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"OS MENINOS DA RUA BETO"

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terça-feira, 21 de abril de 2015

Uma aliança de diamantes

Zenaide me olhou bem fundo nos olhos e perguntou:
— Você quer a versão curta ou a versão comprida?
— Pode ser a curta.
— Então lá vai: eu vi numa vitrine, gostei e comprei.
— Só isso?
— Você pediu a versão curta.
— Então vou preferir a versão comprida.
Ela brincava com o copo de água mineral, batendo as unhas e produzindo um tilintar de sininhos. Vinho branco combinava mais com ela, porém era dia de trabalho e tínhamos uma tarde atarefada pela frente. Me olhou de soslaio e nessa hora, não sei por quê, pensei no olhar de cigana oblíqua e dissimulada de Capitu.
— Tem certeza de que quer ouvir a versão longa?
— Se for verdadeira, sim.
— Será que você tem maturidade para ouvir certas coisas?
Pronto! Bastou essa “certas coisas” para a curiosidade aumentar mais ainda.
— Claro que tenho maturidade. O meu aniversário de vinte e um anos é daqui a dois meses.
— Idade não quer dizer nada. Vivência sim.
— Já tenho muita vivência, pode ficar sossegada.
Eu estava mentindo com a maior cara-de-pau, e ela sabia.
— Eu vou te contar a versão comprida, mas já aviso que se alguém mais ficar sabendo vou ter certeza de que foi você quem espalhou. Daí nego tudo e você fica com fama de fofoqueira. Capisce?
— Capisco.
Duas coisas me surpreenderam: que eu seria a primeira pessoa a ouvir a história, e que ela não tivesse me ameaçado com demissão.
— Este restaurante demora tanto pra servir que vai dar tempo de sobra pra eu contar tudo.
Enquanto ela chamava o garçon a fim de devolver o cardápio e informar as nossas escolhas, fiquei quieta relembrando como conheci essa figura interessante.
Eu tinha acabado de fazer dezenove anos quando finalmente arranjei um emprego de carteira assinada. Fui trabalhar como secretária júnior em uma grande empresa de turismo. Zenaide, secretária executiva da seção de processamento de dados, ficou sendo minha chefe imediata. Nós duas estávamos sob as ordens da Rosa Maria, uma figura decorativa que devia seu posto ao fato de ser namorada de um dos altos executivos. Na prática, quem resolvia todos os assuntos era a Zenaide. Rosa Maria tomava cafezinhos e assinava os papéis.
Logo no primeiro dia fiquei impressionada com a minha chefe, que era mulher de uns trinta e cinco anos, muito bonita, de porte altivo e vestida com bom gosto. Geralmente bem-humorada e sorridente, quando discordava de alguma coisa falava tudo o que tinha que falar sem rodeios nem eufemismos. Na minha insegurança juvenil, eu achava aquilo o máximo e queria ser como ela “quando crescesse”.
Uma das coisas que mais me chamou a atenção quando a conheci foi uma belíssima aliança de diamantes que ela usava no dedo médio da mão esquerda. Não era uma “meia aliança”, mas sim uma “aliança inteira” de ouro branco com diamantes em toda a volta. Que presente maravilhoso para se ganhar! Quem lhe teria dado? Sim, porque apesar de toda a sua elegância, a minha chefe não aparentava ser rica. E se fosse, não precisaria trabalhar ali.
Estava fora de questão fazer-lhe uma pergunta direta. Eu tinha medo de uma resposta do tipo “Meta-se com a sua vida, pirralha!” Comentei a dúvida com as outras colegas do escritório. Afinal a Zenaide era noiva ou casada? O dedo em que ela usava a aliança não significava nem noivado nem casamento.
As meninas responderam que ela era solteira e aparentemente nem tinha namorado firme.
— A aliança deve ser de algum relacionamento passado. Muito esperta ela, que se “esqueceu” de devolver. Fez muito bem!
Os meses passaram e a camaradagem aumentou, mas nunca conversamos sobre assuntos pessoais. Vez ou outra ela me pegava olhando para a joia, e só uma vez perguntou:
— Gosta do meu anel?
— É lindo.
Um sorriso, e só.
Hoje porém é um dia diferente. Embora seja sábado, viemos ao escritório fazer um serviço extra que vai levar o dia inteiro. Primeira vez que almoçamos juntas. Enquanto esperávamos o garçon nos atender cometi a primeira ousadia:
— Zenaide, ontem você teve uma discussão forte com a Rosa Maria. Sei que você é quem estava com a razão, mas fiquei pensando se não tem perigo de ela reclamar lá com o namorado da cúpula diretiva e você perder o emprego.
Ela deu uma risada, como se achasse a ideia divertida.
— Isso é a última coisa que me preocupa. A Rosa Maria precisa de alguém pra fazer o serviço dela e não é tão besta a ponto de ignorar como é difícil encontrar alguém. Mas se quiser me despedir, ótimo. Recebo a indenização, retiro o fundo de garantia, coloco junto com o dinheiro que já economizei, e abro a minha butique.
— Está planejando abrir uma butique?
— Estou. A minha dúvida era: faço uma viagem pela Europa ou monto a butique? Resolvi deixar a Europa para mais tarde e continuar juntando dinheiro. Depois, sendo dona de uma loja, vou ter condições de bancar uma viagem bem melhor.
— Falta muito pra juntar toda a grana necessária?
— De acordo com o plano, mais uns quatro anos trabalhando eu consigo. Se me mandarem embora eu monto o negócio imediatamente, apesar de que nesse caso vai começar menor do que imaginei. Mas aí é só questão de tempo para as coisas convergirem.
Veio o garçon, trouxe o cardápio e duas garrafinhas de água. Quando ele se afastou cometi a segunda ousadia e perguntei sobre a aliança de diamantes.
A “versão comprida”, nas palavras da própria Zenaide, é esta aqui (aproximadamente, porque posso ter esquecido algum detalhe ou trocado alguma palavra).

Tudo começou por causa da minha avó paterna, que morava lá em casa. Tudo o quê? O meu desejo por liberdade e independência. Não, ela não era uma feminista inspiradora, pelo contrário. Era uma senhora moralista e opressora. Praticamente mandava na minha família. Dominava o meu pai, que dominava a minha mãe, e todos eles juntos dominavam as crianças: eu e os meus dois irmãos mais velhos. Ela vivia dizendo: “A pureza é o maior tesouro de uma mulher.” Eu não entendia que raio de pureza era essa, mas nem ela e nem a minha mãe me esclareciam, só diziam que mais tarde eu ia entender. Quando ela ficou internada no hospital, eu a visitei alguns dias antes da sua morte. Na hora da despedida ela segurou a minha mão e disse: “Zenaide, espero que você encontre um bom moço, se case e seja muito feliz.” Eu tinha nove anos, mas me senti ofendida. Então ela achava que a minha felicidade não dependia de mim mesma, mas sim de algum “bom moço”? Ora, faça-me o favor! Só não falei nada porque entendia a gravidade da ocasião.
Depois que ela morreu até pensei que as coisas fossem ficar mais leves lá em casa, mas não. Tudo seguiu naquela mesma toada do rigor, da seriedade, da opressão. Milhões de proibições e milhões de obrigações. Tudo era pecado, tudo era feio. Parecia que a minha avó ainda estava lá olhando e fiscalizando tudo.
Não sei se você sabe, mas sou do interior. Nasci em Arealva, uma cidade colada em Bauru. Na época era uma cidade pequena, então todos se conheciam e comentavam a vida uns dos outros. Esse patrulhamento me incomodava bastante. Eu não queria viver lá para sempre, levando aquele tipo de vida, sendo monitorada pelos pais, pelos parentes e pelos vizinhos. Foi então que comecei a fazer os meus planos.
Achei que a solução ideal seria estudar e ser professora, porque naquela época as meninas que se formavam eram enviadas para trabalhar em outras cidades. Se eu tinha vocação? Nenhuma. Eu nem sabia o que queria ser, mas a conveniência era estudar em outra cidade, já que Arealva não tinha escola normal. E também dar um jeito de nunca mais voltar depois de formada.
Dito e feito. Prestei exame de admissão na Escola Normal Santa Tereza d’Ávila, em Bauru, fui aprovada e comecei a cursar. As aulas eram à tarde, da uma às seis. Eu gastava quarenta e cinco minutos de ônibus para ir e quarenta e cinco para voltar, mas achava ótimo. Aproveitava pra colocar a leitura em dia, e só de saber que estava sozinha, sem ninguém me supervisionando, me sentia bem. Já que sempre fui uma menina comportada e ajuizada, a família confiou que nada de mal pudesse acontecer.
Lá na escola normal é que descobri finalmente o que era a tal pureza de que a minha avó tanto falava. Nada mais nada menos do que virgindade. Algumas colegas eram mais infantis do que eu, outras eram sabidas, e foi com essas que eu me enturmei. Então, com o tempo, fui vendo o que eu queria e o que não queria pra mim nessas questões da sexualidade.
Naquele tempo quase todas as mocinhas eram virgens, essa era a regra. Mas veja só o que observei. Aquelas que eram, morriam de medo da “noite de núpcias” por causa da dor, da vergonha, e principalmente porque não sabiam se iam gostar ou não. E gostando ou não gostando, nessa altura já haviam jurado amor eterno. Pode uma coisa dessas? E as que não eram? Essas também morriam de medo, já que o marido ia descobrir que “não eram puras” e a reação deles podia ser dramática e até violenta.
Cheguei à conclusão de que aquelas meninas, apesar de serem da minha idade, tinham ideias iguais às da minha avó. O futuro era centrado no marido que um dia iriam arranjar.
Quando faltava um ano para a formatura houve um acontecimento importante. As minhas colegas e eu fomos passear no centro de Bauru, e foi então que eu vi esta joia (ela ergueu a mão para me mostrar a aliança) na vitrine de uma joalheria. Fiquei hipnotizada. Eu queria a aliança para mim. Nunca havia desejado tanto uma coisa e com tanta certeza de que seria minha. Entrei na loja e perguntei o preço. Absurdamente alto. Se fosse hoje, equivaleria a um ano inteiro do meu salário. Imagine então o que representava para uma adolescente que todos os dias recebia da mãe o dinheiro contadinho para as passagens e o lanche.
O real objetivo daquele passeio era conhecer um bordel — do lado de fora, é claro. Uma das meninas ficou sabendo, por uma colega do curso de balé, que por sua vez tinha recebido a informação de um primo que trabalhava para um cantor famoso (falou o nome do cantor) o endereço de um bordel chique ali em Bauru. Queríamos saber qual era a aparência de um bordel chique. Só sabíamos que ficava na rua tal e tal, e que era a única casa cor-de-rosa da vizinhança.
Foi fácil localizar. Não dava pra ver o térreo por causa do muro alto; apenas o andar de cima estava à vista. O terreno era grande, com muitas árvores, passava a impressão de que havia belos jardins. Tudo discreto e chique. Até a tonalidade rosa das paredes era sóbria.
Enquanto passávamos em frente, um rapaz chegou e apertou a campainha. Devia ser prestador de serviço, porque estava com roupa profissional. Paramos de andar e ficamos a uma certa distância, observando. O portão foi logo aberto por uma empregada muito arrumadinha, de uniforme branquíssimo e touquinha rendada, uma graça. A curiosidade só aumentou. Uma pena não podermos entrar.
Durante a viagem de volta pra casa uma ideia louca passou pela minha cabeça. Vi uma forma de obter o dinheiro para o anel e ao mesmo tempo resolver a outra pendência. Qual pendência? Aquela... Você já vai entender.
Quando cheguei à minha casa fui logo avisando que no dia seguinte ia precisar sair cedo para estudar com uma colega, lá em Bauru. O que eu planejava mesmo fazer era procurar a caftina do bordel chique e propor um negócio. (Neste ponto ela parou e esperou eu me recuperar da surpresa.) 

Naquela manhã coloquei roupa de passear e me arrumei o melhor que pude. Levei dentro de uma sacola o uniforme dobrado cuidadosamente. Peguei o ônibus e fui lá tocar a campainha da casa rosa.
A empregada arrumadinha veio me atender. Pedi para falar com “a dona da casa”. Sem me perguntar nada, ela me levou para dentro. O jardim era mais bonito do que eu tinha imaginado. Não tinha flores, só folhagens. Era um jardim de folhagens, a maioria verde e algumas coloridas, com cascatinhas e pequenos lagos artificiais . Entramos em uma sala muito bem decorada e lá fiquei esperando.
Logo veio me atender uma senhora distinta e sorridente. Era a dona Eneida, a proprietária do local. Sentou-se ao me lado e me tratou com tanta simpatia que desisti de todas as mentiras que tinha imaginado contar, incluindo a minha idade. Falei tudo pra ela, com a maior sinceridade.
Dona Eneida me fez um monte de perguntas; acho que estava tentando saber se havia firmeza na minha resolução. Quando se convenceu de que eu sabia o que estava fazendo, topou a proposta.
(Proposta? Que proposta?)
Eu propus a ela fazer um programa — apenas um — no qual eu perderia a virgindade. O pagamento seria a quantia exata para comprar a aliança de diamantes. 

(Outra pausa, desta vez para eu me recuperar do choque.)
Graças à convivência com as minhas colegas espertas, eu sabia que virgindade tinha um alto preço nesse tipo de negócio. Então eu resolveria dois problemas ao mesmo tempo: me livraria desse estropício do hímen e arranjaria a grana para o meu anel.
A caftina agiu com bastante profissionalismo. Sabendo da minha inexperiência, me colocou a par de certos aspectos 
 digamos  técnicos, e quis saber o que eu ia  e o que eu não ia  permitir. Todas as respostas ela anotava em uma caderneta de capa dura, como se fosse um médico tomando informações do paciente. 

No final disse que me entendia, já que tinha sido criada em uma família de costumes rígidos onde se sentia sufocada por não se adaptar àquele modo de vida. E entendia também que eu não quisesse ter a minha primeira relação com algum namoradinho inexperiente e desajeitado, que mais poderia me traumatizar do que outra coisa. Mas quis saber por que o pagamento deveria ser apenas o valor exato do anel. Fiquei com receio de ofender, mas mesmo assim respondi que receber a mais seria, sob o meu ponto de vista, prostituição.
Ela ficou me olhando, pensativa. Deve ter entendido nessa hora que eu não pretendia seguir na profissão. Aparentemente não se ofendeu, e pediu para eu voltar depois de uma semana. Ia entrar em contato com os clientes mais adequados para o meu caso e ver o que achavam da proposta.
”Adequados como?” perguntei.
”Os mais cavalheiros, os mais respeitosos e educados. Você precisa ser bem tratada, caso contrário não vai valer a pena.”
”O preço não está alto demais?” perguntei.
”Menina, para muitos dos nossos clientes isso que você está pedindo é o troco da feira. Não se preocupe.”
Uma semana depois voltei lá na mesma hora, tendo dito em casa que ia estudar na casa daquela mesma colega. Dona Eneida me recebeu sorridente, disse que os arranjos estavam feitos e que tudo ia dar certo. Então me passou muitas informações sobre o que ia acontecer, como eu devia me comportar, deu dicas — e também conselhos!
Pois é, o papel que cabia à minha mãe, foi ela quem desempenhou. Orientações que a minha mãe tinha a obrigação de me ter dado, foi a caftina quem me deu. E com todo o carinho, toda a delicadeza.
Combinamos o dia — tinha que ser pela manhã, devido às aulas — e ficou tudo acertado. Antes de nos despedirmos ela quis informações sobre a aliança de diamantes: como era, qual a joalheria, o lugar onde estava na vitrine, etc.
Não falei sobre essas coisas com ninguém, nem com as minhas colegas espertas. Ninguém jamais suspeitou de nada. Fiquei um pouco nervosa com o pensamento do que estava para acontecer, mas não foi um nervoso de medo, mas sim de expectativa.
(Nervosa estava eu, imaginando o que ela ainda tinha para me contar.)
No dia marcado e na hora certa, me apresentei no bordel. Dona Eneida me levou para dentro, me ajudou nos preparos, me fez beber chá com bastante açúcar, e me levou para conhecer o cliente.

(Percebi que a minha boca estava seca e bebi tudo o que restava na minha garrafinha.)
Era um homem bonito, bem tratado, de uns quarenta anos. Ao me ver sorriu um sorriso lindo, com os dentes mais perfeitos que eu já tinha visto. Usava um perfume delicioso.
Pra resumir a história, correu tudo otimamente. Após ele se retirar dona Eneida veio me ver, saber se eu estava bem. Pra dizer a verdade eu nunca tinha estado melhor. 

(Pausa para risadas muito felizes, como se estivesse revivendo a sensação.)
Ela então me fez algumas recomendações e foi me esperar enquanto eu me arrumava para ir embora. Quando desci, me convidou para almoçar. Conversamos, comemos, rimos, foi muito bom. Terminado o almoço, ela pegou a minha mão e colocou o anel, neste mesmo dedo onde está até hoje. Disse que eu teria problemas se tentasse comprar um item tão caro sendo menor de idade, por isso tomou a liberdade de fazê-lo. Depois me deu de presente um ursinho de pelúcia cor-de-rosa. Agradeci, dei-lhe um abraço, um beijo, e fui embora me sentindo muito leve e feliz.
Antes de chegar à escola escondi o anel. Mostrei apenas o ursinho dizendo que tinha acabado de comprar. Em casa, disse que havia ganhado num sorteio. Naquela noite descosturei a bolotinha do focinho, escondi o anel lá dentro e costurei de novo. Ficou perfeito. Nunca mais larguei o ursinho, dormia com ele todas as noites.
No mais, tudo deu certo de acordo com os planos. No final do ano me formei e depois fui mandada para exercer a docência em Pirajuí. Levei o ursinho, claro (risos) e fiquei de olho nos concursos. Três anos depois estávamos em Campinas, meu ursinho e eu; mais dois anos, viemos para São Paulo. Só então passei a usar o anel. E tudo isso sem que a família pudesse se queixar de nada, afinal eu estava apenas exercendo a minha profissão. (risos) 

Aqui em São Paulo aproveitei para fazer curso de secretariado e largar a vida de professora. O resto é história. Fim.
(Ao dizer a última frase ela gesticulou de uma forma que a aliança reluziu em seu dedo. Nunca aquela joia me pareceu tão linda e tão preciosa.)

Um ano depois deixei aquele emprego para estudar, porque tinha passado no vestibular e o curso era em período integral. Senti bastante ao me despedir da Zenaide. Ela me entregou um embrulho caprichado e disse para só abrir em casa.
Era o ursinho cor-de-rosa! Bonito e bem conservado. Tinha uma fita de seda no pescoço onde estava preso um anel. Este solitariozinho aqui, coisa mais linda e delicada! Nunca mais tirei do dedo.
Zenaide e eu continuamos amigas para sempre. Por ser tão querida, nunca lhe contei sobre uma descoberta que fiz uns dois anos depois de ter recebido o ursinho.
A costura da barriguinha se soltou, então tentei consertar. Tirei toda a linha velha para colocar uma nova, e foi aí que enxerguei um maço de dinheiro bem enrolado, escondido lá dentro. Em moeda antiga que já não se usava há décadas.
Concluí que dona Eneida não era tão boa e compreensiva como supunha a minha amiga. A caftina não a tinha perdoado depois de ouvir a resposta de que receber dinheiro a mais seria prostituição.
Ou talvez eu esteja enganada, a intenção pode ter sido apenas ajudar. De uma forma canhestra, é verdade, mas sem maldade. Nunca saberemos.
De qualquer maneira, foi bom a Zenaide ter escolhido o focinho e não a barriguinha para esconder a aliança.
Quando ela faleceu, jovem ainda, foi para mim que deixou a sua preciosidade.
Esta é a origem destes dois anéis que sempre uso. História comprida, hein? Mas a culpa foi sua! Quando lhe dei a versão curta: “foi uma amiga quem me presenteou”, você quis ouvir a versão comprida. Pois aí está.


Imagem: http://www.diamondsbylauren.com

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Um cafezinho ao entardecer

Ele conviveu, durante muitos anos, com um tipo de câncer raro, insidioso, de evolução lenta.
Lutou sim, mas era uma luta perdida desde o começo já que não havia cura.
Um dia ele disse:
— Quando eu passar para o outro lado, a primeira coisa que vou fazer é dar uma grande bronca. Depois vou pedir um cafezinho e ligar a televisão.
Longos e penosos meses depois, ele se foi.
Espero que a bronca tenha sido realmente grande, e que o pessoal lá de cima tenha ouvido com humildade e compreensão, reconhecendo que dessa vez pegaram pesado mesmo.
E que a sala de TV seja muito confortável, com sofás macios e temperatura agradável.
Que o aparelho de televisão tenha imagem e som maravilhosos.
E que o cafezinho servido lá venha sempre quentinho, com bastante chantilly. E com um biscoitinho de chocolate no pires.
(A florzinha, fui eu que coloquei.)

sábado, 4 de abril de 2015

Em negrito

"Se no fundo ignorado do existir 
Há mais alma que a que pode vir 
À tona vã de nós, como à do mar 
Fazei-me livre, enfim, de o ignorar." 
(F. Pessoa)
(Ou livre, enfim, de o expressar.)


O vidente vestia um jaleco branco, como um médico.
Sentou-se à minha frente e segurou as minhas mãos. Fechou os olhos, abriu depois de alguns segundos, e me encarou.
— Você está com trinta e seis anos.
(Verdade. Como ele adivinhou? Interessante.)
— Vejo que você é uma pessoa batalhadora.
(Concordo. Mas não é assim que todos se consideram?)
— Você se preocupa com a sua mãezinha.
(Acertou, me preocupo mesmo. Mas que história é essa de “mãezinha”?)
— Você não tem se sentido bem ultimamente, não é?
(Correto. É só olhar a minha cara pra descobrir isso.)
— Também está tendo problema em perder peso.
(Oras, e quem não está?)
— Sua mãezinha também não está bem.
(Se estivesse eu não teria motivo para preocupações, não é?)
— Você dorme mal e sente dores musculares, certo?
(Dá pra ver pela minha cara que eu durmo mal. Por isso é que tenho dores musculares, é assim que funciona.)
— A sua mãezinha está ainda pior.
(Ela tem quarenta anos a mais do que eu, como não estaria pior?)
— Já entendi o que está acontecendo. Foi um trabalho que fizeram contra a sua mãe, e você também está pegando o efeito.
(Aposto que ele vai dizer que o motivo é inveja.)
— São coisas de outras vidas. Uma pessoa que ela prejudicou muito numa vida passada. Agora as duas reencarnaram na mesma época e essa pessoa quer se vingar.
(Perdi a aposta. Tá bom, não é inveja, são vidas passadas...)
— Pra dizer a verdade, a sua mãezinha já devia ter morrido.
(E por que não morreu?)
— O que tem salvado ela é que você é uma pessoa de muita fé.
(Sou mesmo, não posso negar. Tenho muita fé em Deus.)
— É a sua fé que tem defendido a sua mãezinha do pior.
(Folgo em saber.)
— E o motivo é só um: o grande amor que você tem por ela.
Nessa hora puxei as minhas mãos e disse para o vidente que não estava me sentindo bem, que voltava no outro dia. Ele ficou um pouco surpreso mas não tentou me reter.
Para a minha colega, na sala de espera, falei que estava com uma tonteira esquisita e achava melhor ir pra casa. Ela respondeu que às vezes acontecia isso; o motivo era a energia forte do local.
A verdade é que eu não queria ficar perdendo tempo com um charlatão. Apesar de ele ter acertado em algumas coisas mais ou menos óbvias, errou justamente no que deveria ter percebido desde o início. Mesmo com toda a força do sentimento que carrego à flor da pele, saindo pelos poros, ele não percebeu.
Que papo idiota foi aquele do “grande amor que você tem por ela”?
Ele não percebeu então que eu odeio a minha mãe?