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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O caso da minhoca - "Os meninos da Rua Beto"

Janeiro de 1969

Meses antes de completarem quinze anos o meu irmão e o Izaías trabalharam em uma metalúrgica que fazia parte de uma conhecida fábrica de chuveiros, a qual empregava menores de idade sem registro em carteira inclusive para trabalhos perigosos e insalubres com solda, prensa, cromação, etc.

O serviço do meu irmão não oferecia perigo porque era na linha de montagem, mas o Izaías trabalhava em uma prensa. O único treinamento em segurança que recebeu foi a exibição de um vidro cheio de formol contendo fragmentos de dedos e tecidos humanos, com a advertência de que “se você não tomar cuidado, olha só o que pode acontecer!”.

O chefe da seção onde eles trabalhavam era um rapaz que tinha cara de minhoca, pelo menos na opinião dos dois: olhos baixos demais em relação ao nariz, boca pequena e redonda, ombros estreitos e caídos. E além disso tudo era careca.

A uma certa altura de um certo dia, em plena hora do expediente, o Izaías chegou para o meu irmão e contou a seguinte piada, com palavras mais ou menos assim: um minhoco colocou a cabeça para fora do buraco e viu, saindo de um buraco vizinho, uma forma roliça e insinuante. Como era um conquistador, o minhoco disse, fazendo voz de galã: “Olá, querida! Como vai?” Ouviu então a seguinte resposta irritada: “Não seja imbecil! Não tá vendo que eu sou o seu rabo?!”

"QUÁ, QUÁ, QUÁ, QUÁ!!!!!" (O meu irmão não era nada discreto quando dava risada.)

O chefe escutou e resolveu verificar o que estava acontecendo. Enquanto o meu irmão ria, de olhos quase fechados, o Izaías viu o cara-de-minhoca se aproximando e começou a rir também. O meu irmão olhou para o chefe e pensou a mesma coisa. Riu mais ainda. Em seguida os dois se entreolharam, um adivinhou o que o outro estava pensando, e a gargalhada foi em uníssono.

Pelo resto do dia, quando os dois viam o chefe, começavam a rir feito loucos. Uma hora o homem não aguentou mais. Chegou para os indisciplinados e disse que eles eram esperados no departamento pessoal para assinar uma advertência.

Se ele os tivesse deixado ir sozinhos o fim da história seria outro; mas ele foi junto, e portanto os garotos assinaram as advertências dando gargalhadas. Aquele comportamento era tão fora do normal que o pessoal do DP achou que eles estavam loucos. Resolveram despedi-los na mesma hora.

"Izaías, você está despedido!"
"QUÁ, QUÁ, QUÁ, QUÁ!!!"

Foi aí que tiveram certeza de que os rapazes estavam mesmo loucos, e despediram o meu irmão em seguida. Os dois foram embora se chacoalhando de tanto rir.

Moral da história: a minhoca é um animal muito útil. Fertiliza o solo, serve como isca nas pescarias, aumenta o conteúdo proteico dos hambúrgueres de carne bovina, e no caso relatado acima salvou dois jovens do perigo de se tornarem vítimas mutiladas do capitalismo selvagem.

Ah sim! Minhoca também serve para fazer poesia:

Ao ver uma velha coroca
fritando um filé de minhoca
o Zé Minhocão
falou pro irmão:
“Não achas melhor ir pra toca?”

Poema sem título
Tatiana Belinky

“Limeriques das coisas boas”, 1987

Imagem: http://www.studyblue.com

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