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quinta-feira, 19 de março de 2015

A macarronada da dona Rosa

— Dona Rosa, vem cá. Me conte alguma coisa da sua vida, que eu quero escrever uma história pro meu blog.
— Uma história como? Comprida ou curta?
— De preferência curta, porque não quero gastar muito espaço na página.
— Uma história alegre ou triste?
— Conte uma história alegre porque o mundo já anda bem triste. Chega de tristeza.
— Tá bom. Uma história curta e alegre... Não precisa ser muito complicada, né?
— Não, quanto mais simples melhor. Vamos deixar de lado as complicações e as tristezas.
— Olha, o que eu me lembro agora, neste instante, é uma coisa que aconteceu quando eu era moça solteira, lá na casa do meu pai e da minha mãe. Se você quiser eu penso mais um pouco pra me lembrar de outras.
— Não precisa, dona Rosa, vai essa mesma.
— Então tá. Foi assim. Um dia o meu pai resolveu trocar o piso lá de casa, porque era um assoalho de madeira que já tava muito velho, cheio de cupim. Então ele chamou um pessoal que ele conhecia pra fazer o serviço. A minha mãe era meio louca, não gostava de gente estranha em casa, então ela falou que ia se trancar no quartinho do quintal e só ia sair quando os homens tivessem ido embora. Eu falei: “Mãe, o serviço vai levar o dia inteiro, como a senhora vai fazer pra se alimentar? Posso levar comida pra senhora?” Ela respondeu que não, que ia levar umas bolachas, uma garrafinha de chá, e não precisava de mais nada. Eu até acreditei, porque tinha dia que ela passava mesmo a bolacha e chá. Mas como ia fazer pra ir no banheiro? Ela disse: “Pode deixar que eu levo o penico comigo.”
— Cruz credo, dona Rosa! Trancada num quartinho, com chá, bolacha e penico?
— Eu falei que a minha mãe era meio louca, menina. Ela fazia coisas assim. Nem estranhei. Daí ela disse que já tinha comida feita pro almoço, era só pegar na geladeira. “Tem suficiente pra você e pro seu pai. Eu vou passar o dia com as bolachas, e de noite faço comida nova.” Concordei, né? Fazer o quê? Os trabalhadores chegaram às oito horas da manhã. Eram três. Eles falaram que até as seis da tarde o serviço ficava pronto, porque já tinham experiência e não perdiam tempo. E assim foi, eles trabalhavam bem depressa, não paravam pra nada. Quando chegou a hora do almoço eu perguntei: “Vocês trouxeram marmita ou vão sair pra comer?” Responderam que não iam fazer intervalo pro almoço porque não queriam perder tempo. “Mas vocês vão passar o dia trabalhando, sem parar nem pra comer?” Responderam que sim, que estavam acostumados. Mas eu não me conformei. Fui olhar na geladeira e vi que a comida era pouca, não dava pra cinco pessoas. Olhei pra cá, olhei pra lá, e pensei: “Não dá tempo de fazer comida complicada pra toda essa gente, vai demorar muito. Tenho que fazer alguma coisa rápida.” Então fui lá, peguei uns pacotes de macarrão e resolvi fazer macarronada. Mas macarronada sozinha era muita pobreza, eu precisava inventar alguma mistura. Resolvi caprichar no molho, porque assim ficava uma coisa gostosa e com sustância. Foi o que fiz. Refoguei cebola e alho no azeite, coloquei bastante tomate, bastante tempero, uns legumes e umas ervas. Despejei tudo numa panelona e chamei o pessoal. Eles ficaram meio sem jeito, mas eu disse: “Não vão me fazer essa desfeita, né? É só uma macarronada. Não demora nada pra comer. Depois o serviço vai render mais.” Então eles aceitaram e veio um de cada vez pra não interromper a labuta. Ainda coloquei na mesa o pouco de arroz, feijão e mistura que a minha mãe tinha deixado na geladeira, mas eles nem pegaram. Gostaram mesmo foi da macarronada. Eu vi muito bem que todos comeram com gosto, inclusive o meu pai, que era meio enjoado. Eu fui ficando pra trás, porque precisava prestar atenção se a comida estava suficiente pra todo mundo. Se não estivesse ia correr pra fritar um ovo ou qualquer coisa. Mas deu tudo certo, todo mundo comeu até se fartar, agradeceu, e no final ainda sobrou pra mim. Olha, vou te dizer, estava gostoso mesmo. Fui lavar a louça muito contente, e enquanto lavava fiquei pensando: “Que maravilha! Como é bom fazer comida e as pessoas aproveitarem tão bem.” Quando chegou as seis da tarde o serviço estava feito, a casa inteira de assoalho novo, tudo muito bonito. Foi um dia feliz na minha vida porque eu senti que tinha feito uma coisa boa, e descobri como adoro cuidar das pessoas. Pronto, menina, a história acabou.
— E a sua mãe, dona Rosa? Não houve nenhum problema com ela?
— Não. Ela saiu do quartinho, falou que nem tinha precisado usar o penico, e ainda aproveitou pra botar defeito no assoalho novo. Mas ela punha defeito em tudo, então a gente nem se admirou...
E dona Rosa deu uma risada feliz.


Imagem:http://www.tudogostoso.com.br

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