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"OS MENINOS DA RUA BETO"

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sábado, 30 de abril de 2016

Marilene e eu na chácara de flores

Suponha que você tivesse a chance de voltar no tempo. A um único momento no passado. Qual momento escolheria?
Difícil decisão, não é?
Posso pensar em cerca de cinco ocasiões, no máximo seis. 
Se o critério de escolha for a qualidade das lembranças deixadas, então o número cai para três ou quatro. Vou escolher dentre estas.
Pronto, escolhi. Entro na máquina do tempo e aperto o botão. Vejo as luzinhas piscarem, ouço zumbidos e sinto pequenas oscilações.
Agora cessou tudo: fim da viagem. Aqui estou... Onde?
Início de tarde, sábado cheio de sol. Muitas flores ao redor. Uma menina louca me segurando pelos ombros e gritando: “Me solta! Me solta! Deixa eu me atirar!”
Espantosamente, enquanto faz tal cena dramática ela dá risada. Está alegre e mesmo assim quer se atirar nos trilhos do trem passando ao lado? Estranho paradoxo.
Mais estranho é o fato de eu ter escolhido este momento para reviver. Porém, como há explicação para (quase) tudo neste mundo, passo a esclarecer o acontecido.
Marilene e eu nos conhecemos no colégio, primeiro ano do Curso Científico.   
Terá sido o amor pela ciência, o que nos uniu? Negativo. Ela gostava de biologia e eu de física. A união foi motivada por um grupo de rock. Jamais havíamos conhecido outras pessoas fanáticas pelos “Monkees”. Bastou isso para iniciarmos a amizade que duraria toda a nossa vida.
Em tempos sem internet e de acesso raro ao telefone, fundamos um clube de correspondência por meio do qual trocávamos ideias com outras fãs da banda.
Eram cartas pra lá, cartas pra cá, correspondentes em vários locais do Brasil e até no exterior. A maioria do estado de São Paulo; todas da nossa idade.
Éramos convidadas para visitar as que moravam na cidade e arredores. Contrariando nossos hábitos reclusos, vez por outra aceitávamos os convites.
Grande ousadia sair de casa sem a supervisão dos rigorosos pais, em direção a destinos nunca antes explorados, na total dependência dos mapinhas desenhados à mão pelas nossas amigas de correspondência.
Década de 1960, famílias conservadoras de classe média baixa: onde já se viu meninas de dezessete anos, inexperientes, saindo assim sozinhas pelo mundo?
Saíamos, viajávamos de ônibus por longo tempo, chegávamos às casas das amigas e ficávamos horas e horas conversando e ouvindo os discos da banda. De onde tirávamos tanto assunto? Faz parte dos milagres da adolescência a multiplicação dos temas de conversa. Perguntem aos professores.
Afinal tínhamos coisas importantíssimas para comentar. O baterista? Charmoso e inteligentíssimo. O tecladista, além de muito culto, era dono do sorriso mais lindo. O galã, todas concordavam, era o vocalista. Mas o guitarrista, de personalidade estranha e adorável, compunha as melhores músicas.
O bate-papo ia por aí afora, antes e depois do lanche da tarde, até começar a escurecer e alguém lembrar que morávamos longe e a condução piorava à noite.
Voltávamos para casa cansadas e felizes, repassando todos os comentários, fazendo planos, falando sem parar.
Certa ocasião fomos ver a nossa amiga Sonia, lá no bairro de Cangaíba. Descemos do ônibus e iniciamos a subida da rua desenhada no mapinha. Dia lindo. À esquerda, inesperadamente, uma chácara de flores surgiu: extenso jardim multicolorido.
Por mim, teríamos passado reto. Afinal tínhamos marcado hora para chegar à casa da Sonia. Porém a Marilene queria entrar e ver de perto aquelas plantas e flores.
Como sempre, eu (a de ciências exatas, com meu raciocínio lógico e inabalável bom senso) acabava cedendo às vontades da Marilene (com seu raciocínio biológico sem tanta exatidão porém com muito maior teimosia). E lá fomos nós por aquele terreno largo, comprido, terminando à beira de uma linha férrea.
Hoje, quando me lembro, parece que sonhei a tarde de céu azul, o ar fresquinho, os canteiros mal cuidados e ainda assim completamente floridos.
Andamos sem pressa até chegar ao lado da linha; a Marilene examinava um raminho quando começou a passar o trem.
Inesperadamente ela abandonou toda a sua habitual sisudez, largou o raminho, agarrou os meus ombros e começou a gritar como se quisesse se atirar nos trilhos: “Me solta! Me solta!”
Eu não teria ficado mais admirada se estivesse vendo o arcebispo da época, Dom Agnelo Rossi, dançando rock de batina e tudo. A Marilene, que nunca falava alto, jamais se alterava e nem sequer andava depressa, agindo daquela maneira? Era maluco, mas divertido, então embarquei na brincadeira e também comecei a gritar: “Não se atire! Não se atire!”
As pessoas no trem olhavam com curiosidade a cena. Imagino se chegaram a perceber que estávamos, as duas, rindo às gargalhadas.
O trem passou, a brincadeira acabou. Saímos de lá direto para a casa da Sonia, onde conversamos bastante, ouvimos música, brincamos com o cachorrinho, e rimos mais um pouco.
Desconheço as motivações daquele momento de completa descontração, único em toda a breve existência da minha amiga. Sou incapaz de fazer análises psicológicas. O importante é que aconteceu, que eu estava lá e que me lembro.
E, se pudesse, não entraria nunca mais nessa máquina do tempo que está aí de porta aberta e escancarada, pronta para me levar de volta ao futuro. 

Imagem: http://br.freepik.com

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Epitáfio

Isto aconteceu há muito tempo, quando eu era criança, num lugar distante de tudo.
A vizinha deu à luz em sua casa, e a criança morreu.
Ao chegarmos para o velório, o bebê ainda estava na cama ao lado da mãe. Um menino bonito que parecia dormir. Tinha o semblante de alguém que adormecera muito cansado, depois de uma labuta penosa.
A mãe aparentava abatimento físico, mas estava sorridente. Conversava com uma moça e de vez em quando as duas davam risadas.
O anjinho ali, dormindo o seu sono eterno, e a mãe toda contente.
Na hora do batismo a moça risonha pegou uma vela acesa e aproximou-se do corpinho inerte.
― Eu te batizo em nome do Pai, do Filho...
Um acesso de riso a interrompeu. Esforçou-se para ficar séria e retomou:
― Eu te batizo em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo.
Não me recordo se algum nome foi atribuído ao bebê. Não sei se o enterraram em um cemitério ou ali mesmo no quintal, ao pé do abacateiro.
Desde então imagino, pregada no tronco da árvore, uma lápide feita de folha de caderno, escrita com lápis de cor e letra de criança:
Anjinho,
foi melhor assim.


Imagem: Jeronymo Artur
http://heyartur.blogspot.com.br/

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Ovelha negra

Ouvi barulho na minha porta e abri os olhos. Era o meu pai entrando no quarto. Sem bater, como sempre. Já cansei de reclamar da falta de privacidade, nem falo mais nada.
― Dormindo de dia, Rita?
― Não, pai. Tava lendo.
Mostrei a capa do livro. Ele encostou-se ao armário e cruzou os braços, a cara amarrada.
― Olha aqui, Rita, já faz um ano que você se formou no colégio. Não dá mais pra esperar, você tem que resolver a sua vida.
Conversa chata. Quantas vezes já falamos sobre isso sem chegarmos a nenhuma conclusão?
― Ainda não sei o que quero fazer, pai.
― Então vai fazer qualquer coisa. Chega de ficar aí parada. Você vai sair hoje e se matricular num cursinho. Ano que vem é faculdade, ou então não te sustento mais.
Nó na garganta. Olho cheio d’água. A voz tremeu ao responder:
― Pai, o senhor tem dinheiro. Não precisa do meu salário.
― Não é pelo dinheiro, é pela situação absurda. Todo mundo faz alguma coisa, você só lê e ouve música. Já fez teste vocacional, agora vai cuidar da vida.
Falou e saiu.
O teste vocacional deu Agronomia. Nem sei o que é Agronomia. Meu Deus... E agora?


Imagem: https://onmogul.com

Clique para ouvir: Ovelha Negra (Rita Lee)

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Ovo frito

A mesa simples de madeira está coberta pela toalha xadrez verde e branca. Sinto sob as mãos a textura macia do pano já envelhecido enquanto espero o almoço.
No centro da mesa, uma caneca de plástico azul exibe um cacho de rosas vermelhas, as mesmas rosas minúsculas da trepadeira que cobre o portão da entrada. Essa caneca eu conheço: é onde costumava tomar meu café com leite todas as manhãs.
Deste lado das flores, o jarro com suco de maracujá, doce e geladinho; do outro, a travessa de salada: folhas de alface, rodelas de tomate e fatias finas de cebola. Sobre o viço dos vegetais o molho de azeite e vinagre espalha seu brilho saboroso.
Arroz e feijão já estão no prato. Vontade de começar a comer, porque o cheiro é convidativo. Arroz branquinho, caprichado, ainda soltando vapor. Feijão de caldo grosso, com pedaços de linguiça defumada, atiçando o apetite. Mas vale a pena esperar pelo ovo frito, o meu predileto, de gema mole.
Finalmente aqui está. Uso o canto do garfo para cortar a gema e deixo o líquido espesso se misturar ao arroz. Ficou amarelo e ainda mais gostoso. Não sei o que é melhor do que isso.
Talvez apenas o sorriso da minha mãe a me observar.
― Está bom, meu filho?