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"OS MENINOS DA RUA BETO"

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segunda-feira, 18 de maio de 2015

"Porque a tua voz é doce, e a tua face graciosa."

          Difícil descrever o que ele era para mim. Não apenas um colega de trabalho, nem simplesmente um amigo. Talvez a melhor palavra fosse confidente. Todas as alternativas anteriores, e mais.
          Sua face de poeta sugeria uma vida contemplativa, preenchida por preocupações filosóficas. Assim ele vivia, exceto nos momentos em que interrompia seus devaneios para me dar atenção.
          No departamento em que trabalhávamos a atividade era incessante; todos estavam sempre ocupados, ninguém seria surpreendido olhando o vazio através da janela. Exceto ele. Não raramente, em meio ao cálculo mais árido, encontrava ideias escondidas entre os símbolos matemáticos as quais mereciam pelo menos dez minutos de reflexão.
          Era comum, ao entrar em sua sala, encontrá-lo em plena contemplação, as mãos esquecidas sobre o teclado do computador, fixando um ponto qualquer além da parede. Não se tratava de ociosidade; ele realmente precisava daqueles instantes para compor sua linha de pensamentos. A prova estava nos artigos publicados, criativos e muitíssimo bem elaborados. Infelizmente, não eram numerosos.
          Por esse motivo, de todos nós era ele quem ocupava a posição mais modesta. Enquanto trabalhávamos febrilmente tentando terminar logo o que começávamos, discutindo e muitas vezes brigando pelos nossos pontos de vista, disputando as posições de prestígio dentro do instituto, ele desenvolvia tranquilamente os seus trabalhos teóricos sem nenhuma pressa. Enquanto que a maioria dos cientistas daquele departamento ocupava-se também em dar aulas na universidade, meu amigo nem cogitava dessa possibilidade. Não tinha tempo, dizia.
          Àquela altura sua idade estava em tinha trinta e poucos anos. Rosto calmo, mãos delicadas, quase sempre usando o mesmo casaco escuro. Raramente sorria, mas isso não era necessário. Havia um sorriso subjacente em todos os seus atos, em todas as suas palavras. Assim eu achava.
          Como éramos diferentes! Eu, o típico carreirista, em constante atrito com certos colegas e principalmente com o chefe do departamento. Esse era quem mais me irritava, sempre achando que os meus projetos eram muito caros, ou inaplicáveis, ou absurdos. Às vezes eu me excedia na minha arrogância diante dele, mas sabia que estava a salvo. Minha competência era indiscutível. Mais de uma vez as minhas sugestões haviam salvado projetos aparentemente irrecuperáveis, e geralmente era eu quem enxergava erros nem sempre óbvios nos trabalhos dos outros. O nível do departamento cairia se me despedissem. Por isso o chefe e os outros tinham que me tolerar.
          Foi durante uma das diversas crises ─ a pior de todas ─ que conheci o meu querido amigo. Ele havia chegado de outra universidade para trabalhar conosco. Ninguém sabia, àquela altura, das suas tendências filosóficas. Numa época em que todos procuravam produzir mais e melhor, aperfeiçoando-se tecnicamente e apresentando resultados, ele dava-se ao luxo de questionar a natureza das coisas. Isso era filosofia, não era ciência.
          Surpreendentemente, nossas divergências de personalidade nunca foram problema. Desde o primeiro dia em que nos encontramos nos demos muitíssimo bem. Ele dizia admirar a minha ─ por assim dizer ─ agressividade, algo que não possuía; quanto a mim, sentia muita tranquilidade na presença dele e tinha um grande prazer em ouvi-lo falar, expondo suas ideias, suas dúvidas, suas aspirações.
          Mas, como estava dizendo, na época em que nos conhecemos eu estava empenhado em uma das minhas batalhas contra o chefe do departamento.
          Acontecia que o governo vinha encarregando os cientistas de certas tarefas cujos objetivos desconhecíamos. Eram tão específicas e tão diferentes entre si que se tornava impossível juntar o quebra-cabeça e desvendar que projeto havia por detrás de tudo aquilo. Para descobri-lo teríamos que promover uma reunião com todos os participantes ─ físicos, químicos, biólogos, engenheiros, médicos e biofísicos.
          Isso era impossível por dois motivos: não sabíamos quem estava envolvido, e os trabalhos eram confidenciais. Ninguém teria coragem de faltar à palavra dada, escrita e assinada de não divulgar o objeto de seu trabalho. Na época em que estávamos, não seria nada saudável para um pesquisador perder as boas graças com o governo.
          Pois bem, a divergência surgiu porque eu e o chefe adotamos posições contrárias na questão de aceitar ou não tais incumbências. Ele não queria aceitá-las alegando que estaríamos trabalhando para alguma coisa cujo fim desconhecíamos e que bem provavelmente reprovaríamos se conhecêssemos. Não fosse assim, dizia ele, qual o motivo de tanto mistério?
          Eu, por meu lado, estava disposto a aceitar o que me dessem para fazer, porque, afinal de contas, não só dependíamos deles para obter as nossas subvenções como também − qualquer que fosse o misterioso projeto − jamais poderia ser nocivo ao nosso povo e ao nosso país. Hoje me admiro por não ter considerado o fato de que o governo era autoritário, uma ditadura que já durava três décadas. Portanto de nada se podia ter certeza.
          Resumindo a história, o instituto aceitou as incumbências e vários pesquisadores daquele departamento se dispuseram a colaborar. Logo tornou-se óbvio que à minha equipe havia sido confiada uma parte importante do trabalho, visto que a verba destinada era muito alta.
          Passamos a desenvolver as atividades em um setor isolado, cuja segurança era garantida pela presença de guardas armados. Nosso equipamento chegava em caixas fechadas sem nenhuma indicação do seu conteúdo. Somente a mim e aos meus assistentes era dado conhecer o que acontecia naquela dependência. Ainda assim não saberíamos dizer a que se prestaria o produto dos nossos esforços. Alguém ou algum grupo em íntimo contato com o governo havia idealizado uma coisa grande e importante, e tão inédita que nem mesmo nós, com a nossa experiência, podíamos deduzir.
          Foi então que o chefe fez algumas tentativas de se aproximar de mim para saber o que eu fazia. Não direi que quase o tenha conseguido, mas confesso que era difícil não sucumbir à impressão de quase fascínio que sempre me causou. Ele era uma pessoa atraente, quer pelo seu porte, quer pela fisionomia de tranquila inteligência, quer pelo modo de fixar aqueles intrigantes olhos azuis nos olhos da gente.
          Quando fui trabalhar no seu departamento eu era um estudante recém-graduado, ao passo que ele já ocupava uma posição importante. Ao andar pelos corredores carregando peças ou aparelhos, com o jaleco amarrotado e não raramente sujo de graxa, algumas vezes eu o encontrava. Ele se detinha e me esperava passar. Essa habitual precedência na passagem era para mim motivo secreto de um certo orgulho, bobagem típica de principiante inseguro.
          Fui aos poucos crescendo na profissão, sempre trabalhando muito e tentando ignorar a presença daquele homem importante que me assustava um pouco e me fascinava um pouco. Assim, quando ele tentou se aproximar fiquei bastante inquieto, temendo que a velha admiração dos tempos de estudante viesse a prejudicar o meu estado de alerta e deixar escapar alguma coisa do que ele estava pretendendo ouvir. Por isso sempre ficava de sobreaviso quando ele vinha conversar sobre assuntos muito distantes daquele que preocupava a nós ambos. Nessas ocasiões a minha petulância crescia de tal modo que chegava a incomodar até mesmo a mim.
          Foi então que apareceu o meu futuro grande amigo. Nada de extraordinário, nada de especial aconteceu na primeira vez em que nos vimos. Cenário: copa do departamento. Circunstâncias: ele tentando saber em qual garrafa estava o chá. Conhecimento só para iniciados, já que o chá ficava na garrafa verde e o café na garrafa vermelha, sem nenhum rótulo indicativo. Apontei a garrafa certa e pensei comigo que ele devia ser teórico, porque um físico experimental descobriria bem depressa sem precisar perguntar a ninguém.
          Depois de dois minutos de conversa já nos sentíamos muito à vontade um com o outro.
          Ele jamais perguntou no que eu estava trabalhando. Creio que mesmo um poeta solitário como ele devia ter ouvido sobre o tal projeto confidencial, e por isso não tocava no assunto. Mas se eu tivesse dito alguma coisa ele teria ouvido silenciosamente sem fazer outras perguntas. Seria um ouvinte e não um inquisidor.
          Nunca saberei quanto tempo a nossa amizade singela teria durado se numa tarde eu não tivesse surpreendido uma cena absolutamente chocante.
          Precisando de um certo componente que ainda demoraria a chegar, lembrei-me de que havia alguns exemplares no armário de um laboratório fora das nossas instalações. Fui para lá pensando em repor a retirada quando o meu pedido chegasse. Ignorei consecutivamente vários avisos de “entrada proibida” que antes não existiam. Estranhei mas não me detive; obviamente aqueles avisos não se referiam a mim.
          Ao passar por um corredor, através de uma porta entreaberta vi claramente o meu amigo na mais estranha das atitudes. Ele estava de pé, sem o seu habitual casaco escuro, segurando as abas da própria camisa de forma a mantê-la aberta e com o tórax exposto.
          Diante dele, inclinando-se para frente, o chefe tinha a mão direita estendida em direção ao seu peito, sendo que a esquerda segurava alguma coisa que parecia ser um dispositivo eletrônico.
          Enquanto um olhava fixamente a parede, o outro estava compenetrado no que fazia; por isso não notaram que havia alguém no corredor. Assim pude me aproximar o suficiente para ver... um tórax de robô exibindo uma inconcebível complicação de fios, mostradores, plaquinhas de circuitos e uma variedade de LEDs.
          Fiquei tão chocado que não pude impedir uma exclamação de susto. No ínfimo momento que se passou desde que eles me olharam até que eu começasse a correr, tudo ficou claro em minha mente.
          O que era o meu querido amigo, afinal? Um ciborgue controlado pelo chefe? Todos nós sabíamos das suas pesquisas sobre biofísica e biocibernética. Mas daí a conviver com um ciborque real sem nunca suspeitar... era inacreditável!
          Então o plano era me espionar através do meu amigo. O que haveria nos seus ouvidos ─ microfones? Quem conversava comigo horas seguidas naquelas noites? Quem ouvia sobre os meus problemas, quem me dava apoio emocional? Qual dos dois? Seria devido à sua condição de organismo cibernético que ele possuía aqueles olhos perdidos, aquela atitude absorta, e ─ sobretudo ─ seria por isso que jamais fizera aproximações amorosas? Que fingia não perceber que eu o amava?
          Corri dali tão depressa que não puderam me alcançar. Peguei o meu carro e fugi, a princípio sem saber para onde. O que aconteceria se o chefe me apanhasse? Não tinha dúvida de que me mataria.
          Só sei que queria fugir, e continuei dirigindo. Muito tempo depois notei que me seguiam, não o chefe mas sim a polícia!
          Compreendi perfeitamente: ele havia me denunciado, dizendo que eu estava tentando sair do país para levar informações sobre o projeto.
          A fronteira internacional estava bem perto. O que eu poderia fazer? Abandonei o carro de portas abertas e motor ligado à margem do córrego que naquele trecho delimitava a fronteira. Queria induzi-los a pensar que havia passado para o outro lado. Entrei na mata e segui a pé, sem rumo definido. Por que não voltar e tentar provar a culpa do chefe? Eu não queria voltar. Não poderia tornar a ver o meu amigo sabendo agora que ele era um ciborgue. Precisava fugir de tudo, esquecer tudo, atravessar a fronteira, mudar de nome, de ocupação, de personalidade. Mas não agora, porque me encontrariam facilmente.
          Continuei avançando para dentro da mata. Já amanhecia quando cheguei a um pequeno povoado. Umas dez casas de madeira muito modestas, porém bem cuidadas e cercadas de jardins. Algumas pessoas me viram chegar e vieram ao meu encontro. Contei que a polícia estava atrás de mim para me impedir de atravessar a fronteira. As autoridades não eram bem vistas por aquela gente; julgaram que eu era um perseguido político e me esconderam. O plano era deixar as coisas se normalizarem para depois eu seguir adiante.
          Passei algum tempo naquele povoado, vendo os homens saírem pela manhã carregados de enxadas e foices, indo trabalhar na roça, e voltando à noitinha pouco antes de escurecer. A maioria das mulheres cuidava da casa, das crianças, das hortas e jardins. Eu ajudava em tudo o que podia, principalmente fazendo consertos e cuidando das hortas. Não estava feliz, mas me sentia entorpecido; havia superado o sofrimento dos primeiros dias. Perto dali ficava um campo coberto de flores, depois um capinzal. Mais além, a fronteira, a liberdade!
          Não sei quantos dias fiquei lá. Só me lembro de que saí da apatia quando uma tarde, perto do pôr-do-sol, vi chegar o meu amigo! A mesma face de poeta, o mesmo casaco escuro, os mesmos olhos tranquilos.
          Isso significava que eles sempre souberam onde eu estava. Não foram enganados pela minha ingênua estratégia de abandonar o carro. Ou teria alguém me denunciado?
          Eu não queria lhe falar, mas ele me prendeu pelas mãos (eram quentes e macias, genuínas mãos humanas) e me obrigou a ouvi-lo.
          Disse-me que não era um robô, não era um ciborgue, apenas possuía implantes eletrônicos no tórax devido a um acidente grave, e fora justamente o nosso chefe quem havia feito tais implantes. Depois da sua recuperação o havia recomendado para trabalhar no instituto porque assim poderia estar próximo para prestar assistência em caso de necessidade.
          Quando citei espionagem ele negou, mostrou-se magoado, argumentou, tentou expor evidências, pediu-me para retornarmos juntos. Mas eu não estava ouvindo nada, não estava acreditando em nada.
          Então ele me beijou.
          Então ele me levou de volta.

Imagem: https://jeffwendell.wordpress.com
"Levanta-te, amiga minha, formosa minha, e vem; pomba minha, tu que te recolhes nas aberturas da pedra, na concavidade do muro, mostra-me a tua face, ressoe a tua voz aos meus ouvidos, porque a tua voz é doce, e a tua face graciosa."

"Cântico dos Cânticos de Salomão", Capítulo 2 - Antigo Testamento

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