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"OS MENINOS DA RUA BETO"

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domingo, 31 de maio de 2015

Mesa Redonda em Tabaréu

Estamos no “Festival Literário da Cidade de Tabaréu”, ou, abreviadamente, “Feli Cidade de Tabaréu”. Neste momento realiza-se uma mesa redonda sobre “Literatura Brasileira na Contemporaneidade”, com participação de ilustres profissionais da palavra oriundos de diversas partes do Brasil.

Dentre estes, destacam-se uma importante presença e uma importante ausência.

A presença é do autor João Graveolens Neto, ganhador de vários prêmios incluindo o “Cágado” de melhor romance do ano anterior.

A ausência é da jovem escritora Deneb Dulfim cuja obra de estreia — o primeiro volume da trilogia “Petra” — está há três meses na lista dos best sellers nacionais.

Todos lamentam, mas não se mostram por demais surpresos diante da recusa ao convite feito pela organização do evento. Afinal, ela nunca se mostrou ao público. Sabe-se apenas que é jovem, e é mulher. E que sabe cativar a imaginação dos adolescentes. E que está ficando rica.

Ao final da mesa redonda é inevitável comentar sobre esse fenômeno do mercado literário. São feitos vários elogios, várias menções aos astronômicos números de exemplares vendidos, e também fala-se sobre um boato de o livro virar roteiro de filme a ser rodado em Hollywood.

Apenas uma pessoa mostra-se indiferente à discussão: João Graveolens Neto, justamente o nome mais importante da mesa. Tal atitude não passa despercebida a um repórter local que, farejando controvérsia, pergunta-lhe a opinião acerca do livro escrito pela promissora jovem.

Parece até que o consagrado autor estava esperando ser questionado. Apruma-se na cadeira, pigarreia, puxa o microfone para mais perto e começa elogiando a iniciativa e a coragem demonstrada por muitos jovens ao empreender a escrita de volumosos romances. Tal atividade os afasta de práticas indesejáveis e de companhias danosas. Além disso, aprendem mais por meio das necessárias pesquisas, preparam-se melhor para suas futuras profissões, etc. etc.

A certa altura o repórter pede licença e repete a pergunta, dizendo que gostaria da sua opinião sobre a obra daquela autora.

Sem esconder o seu desagrado, Graveolens Neto responde que algumas coisas podem ser consideradas literatura e outras não, sendo que a “obra” (faz com os dedos o gesto das aspas) da talentosa menina não pode ser considerada literatura.

“Mas se é talentosa, por que sua obra não é literatura?” pergunta o repórter.

“É talentosa no quesito ‘ganhar dinheiro’, o que não deixa de ser um importante talento, certo?” ironiza o autor.

Poupemo-nos dos pormenores da discussão acalorada que se segue a essa afirmação. Porém é interessante notar que, a despeito de sua opinião desfavorável, Graveolens Neto demonstra certa familiaridade com o estilo de Deneb Dulfim, uma vez que é capaz de tecer críticas como: “vocabulário pobre; abuso de verbos fracos e de clichês; excesso de adjetivos; profusão de gerundismos e advérbios; personagens sem substância; pieguice ilimitada”.

“Para alguém que despreza a obra o senhor está bem informado demais”, brada um homem da plateia, o qual justamente vem a ser o representante da editora de Deneb Dulfim.

“Na verdade eu li as primeiras cinco páginas do livro”, responde o insigne autor. “Gosto de saber o que movimenta o cenário do mercado editorial.”

A estas palavras segue-se uma dura polêmica entre os dois.

“Se o senhor leu apenas as cinco primeiras páginas, como pode ter certeza de que se trata do livro dessa autora? Pelas características mencionadas mais parece um texto de Paola Lepri, que, aliás, pertence ao catálogo da sua editora.”

Ao dizer “sua editora”, o representante aponta o dedo rudemente para o interlocutor.

“Nada tenho contra ou a favor da senhora Paola Lepri, cujo nome nem deveria ter sido mencionado já que não está aqui, mas posso provar que o livro era, sem sombra de dúvida, o primeiro volume de ‘Petra’. Não é verdade que se trata da história de uma certa adolescente da classe média alta do Rio de Janeiro, que tendo perdido os pais num acidente descobre-se totalmente falida? Sendo obrigada a se mudar, juntamente com a avó, para uma comunidade instalada sobre um dos morros daquela cidade? Que vai morar em um barraco construído junto a uma grande rocha, que lhe serve de parede no lado norte? Que a cama da jovem é colocada perto dessa rocha? Que a jovem se encosta nela a fim de se refrescar, durante as noites quentes? Que nesse processo acaba descobrindo uma série de inscrições em baixo relevo, cujo significado —“

Nesse ponto o representante o interrompe.

“Está bem, está bem, o senhor já provou que era o livro correto. Agradeço pela leitura crítica das cinco páginas. Lamento que a obra não lhe agrade, mas essa opinião é apenas sua. O resto do Brasil ama Deneb Dulfim e continuará lendo tudo o que ela publicar.”

Graveolens Neto poderia ter adotado a altivez do silêncio, mas retruca:

“Tenho certeza de que o sucesso de vendas continuará inabalável. Afinal é disso que se trata, certo? O mercado, a fama, o dinheiro. A literatura? Ora, a literatura...”

“O senhor deve mesmo ter alguma coisa contra o dinheiro, afinal quanto vendeu o seu romance premiado? Mil cópias? Mil e duzentas? Não muito mais do que isso, imagino.”

O presidente da mesa sente-se obrigado a intervir.

“Senhores, senhores, esse tipo de discussão não cabe neste encontro! Por favor deixem os seus assuntos para mais tarde. Falando nisso, está na hora de encerrar a sessão.”

Depois dos agradecimentos e das palavras finais, a plateia levanta-se para ir embora e algumas pessoas vão conversar com os autores. Na saída encontram-se os dois oponentes. O representante da editora de Deneb Dulfim dirige-se a Graveolens Neto:

“O senhor aceita uma carona? No caminho podemos acabar de falar dos nossos assuntos.”

Ao que o outro responde:

“Agradeço a oportunidade. Somos pessoas razoáveis, certo?”

Quem ouve a conversa acha aquele comportamento tão apropriado, tão civilizado, que a má impressão quase se dissipa. O repórter, sempre atento, tem agora uma conclusão satisfatória para a sua matéria.

Já no carro, o tom do diálogo muda:

“E então, Graveolens, como vai o segundo volume?”

“Está saindo, estou quase terminando. Seguindo o gancho do volume um, Petra entra na rocha em viagem astral e encontra Badezir. O volume dois está centrado no romance, ele tentando ganhar a confiança da menina, que não se lembra da sua encarnação como rainha de Agharta. No desfecho ela é convencida a segui-lo pelo império subterrâneo para ajudar no plano de salvação da humanidade. Esse vai ser o gancho para o volume três. O problema é que ainda não resolvi se ela vai para Agharta com o corpo físico ou com o corpo astral. Isso é que está me atrasando um pouco.”

“Tudo bem, ainda temos tempo. E a literatura, como vai?”

Graveolens Neto acaricia o cavanhaque grisalho e pensa um pouco antes de responder.

“A literatura? Ora, a literatura...”


Imagem: http://www.stlucianewsonline.com

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Francisca Joaquina


CHIQUINA

Olha só eu aquiii!!! Olha como é grande esse tal de teatro! A dona Leni falou que era grande, mas não pensei que era tããão grande assim! O forro fica lá encimão! Olha só quanta coisa linda desenhada no forro. Lá na frente é o palco. É lá que eles vão dançar. Que cortinona bonita. Onde vão ficar os músicos? Deve ser naquele buraco, na frente do palco. Se a dona Leni estivesse aqui eu perguntava pra ela, mas ela falou: Chiquina, você que é uma menina bem comportada eu vou deixar aqui sozinha, e vou ficar lá atrás tomando conta daqueles bagunceiros. Tá certo, né? Aqui no teatro não pode fazer bagunça. Principalmente depois que a dança começar. Fiquei tão contente, mas tão contente, quando a dona Leni disse que ia trazer a gente aqui que até chorei de alegria, e ela até me pegou no colo quando me viu chorando. Nunca na minha vida eu vi de perto esse tal de balê, só um pouquinho na televisão, mas tenho certeza que quero ser bailarina. É a coisa mais linda do mundo. Lá na escola as meninas deram risada de mim quando eu disse que ia ser bailarina e coleógrafa. Elas são burras, não entendem nada. Pensaram que eu queria rebolar na televisão e fazer coleção de autógrafo. Não tem nada a ver com autógrafo, eu disse, é coleógrafa! Coleógrafa é quem inventa as danças! As bobonas ficaram dizendo que além de rebolar eu também queria inventar os rebolados. Não dá pra explicar as coisas praquelas meninas. São muito burras. Esse apelido que me botaram, Chiquina Chiqueiro, é coisa de quem não sabe de nada. Chiqueiro é lugar de porco, mas eu não sou porca, sou até bem limpinha. Depois eu descobri que elas estavam pensando que o Lar das Crianças é sujo que nem chiqueiro! Mas não é, lá é tudo muito bem limpo, não tem nada a ver com chiqueiro. Elas nunca foram lá e ficam inventando. Não sei não, mas outro dia a dona Leni estava falando umas coisas que eu fiquei pensando... Essa implicância que as meninas têm comigo vai ver que é aquilo que a dona Leni estava falando, um tal de perconceito. Ela disse que perconceito é quando os outros não gostam da gente sem a gente ter feito nada de errado, só porque a gente é pobre, ou é um pouco diferente, ou porque a pele não é branquinha. Pobre eu não sou, nem sou diferente, mas como a minha pele é bem escura perguntei pra ela se era errado ter pele escura. Só se for escura de sujeira, ela disse. Ela disse que se tem flor de toda cor, então por que não pode ter gente de toda cor? Por acaso flor vermelha é mais bonita que flor amarela? ela perguntou. Eu gosto mesmo é de flor azul, mas entendi bem o que ela estava querendo dizer. Daí perguntei pra ela quando é que vai parar esse negócio de perconceito. Ela disse: não sei, minha filha. Só quando a humanidade melhorar... E ficou olhando longe, pensando. A dona Leni é a voruntália mais boazinha de todas. Hoje ela me deixou sentar na janelinha, porque ela sabe que eu adoro olhar pela janelinha. Tanta coisa bonita passando! Gosto tanto de passear de ônibus. Mas hoje além do passeio ainda tem o balê, que é melhor do que tudo. Será que tem bailarina preta? Não vi nenhuma na televisão. Tomara que tenha. Aposto que as bailarinas não ligam pra esse negócio de perconceito. Isso é coisa de gente burra. Essa menina aqui do lado é que tem a pele bem branquinha. Olha só como o cabelo dela é clarinho! Será que essa muletinha é dela? Olha os músicos entrando! Vai começar, vai começar!! Ai, meu Deus, que o meu coração tá batendo feito louco, parece que vai explodir! Ai, meu Deus, me ajuda senão eu morro de tanta emoção!!!

FRAN JÔ

Que gracinha essa menina que acabou de se sentar aqui ao lado. Deve ser bailarina, pelo jeitinho do corpo. Eu nunca tinha visto bailarina de cor... Que sorte ela tem, pode treinar, pode dançar... Mas um dia eu vou poder também. Tive paciência até aqui, vou continuar tendo. Não vou perder a esperança. Quem sabe um dia não estarei junto com essa menina dançando naquele palco? Estou atrasada, mas vou recuperar o atraso. Já fiz quatro cirurgias, agora falta pouco. O doutor Edson diz que é só ter mais um pouco de paciência. Eu tenho. Balê é a coisa mais linda do mundo, vale todo o esforço. Fazia tanto tempo que eu não saía de casa... Quando a vovó perguntou se eu queria ver o balê, fiquei tão feliz que comecei a chorar. Acho que foi porque lembrei que também existem coisas lindas nesta vida, que nem tudo é triste e ruim. Foi a primeira vez que fiquei feliz de verdade desde o acidente. Tinha até esquecido como era estar alegre. A última vez que me lembro de estar alegre foi naquele dia de tarde, antes de voltarmos para a cidade, quando o papai e a mamãe estavam arrumando as coisas no carro e eu fiquei brincando com o Marajá. Que cachorrinho lindo! O pessoal do sítio é que tem sorte, eles podem brincar com o Marajá a semana inteira. Foi tão legal, eu corri tanto, dei tanta risada, cheguei a rolar no chão. Fiquei tão suja e suada que tive que tomar banho de novo. Depois na volta me mandaram sentar atrás, porque é perigoso criança sentar na frente. Até que gostei de ficar sozinha atrás, porque tinha as duas janelas só para mim. Adoro viajar olhando pela janela do carro, quanta paisagem linda a gente pode ver. Quando escureceu e não dava mais pra ver nada, deitei no banco e dormi. Só fui acordar no hospital, com todos aqueles tubos e aparelhos. Não lembro quase nada daqueles dias. Só lembro bem de quando a vovó veio me dizer que a mamãe e o papai tinham ido para o céu. Demorei um pouco para entender o que ela queria dizer... A vovó é muito legal. A psicóloga disse que era melhor eu ficar um tempo fora da escola, mas a vovó respondeu na mesma hora: Minha querida, viver é o melhor remédio! Só a vida cura a vida! É, mas as coisas ficaram diferentes na escola. As minhas colegas estão esquisitas. Me olham de outro jeito, me tratam como se eu fosse outra pessoa. No começo eu estava triste mas mesmo assim me esforçava para participar de tudo. Só a vida cura a vida, me lembrava sempre da vovó dizendo isso. Mas não sei não, desconfio que não era bem a minha tristeza que incomodava as garotas, porque agora estou bem melhor e elas continuam esquisitas. Estou achando que o problema é a minha dificuldade de andar. Acho que se sentem incomodadas com as minhas muletas. É uma coisa que não consigo entender. Que é que tem uma pessoa usar muletas? Não continuo sendo a mesma de sempre? Se antes gostavam da minha companhia, por que agora não gostam mais? Não entendo, parece que se sentem superiores! Olha só, a vovó convidou a Taís e a Marcela para virem ao balê conosco, mas elas não quiseram. E me perguntaram: Como é que é isso, Fran Jô, você ainda está interessada em balê? Eu respondi: Mas é claro, por que não estaria? Então perguntaram: Mas você desistiu de ser bailarina, não desistiu? Fiquei com tanta raiva que nem respondi nada. A Taís viu que eu não tinha gostado e cutucou a Marcela. Que meninas idiotas! Não adianta explicar nada pra quem é burro. Desisto. Quando eu ficar boa vou me enturmar com o pessoal do balê, e aí é que vai ser legal, porque no balê só tem gente inteligente. Jesus amado, a orquestra está entrando! Vai começar!! Meu coração disparou! Estou suando frio! Meu Jesus, será que vou aguentar tanta emoção?!


FRANCISCA JOAQUINA

Primeiro Ato

A música começou suavemente e as cortinas foram se abrindo. Francisca Joaquina não está mais sentada naquela poltrona. Está lá no palco entre os bailarinos, naquele cenário colorido, fazendo parte da música, da luz, da beleza. Veja só, é uma aldeia antiga, camponeses, caçadores, moças bonitas. Todos dançam juntos. Agora a música está ligeira, crescendo sutilmente. As bailarinas tão lindas, tão precisas! Os bailarinos tão ágeis e belos. A música cada vez mais alegre. O ritmo se acelera, as saias coloridas se agitam. É primavera, flores e passarinhos, tons amarelos e vermelhos. Todos estão felizes. Francisca Joaquina também está feliz com seu sapato de ponta, executando aquele "pas-de-deux". Não existem dificuldades para ela, dançar é como respirar. Mesmo agora, na cena da loucura, quando tanto é exigido da técnica e da sensibilidade da primeira bailarina, ela dança como se fosse a própria camponesa apaixonada, enlouquecida pela dor do abandono. Como pode o desespero ser belo assim?

Segundo Ato

Acabou-se o colorido. A cena é melancólica, as cores azuladas, a música lenta. Floresta escura: noite, talvez madrugada. Francisca Joaquina continua encantada, envolvida totalmente. O cenário é triste, mas essa é uma tristeza bela. Veja as bailarinas, com seus trajes brancos, quase translúcidos. Como são perfeitas nos movimentos e na beleza. A luminosidade é azul. A música agora fala do arrependimento do amado, cuja leviandade levou a donzela à loucura e depois à morte. Francisca Joaquina é a donzela que volta da morte para salvar seu amado dos perigos sobrenaturais da floresta noturna. Seus movimentos deixaram de ser alegres ou desesperados, agora são suaves, cheios de poesia. Ela o perdoou e vai salvá-lo. Só Francisca Joaquina poderia expressar, com seu talento e emoção, esse perfeito amor. Desponta a luz da aurora, os entes sobrenaturais se retiram, o amado está salvo. Francisca Joaquina faz suas últimas evoluções, e finalmente se vai.

Percepção

Ao começarem os aplausos, ela está de volta à sua poltrona, o rosto molhado de lágrimas e a certeza clara e serena de que, apesar de todas as dificuldades e de todos os preconceitos, vai se tornar aquilo que escolheu ser.

Imagem: http://elizabethblaylock.blogspot.com.br
Balê descrito no conto acima: Giselle

domingo, 24 de maio de 2015

A morte do vampiro

Eu sou psiquiatra. Ou costumava ser, antes de ter o meu registro cassado pela Ordem dos Psiquiatras do Brasil.
Tudo começou quando minha secretária recebeu a ligação daquele homem que desejava ser atendido depois das nove horas da noite. Bastante fora do meu horário, mas resolvi abrir uma exceção. Até porque ele se dispôs a pagar um “adicional noturno”.
Quando chegou, fiquei admirado com sua aparência, mas como sempre aparentei naturalidade. Alto, magro, muito pálido e extremamente bem vestido. Ao apertar minha mão tive um arrepio, tão gelada era a sua pele.
Sentou-se devagar e olhou-me profundamente nos olhos.
“Estou aqui porque a minha mulher me obrigou.”
“Por que a sua mulher achou necessário o senhor vir aqui?”
“Ela acredita que eu seja vítima de uma fantasia criada por minha mente.”
“Que fantasia seria essa?”
“Não há nenhuma fantasia, somente a realidade. Realidade que ela insiste em não admitir.”
“Que realidade seria essa?”
“Que eu sou um vampiro.”
Nesse momento senti-me grato por todos os anos de prática, pela experiência em lidar com os tipos mais bizarros de delírios psicóticos, porque consegui manter a compostura sem desviar os olhos da figura intrigante que tinha à minha frente.
“Conte-me mais a respeito.”
“Faz muito tempo que me tornei vampiro, mas por algum motivo não me adaptei bem a esse estado. Desde o começo tentei reverter a transformação apelando para alguns amigos que tinha na época, religiosos e alquimistas. Eles obtiveram um sucesso parcial, não pleno.”
Dito isso se calou, baixando os olhos como se estivesse recordando fatos muito distantes. Tive que incentivá-lo a continuar:
“Explique melhor, por favor.”
“Eles conseguiram me curar da compulsão por sangue. Consigo viver com alimentação normal. Necessito de complemento proteico sob forma líquida de vez em quando, mas é receita que se pode preparar em uma cozinha comum, sem nenhuma complicação. Além disso, possibilitaram a minha vida à luz do sol. Cruzes e réstias de alho também deixaram de me incomodar. Meus amigos não conseguiram, porém, me livrar da imortalidade.”
E eu, fingindo indiferença:
“Isso o incomoda?”
“Sempre me incomodou, mas já que nada podia fazer a respeito, segui vivendo. Simples falta de alternativa.”
“Ainda não entendi por que a sua esposa o obrigou a esta consulta.”
“O problema é que voltei a ter fobia à luz do sol. Sinto que perdi a capacidade de estar ao ar livre durante o dia. Desde então só me atrevo a sair à noite. Isso incomoda a minha esposa e também a mim.”
“Entendo.”
“É pior do que isso, doutor. Não é um simples incômodo. Tenho receio de que esteja sofrendo uma reversão do meu quadro. Isso pode ser apenas o começo. O que me garante que daqui a pouco eu não volte a ter compulsão por sangue? Essa possibilidade me aterroriza.”
“O que acha a sua mulher dessa possibilidade?”
“Ela não acredita que eu seja um vampiro. Nunca lhe escondi, mas ela nunca acreditou. Sempre achou que fosse uma extravagância minha.”
“O senhor trabalha em que, atualmente?”
“Há muitos anos não trabalho. Devido à minha - digamos - longevidade, pude acumular um razoável capital. Atualmente apenas administro os meus bens. Minha esposa frequentemente me auxilia nessa tarefa. Não chamo de trabalho porque é uma ocupação esporádica.”
“Como a sua esposa pensa que um psiquiatra possa lhe ajudar?”
“Ela acha que o doutor vai poder me livrar daquilo que ela considera um delírio.”
“E o senhor, o que acha?”
“Eu acho que nada pode ser feito. Estou pensando em me divorciar, porque não quero expor a minha mulher ao perigo que provavelmente passarei a representar quando a compulsão por sangue se restabelecer.”
“Então o senhor acredita que realmente vai readquirir todas as suas características por assim dizer vampirescas?”
“Não posso dizer que acredito, mas sim que suspeito. E suspeito fortemente.”
Depois desse diálogo achei melhor encerrar a sessão para que pudesse refletir sobre o caso. Precisava pesquisar a literatura e me informar a respeito desse tipo de delírio, que nunca havia encontrado antes. Disse a ele que telefonaria para marcar uma nova entrevista. Ele agradeceu a consulta, concedeu-me outro desagradável e gelado aperto de mão, pagou à minha secretária o preço combinado e foi embora.
No dia seguinte, sem que eu tivesse tido a chance de começar os estudos, recebi um telefonema. Era da esposa do “vampiro”.
Ela desejava falar comigo pessoalmente. Com urgência.
Mais uma vez abri exceção na minha agenda. Achei conveniente recebê-la naquele dia mesmo. Quanto mais informações pudesse obter sobre o caso, melhor.
Ela era uma mulher baixinha, de pele muito alva e alguns quilos acima do peso. Um tanto ansiosa. Foi logo me dizendo que tinha uma ideia para livrar o marido daquela estranha mania. Mas precisava da minha colaboração. Pedi mais detalhes.
“É simples”, respondeu-me ela. “Se o meu marido ficar exposto à luz do sol e verificar que nada lhe acontece, não terá razão para continuar com essas cismas. Vai recuperar o bom senso. Voltará a ser aquela pessoa razoável e lógica com quem me casei. E de quem tenho saudade...”
Levou o lencinho aos olhos. Deve ser difícil conviver com um desarranjo mental dessa monta, pensei.
“Mas por que a senhora precisa de um psiquiatra para isso?”
“Porque quero fazer tudo de uma maneira limpa, honesta, para que ele não fique zangado comigo no final. Empurrá-lo para fora de casa em um dia de sol - caso eu conseguisse - poderia surtir o efeito, mas ele ficaria ressentido. Não quero magoá-lo. Ele perderia a confiança em mim. O que seria do nosso casamento?”
Abaixou a cabeça, escondeu o rosto com as mãos, esfregou os olhos e disse alguma coisa soluçante que não entendi.
“O que a senhora disse?”
Levantou a cabeça e fitou-me com olhos chorosos:
“Eu disse que não poderia viver sem ele. É o grande amor da minha vida. Que será de mim se o perder?”
E voltou a esconder o rosto com as mãos.
“Pobre mulher, pensei eu. Que situação complicada.”
“Está bem, senhora, eu entendo. Mas não vejo como posso ajudá-la. Eu não serei capaz de convencê-lo a se expor ao sol. A senhora não pode arrastá-lo porta a fora, e nem eu posso.”
A mulherzinha mostrou-se mais animada. Aprumou-se na poltrona, esqueceu o lencinho e explicou-me a ideia com muita desenvoltura. Era óbvio que havia dedicado bastante tempo à composição daquele plano. Entendi perfeitamente suas explicações. Parecia simples. Ninguém sairia machucado. Apenas eu, talvez, caso o pretenso vampiro se irritasse ao perceber o que havia acontecido. Ele podia não ser uma criatura das trevas, mas era alto. Apesar da palidez, aparentava ser bem mais forte que eu.
Em resumo, aceitei a sugestão da mulherzinha. Nesse instante assinei minha sentença.
Hoje, rememorando os fatos, não consigo uma justificativa razoável para tal procedimento. Fui insano. Agi contra a ética da minha profissão. Foi justo cassarem o meu diploma.
Telefonei ao paciente e marquei uma nova entrevista para aquela noite. Uma noite quente de verão. Quando ele chegou dispensei a secretária. Mal tínhamos começado a conversar fingi estar com sede e perguntei se ele me acompanharia em um suco gelado. Aceitou sem grande entusiasmo, mas quando viu o líquido vermelho e denso no copo alto, seus olhos brilharam. É verdade, eu juro, os olhos brilharam.
Disfarcei o tremor das minhas mãos quando lhe passei o suco feito de frutas vermelhas com um pouco de beterraba para acentuar a cor.
Ele bebeu com sofreguidão. Perguntei se queria mais um pouco. Acho que queria, mas era educado demais para deixar transparecer a vontade, então recusou. Iniciei uma conversa lenta e monótona, como se estivesse fazendo um apanhado da nossa conversa da noite anterior.
A estratégia deu certo. Poucos minutos depois ele já pendia a cabeça de sono. Mais alguns instantes, e dormia profundamente.
Não perdi tempo. Acomodei-o da melhor forma possível no divã para que repousasse em posição confortável, e fui empurrando pouco a pouco o móvel para perto da janela que dava para o leste. Depois de um esforço razoável, a localização ficou perfeita. Abri bem as cortinas.
Os raios do sol, assim que este nascesse, bateriam em cheio no homem adormecido.
Nessa noite não voltei para casa. Fiquei na sala ao lado, a porta entreaberta a fim de ouvir os ruídos do consultório. Atormentava-me o pensamento de estar agindo errado. Quais eram as chances de o paciente acordar, descobrir-se naquela situação, e vir me agradecer por tê-lo sedado descaradamente, obrigando-o a passar a noite fora do seu domicílio sem prévio consentimento?
E tudo por sugestão de uma mulher que não entendia nada da prática médica e que deveria ter sido ouvida e confortada, mas nunca acatada. E que sairia imune de tudo isso qualquer que fosse o resultado, já que eu havia dado a minha palavra de jamais mencionar a sua participação.
Foi uma noite terrível. Não sei a que horas cochilei um pouco, de pura exaustão. Sentado ali na sala de espera, o pescoço mal acomodado no encosto do sofá, acordei de repente com um berro excruciante.
Jamais conseguirei esquecer aquele som. Não imaginava que pudesse existir um brado tão desesperado, tão lancinante, tão cheio de dolorosa agonia.
Corri para o consultório. O sol de verão havia nascido e banhava o ambiente com uma luz intensa. No divã, restos fumegantes de uma coisa que, instantes atrás, ainda conservava uma forma humana...
Fui preso. A viúva, alegando que o seu esposo não havia voltado da consulta noturna, acionou a polícia.
Não pude explicar o monturo no divã. A análise técnica revelou que eram restos mortais humanos. Humanos?!
Já que nunca consegui esclarecer o ocorrido, várias hipóteses foram levantadas. Até mesmo de um caso amoroso entre o psiquiatra e seu paciente, levando o primeiro a assassinar cruelmente o segundo por motivo de ciúmes.
O que importa é que hoje estou preso, cumprindo uma longa pena.
A mulher do vampiro chorou bastante durante o processo. Sempre esfregava os olhos antes de começar a chorar. Agora, porém, não chora mais. Ri muito e se diverte escandalosamente.
Como eu sei? É que leio notícias suas em revistas aqui na prisão. Colunas sociais sempre trazem fotos da mulherzinha se esbaldando em lugares bem frequentados da Europa, geralmente na companhia de gente famosa. Perdeu o excesso de peso e está bela e bronzeada.
Eu, pelo contrário, torno-me a cada dia mais pálido e inexpressivo...

Imagens:
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segunda-feira, 18 de maio de 2015

"Porque a tua voz é doce, e a tua face graciosa."

          Difícil descrever o que ele era para mim. Não apenas um colega de trabalho, nem simplesmente um amigo. Talvez a melhor palavra fosse confidente. Todas as alternativas anteriores, e mais.
          Sua face de poeta sugeria uma vida contemplativa, preenchida por preocupações filosóficas. Assim ele vivia, exceto nos momentos em que interrompia seus devaneios para me dar atenção.
          No departamento em que trabalhávamos a atividade era incessante; todos estavam sempre ocupados, ninguém seria surpreendido olhando o vazio através da janela. Exceto ele. Não raramente, em meio ao cálculo mais árido, encontrava ideias escondidas entre os símbolos matemáticos as quais mereciam pelo menos dez minutos de reflexão.
          Era comum, ao entrar em sua sala, encontrá-lo em plena contemplação, as mãos esquecidas sobre o teclado do computador, fixando um ponto qualquer além da parede. Não se tratava de ociosidade; ele realmente precisava daqueles instantes para compor sua linha de pensamentos. A prova estava nos artigos publicados, criativos e muitíssimo bem elaborados. Infelizmente, não eram numerosos.
          Por esse motivo, de todos nós era ele quem ocupava a posição mais modesta. Enquanto trabalhávamos febrilmente tentando terminar logo o que começávamos, discutindo e muitas vezes brigando pelos nossos pontos de vista, disputando as posições de prestígio dentro do instituto, ele desenvolvia tranquilamente os seus trabalhos teóricos sem nenhuma pressa. Enquanto que a maioria dos cientistas daquele departamento ocupava-se também em dar aulas na universidade, meu amigo nem cogitava dessa possibilidade. Não tinha tempo, dizia.
          Àquela altura sua idade estava em tinha trinta e poucos anos. Rosto calmo, mãos delicadas, quase sempre usando o mesmo casaco escuro. Raramente sorria, mas isso não era necessário. Havia um sorriso subjacente em todos os seus atos, em todas as suas palavras. Assim eu achava.
          Como éramos diferentes! Eu, o típico carreirista, em constante atrito com certos colegas e principalmente com o chefe do departamento. Esse era quem mais me irritava, sempre achando que os meus projetos eram muito caros, ou inaplicáveis, ou absurdos. Às vezes eu me excedia na minha arrogância diante dele, mas sabia que estava a salvo. Minha competência era indiscutível. Mais de uma vez as minhas sugestões haviam salvado projetos aparentemente irrecuperáveis, e geralmente era eu quem enxergava erros nem sempre óbvios nos trabalhos dos outros. O nível do departamento cairia se me despedissem. Por isso o chefe e os outros tinham que me tolerar.
          Foi durante uma das diversas crises ─ a pior de todas ─ que conheci o meu querido amigo. Ele havia chegado de outra universidade para trabalhar conosco. Ninguém sabia, àquela altura, das suas tendências filosóficas. Numa época em que todos procuravam produzir mais e melhor, aperfeiçoando-se tecnicamente e apresentando resultados, ele dava-se ao luxo de questionar a natureza das coisas. Isso era filosofia, não era ciência.
          Surpreendentemente, nossas divergências de personalidade nunca foram problema. Desde o primeiro dia em que nos encontramos nos demos muitíssimo bem. Ele dizia admirar a minha ─ por assim dizer ─ agressividade, algo que não possuía; quanto a mim, sentia muita tranquilidade na presença dele e tinha um grande prazer em ouvi-lo falar, expondo suas ideias, suas dúvidas, suas aspirações.
          Mas, como estava dizendo, na época em que nos conhecemos eu estava empenhado em uma das minhas batalhas contra o chefe do departamento.
          Acontecia que o governo vinha encarregando os cientistas de certas tarefas cujos objetivos desconhecíamos. Eram tão específicas e tão diferentes entre si que se tornava impossível juntar o quebra-cabeça e desvendar que projeto havia por detrás de tudo aquilo. Para descobri-lo teríamos que promover uma reunião com todos os participantes ─ físicos, químicos, biólogos, engenheiros, médicos e biofísicos.
          Isso era impossível por dois motivos: não sabíamos quem estava envolvido, e os trabalhos eram confidenciais. Ninguém teria coragem de faltar à palavra dada, escrita e assinada de não divulgar o objeto de seu trabalho. Na época em que estávamos, não seria nada saudável para um pesquisador perder as boas graças com o governo.
          Pois bem, a divergência surgiu porque eu e o chefe adotamos posições contrárias na questão de aceitar ou não tais incumbências. Ele não queria aceitá-las alegando que estaríamos trabalhando para alguma coisa cujo fim desconhecíamos e que bem provavelmente reprovaríamos se conhecêssemos. Não fosse assim, dizia ele, qual o motivo de tanto mistério?
          Eu, por meu lado, estava disposto a aceitar o que me dessem para fazer, porque, afinal de contas, não só dependíamos deles para obter as nossas subvenções como também − qualquer que fosse o misterioso projeto − jamais poderia ser nocivo ao nosso povo e ao nosso país. Hoje me admiro por não ter considerado o fato de que o governo era autoritário, uma ditadura que já durava três décadas. Portanto de nada se podia ter certeza.
          Resumindo a história, o instituto aceitou as incumbências e vários pesquisadores daquele departamento se dispuseram a colaborar. Logo tornou-se óbvio que à minha equipe havia sido confiada uma parte importante do trabalho, visto que a verba destinada era muito alta.
          Passamos a desenvolver as atividades em um setor isolado, cuja segurança era garantida pela presença de guardas armados. Nosso equipamento chegava em caixas fechadas sem nenhuma indicação do seu conteúdo. Somente a mim e aos meus assistentes era dado conhecer o que acontecia naquela dependência. Ainda assim não saberíamos dizer a que se prestaria o produto dos nossos esforços. Alguém ou algum grupo em íntimo contato com o governo havia idealizado uma coisa grande e importante, e tão inédita que nem mesmo nós, com a nossa experiência, podíamos deduzir.
          Foi então que o chefe fez algumas tentativas de se aproximar de mim para saber o que eu fazia. Não direi que quase o tenha conseguido, mas confesso que era difícil não sucumbir à impressão de quase fascínio que sempre me causou. Ele era uma pessoa atraente, quer pelo seu porte, quer pela fisionomia de tranquila inteligência, quer pelo modo de fixar aqueles intrigantes olhos azuis nos olhos da gente.
          Quando fui trabalhar no seu departamento eu era um estudante recém-graduado, ao passo que ele já ocupava uma posição importante. Ao andar pelos corredores carregando peças ou aparelhos, com o jaleco amarrotado e não raramente sujo de graxa, algumas vezes eu o encontrava. Ele se detinha e me esperava passar. Essa habitual precedência na passagem era para mim motivo secreto de um certo orgulho, bobagem típica de principiante inseguro.
          Fui aos poucos crescendo na profissão, sempre trabalhando muito e tentando ignorar a presença daquele homem importante que me assustava um pouco e me fascinava um pouco. Assim, quando ele tentou se aproximar fiquei bastante inquieto, temendo que a velha admiração dos tempos de estudante viesse a prejudicar o meu estado de alerta e deixar escapar alguma coisa do que ele estava pretendendo ouvir. Por isso sempre ficava de sobreaviso quando ele vinha conversar sobre assuntos muito distantes daquele que preocupava a nós ambos. Nessas ocasiões a minha petulância crescia de tal modo que chegava a incomodar até mesmo a mim.
          Foi então que apareceu o meu futuro grande amigo. Nada de extraordinário, nada de especial aconteceu na primeira vez em que nos vimos. Cenário: copa do departamento. Circunstâncias: ele tentando saber em qual garrafa estava o chá. Conhecimento só para iniciados, já que o chá ficava na garrafa verde e o café na garrafa vermelha, sem nenhum rótulo indicativo. Apontei a garrafa certa e pensei comigo que ele devia ser teórico, porque um físico experimental descobriria bem depressa sem precisar perguntar a ninguém.
          Depois de dois minutos de conversa já nos sentíamos muito à vontade um com o outro.
          Ele jamais perguntou no que eu estava trabalhando. Creio que mesmo um poeta solitário como ele devia ter ouvido sobre o tal projeto confidencial, e por isso não tocava no assunto. Mas se eu tivesse dito alguma coisa ele teria ouvido silenciosamente sem fazer outras perguntas. Seria um ouvinte e não um inquisidor.
          Nunca saberei quanto tempo a nossa amizade singela teria durado se numa tarde eu não tivesse surpreendido uma cena absolutamente chocante.
          Precisando de um certo componente que ainda demoraria a chegar, lembrei-me de que havia alguns exemplares no armário de um laboratório fora das nossas instalações. Fui para lá pensando em repor a retirada quando o meu pedido chegasse. Ignorei consecutivamente vários avisos de “entrada proibida” que antes não existiam. Estranhei mas não me detive; obviamente aqueles avisos não se referiam a mim.
          Ao passar por um corredor, através de uma porta entreaberta vi claramente o meu amigo na mais estranha das atitudes. Ele estava de pé, sem o seu habitual casaco escuro, segurando as abas da própria camisa de forma a mantê-la aberta e com o tórax exposto.
          Diante dele, inclinando-se para frente, o chefe tinha a mão direita estendida em direção ao seu peito, sendo que a esquerda segurava alguma coisa que parecia ser um dispositivo eletrônico.
          Enquanto um olhava fixamente a parede, o outro estava compenetrado no que fazia; por isso não notaram que havia alguém no corredor. Assim pude me aproximar o suficiente para ver... um tórax de robô exibindo uma inconcebível complicação de fios, mostradores, plaquinhas de circuitos e uma variedade de LEDs.
          Fiquei tão chocado que não pude impedir uma exclamação de susto. No ínfimo momento que se passou desde que eles me olharam até que eu começasse a correr, tudo ficou claro em minha mente.
          O que era o meu querido amigo, afinal? Um ciborgue controlado pelo chefe? Todos nós sabíamos das suas pesquisas sobre biofísica e biocibernética. Mas daí a conviver com um ciborque real sem nunca suspeitar... era inacreditável!
          Então o plano era me espionar através do meu amigo. O que haveria nos seus ouvidos ─ microfones? Quem conversava comigo horas seguidas naquelas noites? Quem ouvia sobre os meus problemas, quem me dava apoio emocional? Qual dos dois? Seria devido à sua condição de organismo cibernético que ele possuía aqueles olhos perdidos, aquela atitude absorta, e ─ sobretudo ─ seria por isso que jamais fizera aproximações amorosas? Que fingia não perceber que eu o amava?
          Corri dali tão depressa que não puderam me alcançar. Peguei o meu carro e fugi, a princípio sem saber para onde. O que aconteceria se o chefe me apanhasse? Não tinha dúvida de que me mataria.
          Só sei que queria fugir, e continuei dirigindo. Muito tempo depois notei que me seguiam, não o chefe mas sim a polícia!
          Compreendi perfeitamente: ele havia me denunciado, dizendo que eu estava tentando sair do país para levar informações sobre o projeto.
          A fronteira internacional estava bem perto. O que eu poderia fazer? Abandonei o carro de portas abertas e motor ligado à margem do córrego que naquele trecho delimitava a fronteira. Queria induzi-los a pensar que havia passado para o outro lado. Entrei na mata e segui a pé, sem rumo definido. Por que não voltar e tentar provar a culpa do chefe? Eu não queria voltar. Não poderia tornar a ver o meu amigo sabendo agora que ele era um ciborgue. Precisava fugir de tudo, esquecer tudo, atravessar a fronteira, mudar de nome, de ocupação, de personalidade. Mas não agora, porque me encontrariam facilmente.
          Continuei avançando para dentro da mata. Já amanhecia quando cheguei a um pequeno povoado. Umas dez casas de madeira muito modestas, porém bem cuidadas e cercadas de jardins. Algumas pessoas me viram chegar e vieram ao meu encontro. Contei que a polícia estava atrás de mim para me impedir de atravessar a fronteira. As autoridades não eram bem vistas por aquela gente; julgaram que eu era um perseguido político e me esconderam. O plano era deixar as coisas se normalizarem para depois eu seguir adiante.
          Passei algum tempo naquele povoado, vendo os homens saírem pela manhã carregados de enxadas e foices, indo trabalhar na roça, e voltando à noitinha pouco antes de escurecer. A maioria das mulheres cuidava da casa, das crianças, das hortas e jardins. Eu ajudava em tudo o que podia, principalmente fazendo consertos e cuidando das hortas. Não estava feliz, mas me sentia entorpecido; havia superado o sofrimento dos primeiros dias. Perto dali ficava um campo coberto de flores, depois um capinzal. Mais além, a fronteira, a liberdade!
          Não sei quantos dias fiquei lá. Só me lembro de que saí da apatia quando uma tarde, perto do pôr-do-sol, vi chegar o meu amigo! A mesma face de poeta, o mesmo casaco escuro, os mesmos olhos tranquilos.
          Isso significava que eles sempre souberam onde eu estava. Não foram enganados pela minha ingênua estratégia de abandonar o carro. Ou teria alguém me denunciado?
          Eu não queria lhe falar, mas ele me prendeu pelas mãos (eram quentes e macias, genuínas mãos humanas) e me obrigou a ouvi-lo.
          Disse-me que não era um robô, não era um ciborgue, apenas possuía implantes eletrônicos no tórax devido a um acidente grave, e fora justamente o nosso chefe quem havia feito tais implantes. Depois da sua recuperação o havia recomendado para trabalhar no instituto porque assim poderia estar próximo para prestar assistência em caso de necessidade.
          Quando citei espionagem ele negou, mostrou-se magoado, argumentou, tentou expor evidências, pediu-me para retornarmos juntos. Mas eu não estava ouvindo nada, não estava acreditando em nada.
          Então ele me beijou.
          Então ele me levou de volta.

Imagem: https://jeffwendell.wordpress.com
"Levanta-te, amiga minha, formosa minha, e vem; pomba minha, tu que te recolhes nas aberturas da pedra, na concavidade do muro, mostra-me a tua face, ressoe a tua voz aos meus ouvidos, porque a tua voz é doce, e a tua face graciosa."

"Cântico dos Cânticos de Salomão", Capítulo 2 - Antigo Testamento

segunda-feira, 11 de maio de 2015

A tiazinha e o vendedor de laranjas

Eu lá na padaria, sentado num banquinho alto perto do balcão, comendo um misto-quente no pão francês e tomando guaraná gelado. Sinceramente, não queria outra vida. Aí comecei a ouvir a conversa de dois moços que aguardavam os seus pratos feitos na mesa ao lado.

— É sério, meu irmão, a mulher é louca.
— Me desculpa. Eu não tinha ideia que a tiazinha era assim. Se soubesse eu não tinha falado nada.
— Tu não tem culpa. Como podia saber?
— Então... ela chegou lá na banca, ficou olhando pra lá e pra cá, e depois perguntou: “Onde tá aquele menino gritão? Faltou hoje? Além de gritão é malandro?”
— Daí você falou que eu tava trabalhando na outra feira...
— Falei assim: "Dona, ele foi trabalhar com o tio dele. Tá lá na feira da Vila Assunção, ele não vem mais pra cá."
— E ela?
— Ela nada. Ficou olhando quieta e foi embora.

Os pratos feitos chegaram e eles continuaram a conversar enquanto comiam.

— Eu já sabia que ela era louca, mas você não tinha como saber. Desconfiei porque todo sábado ela aparecia e ficava me atazanando. Ela falava assim: “Você é muito gritão, viu menino? Tem que gritar assim? Lá do outro lado da feira a gente escuta você.”
— Mas pra vender tem que gritar mesmo, quanto mais alto melhor. O que ela queria?
— Eu respondia assim: “Tia, a senhora não precisa chegar até aqui. Compra as suas laranjas noutra banca, tá cheio de banca de laranja por aí.”
— E ela falava o quê?
— Ela falava que tinha direito de passar por onde quisesse, que tava na lei do Brasil que a pessoa pode andar por todo lado, e que eu tinha que parar de gritar daquele jeito pra anunciar aquelas porcarias daquelas laranjas.
— Você tinha era muita paciência, eu ia mandar ela comprar as coisas dela no supermercado, que tem ar condicionado e música de alto-falante.
— Um dia falei assim: “Tia, por que a senhora não vai na feira da Vila Assunção? É no sábado também, não fica longe daqui, e lá a senhora não vai me escutar.” Ela respondeu que era muito longe sim, senão ela ia mesmo.
— Engraçado eu nunca ter reparado nisso. Eu via ela chegando e falando com você, mas não entendia a conversa, então pensava que tavam falando da mercadoria, do preço, sei lá.
— Antes fosse. Mas era semana atrás de semana, todo sábado ela reclamando da mesma coisa. Tinha dia que era difícil me livrar dela e atender os fregueses, ela ficava ali parada falando e falando que parecia vitrola.
— Se fosse eu tinha mandado ela praquele lugar.
— Não podia, né companheiro? Ela é louca mas é senhora de idade, ia ficar feio fazer uma coisa dessa.
— Mas tem que ter paradeiro, não tem? Ninguém merece tanta aporrinhação.
— Pois é. Quando o meu tio me chamou pra trabalhar com ele pensei que tava com todos os problemas resolvidos. Ele me paga mais, eu trabalho com os meus primos, e tinha também esse lado, que eu ia ficar livre da maluca.
— A alegria durou pouco.
— Durou pouco mesmo, porque no mesmo dia que você deu a minha ficha ela apareceu lá na Vila Assunção.
— É incrível, se me contassem eu não acreditava.
— Pra você ver! Já tava na hora da xepa, eu lá trabalhando tranquilo, me sentindo aliviado sem ninguém me aperreando, tudo na santa paz, e de repente escuto aquela voz: “Até aqui você vem gritar, seu gritão? Não cansa de gritar? Assim não é possível!”
— Tô imaginando o susto!
— E põe susto aí! Eu falei: “Mas a senhora não morava longe da Vila Assunção? O que tá fazendo aqui tão longe da sua casa?”
— E ela?
— Ela disse que não tinha satisfação que me dar, ia pra onde bem entendesse, e era melhor eu parar de gritar porque a minha mercadoria além de não prestar era muito cara, e não adiantava eu gritar daquele jeito porque não ia vender nada mesmo.
— E agora, meu irmão, você vai fazer o quê?
— Tô aceitando sugestão, companheiro. Pensa em alguma coisa aí que vou te agradecer.

Nessa hora eles se levantaram e foram pagar no caixa. Eu já tinha acabado o meu lanche há um bom tempo, mas fiquei fazendo hora pra ouvir a conclusão da história. Não consegui ouvir. Eles saíram para a rua ainda falando, gesticulando, e se afastaram. Pelo jeito não havia conclusão.
Daí pensei que há uma vantagem em não saber como uma história termina: fica permitido imaginar qualquer final!
Imagens: 
http://cronicaswebmenosdoispontozero.blogs.sapo.pt
http://www.afamosa.com.br



domingo, 10 de maio de 2015

Ovo Cósmico

O sol é uma galinha de penas luminosas. 

Fim de tarde, o sol se põe. O sol é o ovo de si mesmo. 

Ovo negro com manchinhas faiscantes. 

Manhã seguinte, a casca se quebra. 
Nasce um novo sol. 

Só existe um mistério nessa história: 

por que, ao se por, 
o sol não cacareja?


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