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"OS MENINOS DA RUA BETO"

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segunda-feira, 11 de julho de 2016

Júlia e o pé de milho

A pequena Júlia enfiou um grão de milho no nariz. Por quê? Por motivo nenhum. O grão que não estourou estava ali, no meio das pipocas. O nariz tinha dois buraquinhos. Pronto. 
A menina nem reparou no desespero da mãe. Concentrou-se no irmão, que apontava para ela e ria feito louco:
― Ha ha ha ha! Vai nascer um pé de milho no nariz da Júlia!!!!
Enquanto a pegavam no colo e corriam para o carro, ela começou a se preocupar.
Um pé de milho crescendo no nariz?
Como fazer para andar por aí com uma planta tão grande saindo da narina, com aquelas folhas todas se arrastando pelo chão? Difícil não tropeçar.
E se alguém quiser fazer pipoca? Tem gente que gosta de pamonha, outros preferem bolo de fubá. Vai ficar todo mundo atrás dela, pedindo espigas. Mais e mais espigas. 
Júlia já se via fazendo força para atender a todos. Como era cansativo!  
E na hora de dormir? Uma complicação ajeitar aquele trambolho no meio das cobertas.
Preocupações demais para uma criança tão pequena. Vontade de chorar.
Começou a fazer biquinho, mas nessa hora o médico disse:
― Consegui!
E mostrou o grão na ponta da pinça.
Alívio. Todos os problemas resolvidos.
― Mãe?
― Que é, Júlia?
― Me compra pipoca?
Imagem: http://hivewallpaper.com/

sábado, 2 de julho de 2016

A batalha do padre Antônio

Tio Antônio era padre. Especializou-se na “unção dos enfermos”. Ou “extrema unção”, como se dizia antigamente.
Nunca entendi a solicitude do meu tio. Quando recebia um chamado ele largava tudo, vestia os paramentos, pegava o frasco de óleo bento, a bíblia, e saía apressado. De dia ou de noite, com sol ou com chuva, calor ou frio, são ou doente.
Era como se gostasse daquilo. Mas não gostava, ele sofria fazendo os atendimentos.   
Sempre retornava abatido. Ia direto para o quarto e passava horas ajoelhado no chão, rezando pela alma da pessoa a quem havia acabado de ungir.
Eu via tudo isso porque ele morava conosco. Minha mãe dizia que o cunhado não regulava bem: estava sempre calado e jamais sorria. Meu pai não dizia nada, aceitava o irmão do jeito que ele era.
Tio Antônio abandonara a faculdade de filosofia para ser padre. Vocação tardia que ninguém entendeu. Seu falecimento foi há oito anos. Não quis receber extrema unção. Disse que não merecia.
Fiquei ao seu lado a maior parte do tempo enquanto esteve no hospital. A doença não o impedia de falar, mas ― como sempre ― permaneceu calado. Minutos antes do passamento é que se manifestou. E falou tudo, falou aos borbotões.
Leigo que sou, confessou-se a mim, única pessoa ao seu alcance. Queria ser perdoado.
― Perdoado de quê, meu tio?
― Eu matei uma pessoa.
Delírio de moribundo? Já ia começar a contradizê-lo quando ele apontou para a sua velha bíblia na mesa de cabeceira.
―Me dê a bíblia.
Menos mal, pensei. Rezar é melhor do que delirar. Mas ele não queria rezar. Abriu o livro e retirou um recorte de jornal. Era uma foto amarelada. Mostrava jovens brigando. Um deles agachado, protegido por um grupo à esquerda, enquanto outros à direita tentavam atingi-lo com objetos em riste. Acima, o título: “De repente, a violência".
― O que é isso, tio?
― Esse moço aí no chão. Era o Fabrício.
Falou como se eu devesse conhecer o cara.
― Que Fabrício?
― Foi ele que eu matei.
Não falei nada. Falar o quê?
Ele prosseguiu, sem olhar para mim. Fixava os pés da cama, os olhos parados, sem expressão.
― Ninguém sabe que eu matei. Por isso não fui preso. Mas eu sei. Ele sabe. E Deus sabe. Matei por motivo fútil. Por ciúmes. Destruí uma vida só porque estava louco de ciúmes.
Fiquei quieto. Deixei o tio falar. Em nenhum momento o interrompi. Ele continuou. Falou tudo, de um jorro só.
― Ele era da engenharia do Mackenzie, eu era da filosofia da USP. Eles apoiavam a ditadura, nós não. Nunca tínhamos conversado, eu só o conhecia de vista. Na hora do almoço a minha turma ia no bar do Carioca, e a turma dele também. Uma turma não conversava com a outra. Só fui trocar duas palavras com o Fabrício lá no Clube Paulistano. Não foi pela minha vontade nem pela vontade dele, mas sim porque tínhamos um amigo em comum, o Manolo. Grande vagabundo, o Manolo. Não fazia nada na vida porque o pai era rico. Passava os dias zanzando, alegre, simpático, bem apessoado. Generoso também. Nunca se negava a ajudar quem precisasse de um dinheiro ou de um ombro para se apoiar. Impossível não gostar do Manolo. Um dia me convidou pra passar uma tarde no clube. Eu fui; lá chegando o encontrei em conversa animada com aquele mackenzista de direita. Aí que fiquei sabendo do nome e do sobrenome, Fabrício Alexandre do Couto e Magalhães. Assim mesmo: “do Couto e Magalhães”. Família aristocrática. Ele também me reconheceu. Não trocamos mais que duas palavras, apesar da insistência do Manolo em nos entrosar. Passamos o resto da tarde meio emburrados, com o Manolo de permeio fazendo as suas gracinhas.
Aqui ele deu uma pausa. Para descansar ou talvez para rever, com os olhos da mente, as cenas que descrevia. Logo continuou.
― Na semana seguinte passamos a fingir que não nos conhecíamos quando as nossas turmas se cruzavam lá no bar do Carioca. Mas em seguida veio outro convite. Aceitei porque o clube era muito aprazível. Qual não foi minha decepção quando vi o Fabrício lá de novo! Dessa vez conversamos um pouco mais para não fazer desfeita ao Manolo. Sem tocar em política. Depois disso passamos a nos cumprimentar com um aceno de cabeça, sem ninguém perceber, sempre que nos víamos na hora do almoço.
Outra pausa. Tive certeza de que não era cansaço, era uma revisitação ao passado.
― O Manolo parecia empenhado em nos aproximar, porque os convites para o clube continuaram. No encontro seguinte ele disse claramente que o Fabrício e eu devíamos nos tornar amigos, já que éramos muito parecidos. Absurdo! Um uspiano de esquerda confraternizando com um mackenzista de direita? Trocamos olhares de desprezo, mas não falamos nada. Nosso amigo era um alienado, não sabia o que estava acontecendo no país. Ou não se importava. Mais uma vez procuramos nos tratar como pessoas civilizadas em consideração ao Manolo, que no final das contas era um ótimo parceiro.
Agora ele demonstrava cansaço. A respiração estava ofegante.
― Na vez seguinte, Fabrício apareceu no clube com uma moça. Chamava-se Vera Lúcia. Linda, muito linda. Parecia aquela artista de cinema, a Claudia Cardinale. Quando vi os dois ali de mãos dadas, e notei como ela era bonita e como os dois combinavam, tive um sentimento que nunca havia tido na vida. Inveja, tristeza, frustração, desespero, vontade de chorar! Mas homem não chora nem demonstra sentimento. Fiquei impassível, mesmo depois da revelação devastadora. Continuei firme, naquele fim de semana e nos outros. Até hoje não sei como consegui fingir indiferença. Fabrício ao lado da Vera Lúcia, os dois bonitos, jovens, alegres, se dando tão bem. Eu tinha que conviver com a minha inveja, com o ciúme, com a completa desesperança.
O final da frase quase não ouvi porque o tom de voz foi baixando até terminar em um arquejo. Recuperou-se e retomou a narrativa.
― O auge da minha neurose coincidiu com o agravamento das brigas entre mackenzistas e uspianos. No dia em que tudo aconteceu eu tinha amanhecido muito mal, depois de varar a madrugada sem dormir. Homem não chora, mas naquela noite não me segurei. Tanta raiva eu tinha de mim mesmo. Raiva por estar sentindo aquilo. E a certeza de que nunca poderia ser feliz. Então, na parte da tarde, estourou o confronto. Por causa da campanha da UNE. Uma turma de secundaristas foi lá fazer comício para a eleição e a coisa desandou. Os inimigos partiram pra cima dos garotos e a gente resolveu ajudar. Acabou virando guerra. Jogaram bomba incendiária no nosso prédio, nós invadimos o território deles, e daí pra frente não deu pra controlar mais nada. Foi quando vi o Fabrício do outro lado da calçada com um tijolo na mão, pronto pra atirar em alguém. Me juntei ao grupo que foi enfrentá-los. Esse moço aí da fotografia, levantando o guarda-chuva, bateu na cabeça do Fabrício e ele caiu. Nessa hora peguei o tijolo do chão. Os meus colegas saíram correndo, mas eu fiquei. Vi que o Fabrício ia se levantar, a guarda-chuvada só tinha deixado ele tonto.  Aí fiquei louco. Enxerguei um jeito de me livrar do problema que me atormentava. Foi inspiração do demônio, mas sou culpado do mesmo jeito porque me deixei levar. Não pensei duas vezes: dei com o tijolo na cabeça dele.
Ao chegar nesse ponto ele parou novamente. Vi que fez esforço para retomar. As lembranças estavam ficando mais penosas.
― Dessa vez ele caiu pra não se levantar mais. Fugi pensando que o havia matado, mas ele não estava morto. No hospital descobriram uma trinca na coluna, logo abaixo do pescoço. Ficou tetraplégico. Morreu pouco tempo depois. A causa da morte foi pneumonia, consequência da imobilidade. Meu sofrimento, desde a tijolada até o desfecho fatal, não dá pra descrever. Culpa misturada com tristeza mas também com alívio, o alívio aumentando a culpa. Eu não sabia o que fazer. Larguei tudo e fui me penitenciar. Virei padre, tentei ajudar as pessoas para mostrar a Deus o meu arrependimento. Porque eu me arrependi. Mil vezes viver na dor e na vergonha do que no remorso e no arrependimento. É por causa desse arrependimento que peço perdão a ti, sobrinho. Você representa Deus para mim neste momento.
Tio Antônio ficou me fitando em silêncio. O que eu podia fazer? Estava chocado, mas coloquei a mão em sua testa. Não sei de onde tirei as palavras:
― O senhor está perdoado, padre Antônio. Eu lhe concedo o perdão pleno e eterno. Fique em paz.
Ele suspirou, agradecido. Voltou o olhar para os pés da cama. Nesse momento seu rosto se iluminou. Sorriu. Parecia estar vendo alguém. E pronunciou, alto e claro, suas últimas palavras:
― Fabrício, você veio me buscar! Já estou indo, meu amor.


Imagem: "De repente, a violência" 
Fotógrafo: Gil Passarelli

Esta foto registrou confronto entre grupos de alunos do Mackenzie 
devido às eleições para a União Estadual dos Estudantes de SP. 
Venceu o Prêmio Esso de Fotografia em 1968.