se reverenciar.

No final, considero que a Clarice me ensinou duas coisas importantes.

Primeira: falar palavrão é uma coisa muito feia. Quando existe uma pendência a ser resolvida, quem tem razão não é necessariamente aquele que fala os piores insultos ou grita mais alto. É preciso conversar com calma, expondo claramente os argumentos. Se a outra pessoa não quiser ouvir, ou então responder com falta de educação, melhor que fique falando sozinha. Ou que fale com o nosso advogado.

Segunda: todo alimento é sagrado, jamais deveria ser tratado com desdém. Plantar, cuidar, colher, processar e preparar alimentos é um processo longo e trabalhoso que merece ser valorizado e respeitado. Não devemos ser gulosos, pegando mais do que conseguimos comer. Não devemos ser dissipadores, consumindo mais do que o necessário - alimentos ou o que quer que seja.

Em suma, podem-se aprender coisas boas e importantes tanto pelos bons quanto pelos maus exemplos. Até “um anjo torto desses que vivem nas sombras” (*), tem algo a nos ensinar. Basta prestar atenção.

(*) In “Poema de Sete Faces”, Carlos Drummond de Andrade

Imagem: http://fineartamerica.com

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