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"OS MENINOS DA RUA BETO"

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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Piquititico

Meu Piquititico morreu. Eu não vi nada, só fiquei sabendo uma semana depois. Não vi ele morto, não vi ele sendo enterrado, não vi nada. A última lembrança que tenho é de estar com ele dormindo no meu colo. Tão pequenininho, tão bonitinho.
Meu avô paraibano é que tinha esse apelido, foi daí que copiei. Filho de mãe índia e pai espanhol, era baixinho e muito brabo. Cabeludo também, cabelo preto, liso e duro. Diz que só não tinha cabelo em volta dos olhos, na palma das mãos e na planta dos pés. Se chamava Teodorico, mas ninguém dizia “seu Teodorico”. Era “seu Piquititico” mesmo. Minha bisavó foi quem pôs o apelido, por isso ele não se zangava e até gostava de ser chamado assim.
Pois o meu Piquititico era tal e qual: ainda um nenê e já brabinho, com aquelas penugenzinhas pretas crescendo e se espalhando.
Pois então. Eu estava no banco de trás com ele dormindo no meu colo. Meu marido ia dirigindo. Aí veio o caminhão desgovernado e bateu. Por detrás. Meu marido se machucou, mas não muito. Eu e Piquititico batemos a cabeça. Minha cabeça é dura, não quebrou, só sacudiu o cérebro e me deixou inconsciente. Mas ele, coitado, com os ossos ainda molinhos, não teve escapatória.
Quando acordei no hospital, uma semana depois do desastre, só queria saber dele. Uma coisa que não entendo até hoje: quando me contaram, a minha preocupação não era ele ter morrido, mas sim ele ter sofrido naquela hora. Me disseram que não. Era impossível ele ter sentido dor porque a batida foi tão forte que não deu tempo de nada. Com certeza morreu dormindo e foi direto para o céu.
Isso já faz um tempo mas ainda não entendi o que aconteceu, as pecinhas ainda não se encaixaram nos seus lugares. Continuo mais admirada do que triste com tudo isso.
Sei que posso ter outros, mas nenhum será como o Piquititico. Às vezes pego o seu travesseirinho e fico abraçando, fazendo de conta que é ele. Faço isso escondido do meu marido. Ele ia achar que estou louca. Ou pior: ia ficar com dó de mim.
Meu avô Teodorico é que deve estar contente a estas horas. Certeza de que está se divertindo muito lá no céu, brincando com o bisnetinho que ainda não conhecia. 


Imagem: https://pt.aliexpress.com

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Fergus e Brianna

    Brianna chegou e foi direto para o quarto. Já entrou tirando os sapatos.

― Fergus! Deitado no meu travesseiro, né?
― É macio. Perfumado.
― Tá bom. Mas não acostuma, tá?
― Estou aquecendo ele pra você.

    A menina largou a bolsa em qualquer lugar e se atirou na cama.

― Ai que cansaço.
― Pode ir contando. Como foi a festa? Ela é bruxa mesmo?
― Ha ha ha! Se ela é bruxa eu sou a Deusa Aine.
― Pelo menos a comida foi boa?
― Foi. Batata frita, sanduíche e refrigerante. De sobremesa, pudim e brigadeiro.
― Sagrados chifres de Cernuno! Não tinha ervas para colocar nos pratos? Louro, erva-doce, alecrim...
― Não! Só ketchup e mostarda!
― Nem um pouquinho de hidromel?
― Nada! Só refrigerante e água.
― Por que ela pensa que é bruxa?
― Ela ganhou um livro sobre o tema. Leu, achou bonito e pá! virou bruxa.
― Se fosse assim eu lia um livro sobre panteras e virava uma pantera negra poderosa no meio de uma floresta selvagem.

    Brianna se espreguiçou toda como uma felina sonolenta.

― Ainda bem que eu já nasci maravilhosa. Não preciso me transformar em nada.
― Além da comida o que mais teve na festa? Dança em volta da fogueira?
― Ah isso teve sim. Foi na área de serviço, em volta de uma churrasqueira portátil cheia de carvão aceso.

    Normalmente impassível, Fergus se remexeu como se alguma coisa o incomodasse.

― Churrasqueira portátil? Não entendo.
― Uma dessas redondas, que parecem um caldeirão.
― Não tinha fogo? Só carvão aceso?
― Isso mesmo. A mãe dela disse que fogo era muito perigoso.

    Fergus abriu a boca mas não emitiu nenhum som. Ficou alguns instantes pensativo.

― Por que na área de serviço e não ao ar livre? Ela não tem um quintal, um jardim?
― Tem. Mas a mãe dela não deixou fazer a dança no quintal por causa da friagem da noite.

    Dessa vez Fergus não se conteve e soltou um grunhido. Imediatamente ouviram-se risadas endoidecidas vindas do corredor. Brianna levantou-se depressa e abriu a porta. Seu irmão mais novo e um coleguinha riam e faziam gestos desencontrados.

― Sai daqui, moleque! Vai procurar o que fazer!

    O garotinho continuou dando gargalhadas e cutucou o amigo:

― Eu não te falei, Felipe? Eu não te falei? A minha irmã conversa com o gato!

    Felipe, sem nenhuma cerimônia, correu para dentro do quarto. Sobre o travesseiro de rendas brancas, em pose majestosa, repousava um belíssimo gato preto. 

     Imóvel, Fergus o encarava com ar de reprovação, uma expressão quase humana nos olhos verdes, luminosos. O menino gritou de susto e saiu correndo. 

― O gato falou comigo! O gato falou comigo!


Imagem: http://www.chickensmoothie.com

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Numa tarde de verão

José Carlos levantou os olhos da papelada para conferir se o ventilador estava mesmo ligado. Estava, mas o calor continuava sufocante. A maioria dos funcionários era jovem e parecia não se importar com o calor nem com o barulho das máquinas de escrever e de somar. Também ele, anos atrás, fora assim. Aprovado no concurso público, a vida resolvida, só tinha que trabalhar direitinho. A noiva, ao saber da aprovação, decretou:
― Agora sim, Zequinha, podemos casar.
Casaram. Puro boato aquela conversa de que funcionário público era folgado. Ele não era nem podia ser, com tantos processos despejados dia após dia sobre a sua mesa. Agora, depois de todos aqueles anos, sentia-se cansado.
Voltou a atenção às folhas timbradas que tinha nas mãos. “Secretaria do Bem Estar Social”. Bem estar? Ele não estava se sentindo bem.
― Chega. Vou-me embora.
Sem outras análises ou considerações, empilhou os papéis, arrumou as pastas, guardou na gaveta carimbos, tinteiros, canetas e mata-borrões, levantou-se e rumou para a porta. Alguns olharam admirados. Não falaram nada, ou por falta de intimidade ou por falta de interesse. Pegou o chapéu e foi pra casa.
O caçula, refestelado na rede da varanda, lia um gibi. Nem o viu chegar. Ao abrir a porta descobriu o que faziam em casa enquanto ele trabalhava. A mulher passava esmalte nas unhas. As filhas liam uma revista “O Cruzeiro”. O rapaz mais velho assistia a um jogo de bola pela televisão.
Todos se voltaram para ele.
― O que foi, Zeca? Algum problema na repartição?
― Pai, o senhor está doente? 
― Patrão, quer um cafezinho?
Nenhuma resposta. Subiu lentamente para o quarto. Trancou a porta e tirou a roupa. Foi para a sacada tomar a fresca sem se importar que o pudessem ver da rua. Desceu as escadas. Mulher, filhos e empregada o observavam calados. Descalço e de cuecas, tranquilo como se estivesse em uma praia, abriu a porta e saiu à varanda. O caçula, percebendo a sua presença, levantou-se atarantado.
José Carlos deixou-se cair na rede. Puxou as abas sobre os olhos, deu um impulso com o pé e ficou lá se balançando. Apenas se balançando... Para lá e para cá, para lá e para cá... 


Imagem: http://www.jardimdecorado.com

Baseado no conto de Raduan Nassar "Aí pelas três da tarde"

sábado, 20 de agosto de 2016

Sexta-feira 13

Dente extraído, desatou-se a sangria. O dentista recomendou ir logo pra casa e colocar gelo. O ônibus nunca demorava; nesse dia demorou. Sangue não parava de sair. Melhor ir de táxi. A corrida ficava nuns dez reais. Perguntou ao taxista se ele tinha troco pra cinquenta. Tinha. Ainda bem, porque começava a sentir tontura. Já em movimento, ao ouvir o destino o taxista parou. Mandou descer e pegar outro, na outra rua: aquela era fora de mão. Em desespero, obedeceu, torcendo para que o próximo viesse logo. Uma mulher chegou e pediu informação. Medo de abrir a boca e causar susto. Lenço na frente, murmurou qualquer coisa. Escondeu rapidamente a mancha vermelha que se formou. Finalmente o táxi. Trânsito difícil. Na hora de pagar, o taxista não tinha troco para cinquenta. 


Imagem: http://www.euvejofloresemvoce.com.br

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Ode à Manteiga

Para
Millôr
Manteiga, meiga manteiga
como eu te achava linda
na manteigueira de cristal
da casa de minha dinda.

A bela cor amarela,
sua macia textura,
fresquinha, com ou sem sal,
a maior das gostosuras.

Lá em casa, infelizmente,
era outra a minha sina.
Para o bem, ou para o mal,
só havia margarina.

Agora que sou adulto
tomo as minhas decisões.
Margarina? Nem a pau!
Só manteiga! Aos borbotões!

Imagem: http://www.notonthehighstreet.com

Poema composto por pura inveja do genial "Ode à margarina", de Millôr Fernandes.
"Essa cara não me é estranha e outros poemas", Companhia das Letras (página 178)

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Júlia e o pé de milho

A pequena Júlia enfiou um grão de milho no nariz. Por quê? Por motivo nenhum. O grão que não estourou estava ali, no meio das pipocas. O nariz tinha dois buraquinhos. Pronto. 
A menina nem reparou no desespero da mãe. Concentrou-se no irmão, que apontava para ela e ria feito louco:
― Há há há há! Vai nascer um pé de milho no nariz da Júlia!!!!
Enquanto a pegavam no colo e corriam para o carro, ela começou a se preocupar.
Um pé de milho crescendo no nariz?
Como fazer para andar por aí com uma planta tão grande saindo da narina, com aquelas folhas todas se arrastando pelo chão? Difícil não tropeçar.
E se alguém quiser fazer pipoca? Tem gente que gosta de pamonha, outros preferem bolo de fubá. Vai ficar todo mundo atrás dela, pedindo espigas. Mais e mais espigas. 
Júlia já se via fazendo força para atender a todos. Como era cansativo!  
E na hora de dormir? Uma complicação ajeitar aquele trambolho no meio das cobertas.
Preocupações demais para uma criança tão pequena. Vontade de chorar.
Começou a fazer biquinho, mas nessa hora o médico disse:
― Consegui!
E mostrou o grão na ponta da pinça.
Alívio. Todos os problemas resolvidos.
― Mãe?
― Que é, Júlia?
― Me compra pipoca?
Imagem: http://hivewallpaper.com/

sábado, 2 de julho de 2016

A batalha do padre Antônio

Tio Antônio era padre. Especializou-se na “unção dos enfermos”. Ou “extrema unção”, como se dizia antigamente.
Nunca entendi a solicitude do meu tio. Quando recebia um chamado ele largava tudo, vestia os paramentos, pegava o frasco de óleo bento, a bíblia, e saía apressado. De dia ou de noite, com sol ou com chuva, calor ou frio, são ou doente.
Era como se gostasse daquilo. Mas não gostava, ele sofria fazendo os atendimentos.   
Sempre retornava abatido. Ia direto para o quarto e passava horas ajoelhado no chão, rezando pela alma da pessoa a quem havia acabado de ungir.
Eu via tudo isso porque ele morava conosco. Minha mãe dizia que o cunhado não regulava bem: estava sempre calado e jamais sorria. Meu pai não dizia nada, aceitava o irmão do jeito que ele era.
Tio Antônio abandonara a faculdade de filosofia para ser padre. Vocação tardia que ninguém entendeu. Seu falecimento foi há oito anos. Não quis receber extrema unção. Disse que não merecia.
Fiquei ao seu lado a maior parte do tempo enquanto esteve no hospital. A doença não o impedia de falar, mas ― como sempre ― permaneceu calado. Minutos antes do passamento é que se manifestou. E falou tudo, falou aos borbotões.
Leigo que sou, confessou-se a mim, única pessoa ao seu alcance. Queria ser perdoado.
― Perdoado de quê, meu tio?
― Eu matei uma pessoa.
Delírio de moribundo? Já ia começar a contradizê-lo quando ele apontou para a sua velha bíblia na mesa de cabeceira.
―Me dê a bíblia.
Menos mal, pensei. Rezar é melhor do que delirar. Mas ele não queria rezar. Abriu o livro e retirou um recorte de jornal. Era uma foto amarelada. Mostrava jovens brigando. Um deles agachado, protegido por um grupo à esquerda, enquanto outros à direita tentavam atingi-lo com objetos em riste. Acima, o título: “De repente, a violência".
― O que é isso, tio?
― Esse moço aí no chão. Era o Fabrício.
Falou como se eu devesse conhecer o cara.
― Que Fabrício?
― Foi ele que eu matei.
Não falei nada. Falar o quê?
Ele prosseguiu, sem olhar para mim. Fixava os pés da cama, os olhos parados, sem expressão.
― Ninguém sabe que eu matei. Por isso não fui preso. Mas eu sei. Ele sabe. E Deus sabe. Matei por motivo fútil. Por ciúmes. Destruí uma vida só porque estava louco de ciúmes.
Fiquei quieto. Deixei o tio falar. Em nenhum momento o interrompi. Ele continuou. Falou tudo, de um jorro só.
― Ele era da engenharia do Mackenzie, eu era da filosofia da USP. Eles apoiavam a ditadura, nós não. Nunca tínhamos conversado, eu só o conhecia de vista. Na hora do almoço a minha turma ia no bar do Carioca, e a turma dele também. Uma turma não conversava com a outra. Só fui trocar duas palavras com o Fabrício lá no Clube Paulistano. Não foi pela minha vontade nem pela vontade dele, mas sim porque tínhamos um amigo em comum, o Manolo. Grande vagabundo, o Manolo. Não fazia nada na vida porque o pai era rico. Passava os dias zanzando, alegre, simpático, bem apessoado. Generoso também. Nunca se negava a ajudar quem precisasse de um dinheiro ou de um ombro para se apoiar. Impossível não gostar do Manolo. Um dia me convidou pra passar uma tarde no clube. Eu fui; lá chegando o encontrei em conversa animada com aquele mackenzista de direita. Aí que fiquei sabendo do nome e do sobrenome, Fabrício Alexandre do Couto e Magalhães. Assim mesmo: “do Couto e Magalhães”. Família aristocrática. Ele também me reconheceu. Não trocamos mais que duas palavras, apesar da insistência do Manolo em nos entrosar. Passamos o resto da tarde meio emburrados, com o Manolo de permeio fazendo as suas gracinhas.
Aqui ele deu uma pausa. Para descansar ou talvez para rever, com os olhos da mente, as cenas que descrevia. Logo continuou.
― Na semana seguinte passamos a fingir que não nos conhecíamos quando as nossas turmas se cruzavam lá no bar do Carioca. Mas em seguida veio outro convite. Aceitei porque o clube era muito aprazível. Qual não foi minha decepção quando vi o Fabrício lá de novo! Dessa vez conversamos um pouco mais para não fazer desfeita ao Manolo. Sem tocar em política. Depois disso passamos a nos cumprimentar com um aceno de cabeça, sem ninguém perceber, sempre que nos víamos na hora do almoço.
Outra pausa. Tive certeza de que não era cansaço, era uma revisitação ao passado.
― O Manolo parecia empenhado em nos aproximar, porque os convites para o clube continuaram. No encontro seguinte ele disse claramente que o Fabrício e eu devíamos nos tornar amigos, já que éramos muito parecidos. Absurdo! Um uspiano de esquerda confraternizando com um mackenzista de direita? Trocamos olhares de desprezo, mas não falamos nada. Nosso amigo era um alienado, não sabia o que estava acontecendo no país. Ou não se importava. Mais uma vez procuramos nos tratar como pessoas civilizadas em consideração ao Manolo, que no final das contas era um ótimo parceiro.
Agora ele demonstrava cansaço. A respiração estava ofegante.
― Na vez seguinte, Fabrício apareceu no clube com uma moça. Chamava-se Vera Lúcia. Linda, muito linda. Parecia aquela artista de cinema, a Claudia Cardinale. Quando vi os dois ali de mãos dadas, e notei como ela era bonita e como os dois combinavam, tive um sentimento que nunca havia tido na vida. Inveja, tristeza, frustração, desespero, vontade de chorar! Mas homem não chora nem demonstra sentimento. Fiquei impassível, mesmo depois da revelação devastadora. Continuei firme, naquele fim de semana e nos outros. Até hoje não sei como consegui fingir indiferença. Fabrício ao lado da Vera Lúcia, os dois bonitos, jovens, alegres, se dando tão bem. Eu tinha que conviver com a minha inveja, com o ciúme, com a completa desesperança.
O final da frase quase não ouvi porque o tom de voz foi baixando até terminar em um arquejo. Recuperou-se e retomou a narrativa.
― O auge da minha neurose coincidiu com o agravamento das brigas entre mackenzistas e uspianos. No dia em que tudo aconteceu eu tinha amanhecido muito mal, depois de varar a madrugada sem dormir. Homem não chora, mas naquela noite não me segurei. Tanta raiva eu tinha de mim mesmo. Raiva por estar sentindo aquilo. E a certeza de que nunca poderia ser feliz. Então, na parte da tarde, estourou o confronto. Por causa da campanha da UNE. Uma turma de secundaristas foi lá fazer comício para a eleição e a coisa desandou. Os inimigos partiram pra cima dos garotos e a gente resolveu ajudar. Acabou virando guerra. Jogaram bomba incendiária no nosso prédio, nós invadimos o território deles, e daí pra frente não deu pra controlar mais nada. Foi quando vi o Fabrício do outro lado da calçada com um tijolo na mão, pronto pra atirar em alguém. Me juntei ao grupo que foi enfrentá-los. Esse moço aí da fotografia, levantando o guarda-chuva, bateu na cabeça do Fabrício e ele caiu. Nessa hora peguei o tijolo do chão. Os meus colegas saíram correndo, mas eu fiquei. Vi que o Fabrício ia se levantar, a guarda-chuvada só tinha deixado ele tonto.  Aí fiquei louco. Enxerguei um jeito de me livrar do problema que me atormentava. Foi inspiração do demônio, mas sou culpado do mesmo jeito porque me deixei levar. Não pensei duas vezes: dei com o tijolo na cabeça dele.
Ao chegar nesse ponto ele parou novamente. Vi que fez esforço para retomar. As lembranças estavam ficando mais penosas.
― Dessa vez ele caiu pra não se levantar mais. Fugi pensando que o havia matado, mas ele não estava morto. No hospital descobriram uma trinca na coluna, logo abaixo do pescoço. Ficou tetraplégico. Morreu pouco tempo depois. A causa da morte foi pneumonia, consequência da imobilidade. Meu sofrimento, desde a tijolada até o desfecho fatal, não dá pra descrever. Culpa misturada com tristeza mas também com alívio, o alívio aumentando a culpa. Eu não sabia o que fazer. Larguei tudo e fui me penitenciar. Virei padre, tentei ajudar as pessoas para mostrar a Deus o meu arrependimento. Porque eu me arrependi. Mil vezes viver na dor e na vergonha do que no remorso e no arrependimento. É por causa desse arrependimento que peço perdão a ti, sobrinho. Você representa Deus para mim neste momento.
Tio Antônio ficou me fitando em silêncio. O que eu podia fazer? Estava chocado, mas coloquei a mão em sua testa. Não sei de onde tirei as palavras:
― O senhor está perdoado, padre Antônio. Eu lhe concedo o perdão pleno e eterno. Fique em paz.
Ele suspirou, agradecido. Voltou o olhar para os pés da cama. Nesse momento seu rosto se iluminou. Sorriu. Parecia estar vendo alguém. E pronunciou, alto e claro, suas últimas palavras:
― Fabrício, você veio me buscar! Já estou indo, meu amor.


Imagem: "De repente, a violência" 
Fotógrafo: Gil Passarelli

Esta foto registrou confronto entre grupos de alunos do Mackenzie 
devido às eleições para a União Estadual dos Estudantes de SP. 
Venceu o Prêmio Esso de Fotografia em 1968.