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"OS MENINOS DA RUA BETO"

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sábado, 20 de agosto de 2016

Sexta-feira 13

Dente extraído, desatou-se a sangria. O dentista recomendou ir logo pra casa e colocar gelo. O ônibus nunca demorava; nesse dia demorou. Sangue não parava de sair. Melhor ir de táxi. A corrida ficava nuns dez reais. Perguntou ao taxista se ele tinha troco pra cinquenta. Tinha. Ainda bem, porque começava a sentir tontura. Já em movimento, ao ouvir o destino o taxista parou. Mandou descer e pegar outro, na outra rua: aquela era fora de mão. Em desespero, obedeceu, torcendo para que o próximo viesse logo. Uma mulher chegou e pediu informação. Medo de abrir a boca e causar susto. Lenço na frente, murmurou qualquer coisa. Escondeu rapidamente a mancha vermelha que se formou. Finalmente o táxi. Trânsito difícil. Na hora de pagar, o taxista não tinha troco para cinquenta. 


Imagem: http://www.euvejofloresemvoce.com.br

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Ode à Manteiga

Para
Millôr
Manteiga, meiga manteiga
como eu te achava linda
na manteigueira de cristal
da casa de minha dinda.

A bela cor amarela,
sua macia textura,
fresquinha, com ou sem sal,
a maior das gostosuras.

Lá em casa, infelizmente,
era outra a minha sina.
Para o bem, ou para o mal,
só havia margarina.

Agora que sou adulto
tomo as minhas decisões.
Margarina? Nem a pau!
Só manteiga! Aos borbotões!

Imagem: http://www.notonthehighstreet.com

Poema composto por pura inveja do genial "Ode à margarina", de Millôr Fernandes.
"Essa cara não me é estranha e outros poemas", Companhia das Letras (página 178)

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Júlia e o pé de milho

A pequena Júlia enfiou um grão de milho no nariz. Por quê? Por motivo nenhum. O grão que não estourou estava ali, no meio das pipocas. O nariz tinha dois buraquinhos. Pronto. 
A menina nem reparou no desespero da mãe. Concentrou-se no irmão, que apontava para ela e ria feito louco:
― Há há há há! Vai nascer um pé de milho no nariz da Júlia!!!!
Enquanto a pegavam no colo e corriam para o carro, ela começou a se preocupar.
Um pé de milho crescendo no nariz?
Como fazer para andar por aí com uma planta tão grande saindo da narina, com aquelas folhas todas se arrastando pelo chão? Difícil não tropeçar.
E se alguém quiser fazer pipoca? Tem gente que gosta de pamonha, outros preferem bolo de fubá. Vai ficar todo mundo atrás dela, pedindo espigas. Mais e mais espigas. 
Júlia já se via fazendo força para atender a todos. Como era cansativo!  
E na hora de dormir? Uma complicação ajeitar aquele trambolho no meio das cobertas.
Preocupações demais para uma criança tão pequena. Vontade de chorar.
Começou a fazer biquinho, mas nessa hora o médico disse:
― Consegui!
E mostrou o grão na ponta da pinça.
Alívio. Todos os problemas resolvidos.
― Mãe?
― Que é, Júlia?
― Me compra pipoca?
Imagem: http://hivewallpaper.com/

sábado, 2 de julho de 2016

A batalha do padre Antônio

Tio Antônio era padre. Especializou-se na “unção dos enfermos”. Ou “extrema unção”, como se dizia antigamente.
Nunca entendi a solicitude do meu tio. Quando recebia um chamado ele largava tudo, vestia os paramentos, pegava o frasco de óleo bento, a bíblia, e saía apressado. De dia ou de noite, com sol ou com chuva, calor ou frio, são ou doente.
Era como se gostasse daquilo. Mas não gostava, ele sofria fazendo os atendimentos.   
Sempre retornava abatido. Ia direto para o quarto e passava horas ajoelhado no chão, rezando pela alma da pessoa a quem havia acabado de ungir.
Eu via tudo isso porque ele morava conosco. Minha mãe dizia que o cunhado não regulava bem: estava sempre calado e jamais sorria. Meu pai não dizia nada, aceitava o irmão do jeito que ele era.
Tio Antônio abandonara a faculdade de filosofia para ser padre. Vocação tardia que ninguém entendeu. Seu falecimento foi há oito anos. Não quis receber extrema unção. Disse que não merecia.
Fiquei ao seu lado a maior parte do tempo enquanto esteve no hospital. A doença não o impedia de falar, mas ― como sempre ― permaneceu calado. Minutos antes do passamento é que se manifestou. E falou tudo, falou aos borbotões.
Leigo que sou, confessou-se a mim, única pessoa ao seu alcance. Queria ser perdoado.
― Perdoado de quê, meu tio?
― Eu matei uma pessoa.
Delírio de moribundo? Já ia começar a contradizê-lo quando ele apontou para a sua velha bíblia na mesa de cabeceira.
―Me dê a bíblia.
Menos mal, pensei. Rezar é melhor do que delirar. Mas ele não queria rezar. Abriu o livro e retirou um recorte de jornal. Era uma foto amarelada. Mostrava jovens brigando. Um deles agachado, protegido por um grupo à esquerda, enquanto outros à direita tentavam atingi-lo com objetos em riste. Acima, o título: “De repente, a violência".
― O que é isso, tio?
― Esse moço aí no chão. Era o Fabrício.
Falou como se eu devesse conhecer o cara.
― Que Fabrício?
― Foi ele que eu matei.
Não falei nada. Falar o quê?
Ele prosseguiu, sem olhar para mim. Fixava os pés da cama, os olhos parados, sem expressão.
― Ninguém sabe que eu matei. Por isso não fui preso. Mas eu sei. Ele sabe. E Deus sabe. Matei por motivo fútil. Por ciúmes. Destruí uma vida só porque estava louco de ciúmes.
Fiquei quieto. Deixei o tio falar. Em nenhum momento o interrompi. Ele continuou. Falou tudo, de um jorro só.
― Ele era da engenharia do Mackenzie, eu era da filosofia da USP. Eles apoiavam a ditadura, nós não. Nunca tínhamos conversado, eu só o conhecia de vista. Na hora do almoço a minha turma ia no bar do Carioca, e a turma dele também. Uma turma não conversava com a outra. Só fui trocar duas palavras com o Fabrício lá no Clube Paulistano. Não foi pela minha vontade nem pela vontade dele, mas sim porque tínhamos um amigo em comum, o Manolo. Grande vagabundo, o Manolo. Não fazia nada na vida porque o pai era rico. Passava os dias zanzando, alegre, simpático, bem apessoado. Generoso também. Nunca se negava a ajudar quem precisasse de um dinheiro ou de um ombro para se apoiar. Impossível não gostar do Manolo. Um dia me convidou pra passar uma tarde no clube. Eu fui; lá chegando o encontrei em conversa animada com aquele mackenzista de direita. Aí que fiquei sabendo do nome e do sobrenome, Fabrício Alexandre do Couto e Magalhães. Assim mesmo: “do Couto e Magalhães”. Família aristocrática. Ele também me reconheceu. Não trocamos mais que duas palavras, apesar da insistência do Manolo em nos entrosar. Passamos o resto da tarde meio emburrados, com o Manolo de permeio fazendo as suas gracinhas.
Aqui ele deu uma pausa. Para descansar ou talvez para rever, com os olhos da mente, as cenas que descrevia. Logo continuou.
― Na semana seguinte passamos a fingir que não nos conhecíamos quando as nossas turmas se cruzavam lá no bar do Carioca. Mas em seguida veio outro convite. Aceitei porque o clube era muito aprazível. Qual não foi minha decepção quando vi o Fabrício lá de novo! Dessa vez conversamos um pouco mais para não fazer desfeita ao Manolo. Sem tocar em política. Depois disso passamos a nos cumprimentar com um aceno de cabeça, sem ninguém perceber, sempre que nos víamos na hora do almoço.
Outra pausa. Tive certeza de que não era cansaço, era uma revisitação ao passado.
― O Manolo parecia empenhado em nos aproximar, porque os convites para o clube continuaram. No encontro seguinte ele disse claramente que o Fabrício e eu devíamos nos tornar amigos, já que éramos muito parecidos. Absurdo! Um uspiano de esquerda confraternizando com um mackenzista de direita? Trocamos olhares de desprezo, mas não falamos nada. Nosso amigo era um alienado, não sabia o que estava acontecendo no país. Ou não se importava. Mais uma vez procuramos nos tratar como pessoas civilizadas em consideração ao Manolo, que no final das contas era um ótimo parceiro.
Agora ele demonstrava cansaço. A respiração estava ofegante.
― Na vez seguinte, Fabrício apareceu no clube com uma moça. Chamava-se Vera Lúcia. Linda, muito linda. Parecia aquela artista de cinema, a Claudia Cardinale. Quando vi os dois ali de mãos dadas, e notei como ela era bonita e como os dois combinavam, tive um sentimento que nunca havia tido na vida. Inveja, tristeza, frustração, desespero, vontade de chorar! Mas homem não chora nem demonstra sentimento. Fiquei impassível, mesmo depois da revelação devastadora. Continuei firme, naquele fim de semana e nos outros. Até hoje não sei como consegui fingir indiferença. Fabrício ao lado da Vera Lúcia, os dois bonitos, jovens, alegres, se dando tão bem. Eu tinha que conviver com a minha inveja, com o ciúme, com a completa desesperança.
O final da frase quase não ouvi porque o tom de voz foi baixando até terminar em um arquejo. Recuperou-se e retomou a narrativa.
― O auge da minha neurose coincidiu com o agravamento das brigas entre mackenzistas e uspianos. No dia em que tudo aconteceu eu tinha amanhecido muito mal, depois de varar a madrugada sem dormir. Homem não chora, mas naquela noite não me segurei. Tanta raiva eu tinha de mim mesmo. Raiva por estar sentindo aquilo. E a certeza de que nunca poderia ser feliz. Então, na parte da tarde, estourou o confronto. Por causa da campanha da UNE. Uma turma de secundaristas foi lá fazer comício para a eleição e a coisa desandou. Os inimigos partiram pra cima dos garotos e a gente resolveu ajudar. Acabou virando guerra. Jogaram bomba incendiária no nosso prédio, nós invadimos o território deles, e daí pra frente não deu pra controlar mais nada. Foi quando vi o Fabrício do outro lado da calçada com um tijolo na mão, pronto pra atirar em alguém. Me juntei ao grupo que foi enfrentá-los. Esse moço aí da fotografia, levantando o guarda-chuva, bateu na cabeça do Fabrício e ele caiu. Nessa hora peguei o tijolo do chão. Os meus colegas saíram correndo, mas eu fiquei. Vi que o Fabrício ia se levantar, a guarda-chuvada só o tinha deixado tonto.  Aí fiquei louco. Enxerguei um jeito de me livrar do problema que me atormentava. Foi inspiração demoníaca, mas sou culpado do mesmo jeito porque me deixei levar. Não pensei duas vezes: dei com o tijolo na cabeça dele.
Ao chegar nesse ponto ele parou novamente. Vi que fez esforço para retomar. As lembranças estavam ficando mais penosas.
― Dessa vez ele caiu pra não se levantar mais. Fugi pensando que o havia matado, mas ele não estava morto. No hospital descobriram uma trinca na coluna, logo abaixo do pescoço. Ficou tetraplégico. Morreu pouco tempo depois. A causa da morte foi pneumonia, consequência da imobilidade. Meu sofrimento, desde a tijolada até o desfecho fatal, não dá pra descrever. Culpa misturada com tristeza mas também com alívio, o alívio aumentando a culpa. Eu não sabia o que fazer. Larguei tudo e fui me penitenciar. Virei padre, tentei ajudar as pessoas para mostrar a Deus o meu arrependimento. Porque eu me arrependi. Mil vezes viver na dor e na vergonha do que no remorso e no arrependimento. É por causa desse arrependimento que peço perdão a ti, sobrinho. Você representa Deus para mim neste momento.
Tio Antônio ficou me fitando em silêncio. O que eu podia fazer? Estava chocado, mas coloquei a mão em sua testa. Não sei de onde tirei as palavras:
― O senhor está perdoado, padre Antônio. Eu lhe concedo o perdão pleno e eterno. Fique em paz.
Ele suspirou, agradecido. Voltou o olhar para os pés da cama. Nesse momento seu rosto se iluminou. Sorriu. Parecia estar vendo alguém. E pronunciou, alto e claro, suas últimas palavras:
― Fabrício, você veio me buscar! Já estou indo, meu amor.


Imagem: "De repente, a violência" 
Fotógrafo: Gil Passarelli

Esta foto registrou confronto entre grupos de alunos do Mackenzie 
devido às eleições para a União Estadual dos Estudantes de SP. 
Venceu o Prêmio Esso de Fotografia em 1968.

sábado, 30 de abril de 2016

Marilene e eu na chácara de flores

Suponha que você tivesse a chance de voltar no tempo. A um único momento no passado. Qual momento escolheria?
Difícil decisão, não é?
Posso pensar em cerca de cinco ocasiões, no máximo seis. 
Se o critério de escolha for a qualidade das lembranças deixadas, então o número cai para três ou quatro. Vou escolher dentre estas.
Pronto, escolhi. Entro na máquina do tempo e aperto o botão. Vejo as luzinhas piscarem, ouço zumbidos e sinto pequenas oscilações.
Agora cessou tudo: fim da viagem. Aqui estou... Onde?
Início de tarde, sábado cheio de sol. Muitas flores ao redor. Uma menina louca me segurando pelos ombros e gritando: “Me solta! Me solta! Deixa eu me atirar!”
Espantosamente, enquanto faz tal cena dramática ela dá risada. Está alegre e mesmo assim quer se atirar nos trilhos do trem passando ao lado? Estranho paradoxo.
Mais estranho é o fato de eu ter escolhido este momento para reviver. Porém, como há explicação para (quase) tudo neste mundo, passo a esclarecer o acontecido.
Marilene e eu nos conhecemos no colégio, primeiro ano do Curso Científico.   
Terá sido o amor pela ciência, o que nos uniu? Negativo. Ela gostava de biologia e eu de física. A união foi motivada um grupo de rock. Jamais havíamos conhecido outras pessoas fanáticas pelos “Monkees”. Bastou isso para iniciarmos a amizade que duraria por toda a nossa vida.
Em tempos sem internet e de acesso raro ao telefone, fundamos um clube de correspondência por meio do qual trocávamos ideias com outras fãs da banda.
Eram cartas pra lá, cartas pra cá, correspondentes em vários locais do Brasil e até no exterior. A maioria do estado de São Paulo, todas da nossa idade.
Éramos convidadas para visitar as que moravam na cidade e arredores. Contrariando nossos hábitos reclusos, vez por outra aceitávamos os convites.
Grande ousadia sair de casa sem a supervisão dos rigorosos pais, em direção a destinos nunca antes explorados, na total dependência dos mapinhas desenhados à mão pelas nossas amigas de correspondência.
Década de 1960, famílias conservadoras de classe média baixa: onde já se viu meninas de dezessete anos, inexperientes, saindo assim sozinhas pelo mundo?
Saíamos, viajávamos de ônibus por longo tempo, chegávamos às casas das amigas e ficávamos horas e horas conversando e ouvindo os discos da banda. De onde tirávamos tanto assunto? Faz parte dos milagres da adolescência a multiplicação dos temas de conversa. Perguntem aos professores.
Afinal tínhamos coisas importantíssimas para comentar. O baterista? Charmoso e inteligentíssimo. O tecladista, além de muito culto, era dono do sorriso mais lindo. O galã, todas concordavam, era o vocalista. Mas o guitarrista, de personalidade estranha e adorável, compunha as melhores músicas.
O bate-papo ia por aí afora, antes e depois do lanche da tarde, até começar a escurecer e alguém lembrar que morávamos longe e a condução piorava à noite.
Voltávamos para casa cansadas e felizes, repassando todos os comentários, fazendo planos, falando sem parar.
Vai daí, certa ocasião fomos ver a nossa amiga Sonia, lá no bairro de Cangaíba. Descemos do ônibus e iniciamos a subida da rua desenhada no mapinha. Dia lindo. À esquerda, inesperadamente, uma chácara de flores surgiu: extenso jardim multicolorido.
Por mim, teríamos passado reto. Afinal tínhamos marcado hora para chegar à casa da Sonia. Porém a Marilene queria entrar e ver de perto aquelas plantas e flores.
Como sempre, eu (a de ciências exatas, com meu raciocínio lógico e inabalável bom senso) acabava cedendo às vontades da Marilene (com seu raciocínio biológico sem tanta exatidão porém com muito maior teimosia). E lá fomos nós por aquele terreno largo, comprido, terminando à beira de uma linha férrea.
Hoje, quando me lembro, parece que sonhei a tarde de céu azul, o ar fresquinho, os canteiros mal cuidados e ainda assim completamente floridos.
Andamos devagar até chegarmos ao lado da linha; a Marilene examinava um raminho quando começou a passar o trem.
Inesperadamente ela abandonou toda a sua habitual sisudez, largou o raminho, agarrou os meus ombros e começou a gritar como se quisesse se atirar nos trilhos: “Me solta! Me solta!”
Eu não teria ficado mais admirada se estivesse vendo o arcebispo da época, Dom Agnelo Rossi, dançando rock de batina e tudo. A Marilene, que nunca falava alto, jamais se alterava e nem sequer andava depressa, agindo daquela maneira? Era maluco, mas divertido, então embarquei na brincadeira e também comecei a gritar: “Não se atire! Não se atire!”
As pessoas no trem olhavam com curiosidade a cena. Imagino se chegaram a perceber que estávamos, as duas, rindo às gargalhadas.
O trem passou, a brincadeira acabou. Saímos de lá direto para a casa da Sonia, onde conversamos bastante, ouvimos música, brincamos com o cachorrinho, e rimos mais um pouco.
Desconheço as motivações daquele momento de completa descontração, único em toda a breve existência da minha amiga. Sou incapaz de fazer análises psicológicas. O importante é que aconteceu, que eu estava lá e que me lembro.
E, se pudesse, não entraria nunca mais nessa máquina do tempo que está aí de porta aberta e escancarada, pronta para me levar de volta ao futuro. 

Imagem: http://br.freepik.com

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Epitáfio

Isto aconteceu há muito tempo, quando eu era criança, num lugar distante de tudo.
A vizinha deu à luz em sua casa, e a criança morreu.
Ao chegarmos para o velório, o bebê ainda estava na cama ao lado da mãe. Um menino bonito que parecia dormir. Tinha o semblante de alguém que adormecera muito cansado, depois de uma labuta penosa.
A mãe aparentava abatimento físico, mas estava sorridente. Conversava com uma moça e de vez em quando as duas davam risadas.
O anjinho ali, dormindo o seu sono eterno, e a mãe toda contente.
Na hora do batismo a moça risonha pegou uma vela acesa e aproximou-se do corpinho inerte.
― Eu te batizo em nome do Pai, do Filho...
Um acesso de riso a interrompeu. Esforçou-se para ficar séria e retomou:
― Eu te batizo em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo.
Não me recordo se algum nome foi atribuído ao bebê. Não sei se o enterraram em um cemitério ou ali mesmo no quintal, ao pé do abacateiro.
Desde então imagino, pregada no tronco da árvore, uma lápide feita de folha de caderno, escrita com lápis de cor e letra de criança:
Anjinho,
foi melhor assim.


Imagem: Jeronymo Artur
http://heyartur.blogspot.com.br/

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Ovelha negra

Ouvi barulho na minha porta e abri os olhos. Era o meu pai entrando no quarto. Sem bater, como sempre. Já cansei de reclamar da falta de privacidade, nem falo mais nada.
― Dormindo de dia, Rita?
― Não, pai. Tava lendo.
Mostrei a capa do livro. Ele encostou-se ao armário e cruzou os braços, a cara amarrada.
― Olha aqui, Rita, já faz um ano que você se formou no colégio. Não dá mais pra esperar, você tem que resolver a sua vida.
Conversa chata. Quantas vezes já falamos sobre isso sem chegarmos a nenhuma conclusão?
― Ainda não sei o que quero fazer, pai.
― Então vai fazer qualquer coisa. Chega de ficar aí parada. Você vai sair hoje e se matricular num cursinho. Ano que vem é faculdade, ou então não te sustento mais.
Nó na garganta. Olho cheio d’água. A voz tremeu ao responder:
― Pai, o senhor tem dinheiro. Não precisa do meu salário.
― Não é pelo dinheiro, é pela situação absurda. Todo mundo faz alguma coisa, você só lê e ouve música. Já fez teste vocacional, agora vai cuidar da vida.
Falou e saiu.
O teste vocacional deu Agronomia. Nem sei o que é Agronomia. Meu Deus... E agora?


Imagem: https://onmogul.com

Clique para ouvir: Ovelha Negra (Rita Lee)