Onde comprar "Os meninos da Rua Beto"



Divirta-se com um livro diferente de todos que você já leu!

"OS MENINOS DA RUA BETO"

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http://inquietovagalume.blogspot.com.br/p/os-meninos-da-rua-beto.html

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terça-feira, 30 de agosto de 2016

Numa tarde de verão

José Carlos levantou os olhos da papelada para conferir se o ventilador estava mesmo ligado. Estava, mas o calor continuava sufocante. A maioria dos funcionários era jovem e parecia não se importar com o calor nem com o barulho das máquinas de escrever e de somar. Também ele, anos atrás, fora assim. Aprovado no concurso público, a vida resolvida, só tinha que trabalhar direitinho. A noiva, ao saber da aprovação, decretou:
― Agora sim, Zequinha, podemos casar.
Casaram. Puro boato aquela conversa de que funcionário público era folgado. Ele não era nem podia ser, com tantos processos despejados dia após dia sobre a sua mesa. Agora, depois de todos aqueles anos, sentia-se cansado.
Voltou a atenção às folhas timbradas que tinha nas mãos. “Secretaria do Bem Estar Social”. Bem estar? Ele não estava se sentindo bem.
― Chega. Vou-me embora.
Sem outras análises ou considerações, empilhou os papéis, arrumou as pastas, guardou na gaveta carimbos, tinteiros, canetas e mata-borrões, levantou-se e rumou para a porta. Alguns olharam admirados. Não falaram nada, ou por falta de intimidade ou por falta de interesse. Pegou o chapéu e foi pra casa.
O caçula, refestelado na rede da varanda, lia um gibi. Nem o viu chegar. Ao abrir a porta descobriu o que faziam em casa enquanto ele trabalhava. A mulher passava esmalte nas unhas. As filhas liam uma revista “O Cruzeiro”. O rapaz mais velho assistia a um jogo de bola pela televisão.
Todos se voltaram para ele.
― O que foi, Zeca? Algum problema na repartição?
― Pai, o senhor está doente? 
― Patrão, quer um cafezinho?
Nenhuma resposta. Subiu lentamente para o quarto. Trancou a porta e tirou a roupa. Foi para a sacada tomar a fresca sem se importar que o pudessem ver da rua. Desceu as escadas. Mulher, filhos e empregada o observavam calados. Descalço e de cuecas, tranquilo como se estivesse em uma praia, abriu a porta e saiu à varanda. O caçula, percebendo a sua presença, levantou-se atarantado.
José Carlos deixou-se cair na rede. Puxou as abas sobre os olhos, deu um impulso com o pé e ficou lá se balançando. Apenas se balançando... Para lá e para cá, para lá e para cá... 


Imagem: http://www.jardimdecorado.com

Baseado no conto de Raduan Nassar "Aí pelas três da tarde"

sábado, 20 de agosto de 2016

Sexta-feira 13

Dente extraído, desatou-se a sangria. O dentista recomendou ir logo pra casa e colocar gelo. O ônibus nunca demorava; nesse dia demorou. Sangue não parava de sair. Melhor ir de táxi. A corrida ficava nuns dez reais. Perguntou ao taxista se ele tinha troco pra cinquenta. Tinha. Ainda bem, porque começava a sentir tontura. Já em movimento, ao ouvir o destino o taxista parou. Mandou descer e pegar outro, na outra rua: aquela era fora de mão. Em desespero, obedeceu, torcendo para que o próximo viesse logo. Uma mulher chegou e pediu informação. Medo de abrir a boca e causar susto. Lenço na frente, murmurou qualquer coisa. Escondeu rapidamente a mancha vermelha que se formou. Finalmente o táxi. Trânsito difícil. Na hora de pagar, o taxista não tinha troco para cinquenta. 


Imagem: http://www.euvejofloresemvoce.com.br

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Ode à Manteiga

Para
Millôr
Manteiga, meiga manteiga
como eu te achava linda
na manteigueira de cristal
da casa de minha dinda.

A bela cor amarela,
sua macia textura,
fresquinha, com ou sem sal,
a maior das gostosuras.

Lá em casa, infelizmente,
era outra a minha sina.
Para o bem, ou para o mal,
só havia margarina.

Agora que sou adulto
tomo as minhas decisões.
Margarina? Nem a pau!
Só manteiga! Aos borbotões!

Imagem: http://www.notonthehighstreet.com

Poema composto por pura inveja do genial "Ode à margarina", de Millôr Fernandes.
"Essa cara não me é estranha e outros poemas", Companhia das Letras (página 178)