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"OS MENINOS DA RUA BETO"

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Jardim de Delícias

Quando adoeceu o pároco da única igreja daquela cidadezinha, o médico escreveu uma carta à irmã do enfermo pedindo-lhe que viesse ajudar. 

Dona Amora era viúva, costureira, e tinha uma filha de quinze anos chamada Edelvais. Ao receber o pedido, refletiu e chegou à conclusão de que tanto fazia costurar aqui como acolá. Perderia algumas freguesas mas logo conquistaria outras, que para isso era competente. Além do mais, morando com o irmão ficaria livre do aluguel. Resolveu mudar-se definitivamente.

Edelvais gostou da ideia porque ali onde vivia não tinha amigas e muito menos namorado. Quem sabe o que a aguardava na nova casa? Seu jovem coração encheu-se de esperanças.

No dia da chegada o médico enviou seu empregado à estação de trem para recebê-las e conduzi-las à casa paroquial. O rapaz voltou cheio de histórias pra contar. Dona Amora não parecia uma costureirinha simplória não. Era uma mulher muito elegante. Usava um grande chapéu azul de cetim com copa alta e abas arredondadas, arrematado por um laço de renda. Sua filha usava chapéu também, que era igual ao da mãe mas um pouco menor e cor-de-rosa.

Os dias se passaram sem novidades, a não ser pelos comentários das poucas pessoas que visitavam o pároco. Diziam que sua irmã e sobrinha os recebiam sempre de chapéu, o que era de se estranhar já que dentro de casa não havia razão para tanta formalidade. Os chapéus de Amora eram azuis ou verdes, em várias tonalidades; os de Edelvais tinham cores mais alegres como rosa, alaranjado e amarelo.

Certa altura alguém perguntou o motivo de a menina não ir à escola como todas as outras de sua idade. O assunto passou a ser discutido na casa paroquial. Seria uma grande novidade para a jovem, que havia aprendido com sua mãe a ler, escrever e fazer contas. Junto com a alfabetização e a aritmética vieram também os ensinamentos de tricô, crochê e costura. De que mais precisava uma mulher para viver com dignidade?

Na opinião do pároco seria conveniente matricular Edelvais, afinal elas desejavam integrar-se à vida da cidadezinha. Amora pretendia retomar seu ofício de costureira, e nada melhor do que fazer amizade com algumas senhoras. A escola seria a porta de entrada para uma vida social.

Deveras emocionante para Edelvais o primeiro dia de aula.

Vestiu-se com capricho e colocou seu  chapéu predileto. Caderninho em branco, lápis bem apontado, lá foi ela em companhia do tio, que embora caminhasse devagar já estava quase recuperado.

Foi apresentada à professora, que chamou de lado o pároco e lhe perguntou se estava ciente de que a classe era mista. Cidade pequena, muita dificuldade em arranjar professores, resultou que apenas ela era responsável pelos estudantes daquela idade. Então a classe misturava meninas com meninos. Se ele não tivesse objeção, ficaria tudo certo, caso contrário...

Não querendo criar caso, o pároco respondeu que confiava no recato da sobrinha e não via problema no convívio com jovens do outro sexo. Tudo acertado, Edelvais foi conduzida à sala de aula.

Muita curiosidade e falatório dos alunos ao verem a aluna nova com seu grande chapéu amarelo-ouro. Sentando-se no lugar indicado, logo começou a receber queixas dos colegas de trás, que não conseguiam enxergar a lousa. Será que não podia tirar o chapelão quando estivesse na classe?

Edelvais não precisou ouvir duas vezes e foi logo descobrindo a cabeça. Um brado de assombro se fez ouvir por toda a sala.

O que era aquilo? Uma cabeça ou um jardim? Mal se viam os cachos escuros da menina tamanha a profusão de folhas, flores e gavinhas brotando por todo o lado.

O que mais causava espanto era que, evidentemente, as plantas não haviam sido colocadas entre os cabelos, mas sim brotado ali mesmo em sua cabeça.

Os estudantes mais próximos se afastaram, num estranhamento que se mesclava ao medo e à repugnância. Outros, pelo contrário, quiseram ver de perto.

Atenuado o susto, ficaram sabendo que as plantas haviam mesmo crescido ali, as sementes tendo germinado entre os fios. Edelvais não lavava a cabeça nunca, porém não sofria com coceiras ou mau cheiro. Aparentemente as pequenas raízes sugavam qualquer sujidade e toda a umidade excessiva. Bastava molhar uma vez por dia e ficar no sol umas duas horas. Para dormir, um travesseiro estreito, duro e alto onde apoiava a nuca sem pressionar o jardinzinho.

Resultava que as plantinhas delicadas, com suas folhas pequeninas e florinhas em diversas cores, enfeitavam o rosto bonito de Edelvais como a uma fada da primavera. Lindo de se ver, mas estranho, aproximando-se do bizarro.

Nesse mesmo dia a menina foi para casa com uma carta solicitando o comparecimento da mãe.

Dona Amora não esperou pela manhã seguinte: foi à escola assim que leu o papel. A diretora, enquanto expunha a perplexidade geral em relação à nova aluna, não conseguia tirar os olhos do grande chapéu verde-água que oscilava com suavidade à sua frente. Percebendo a insistência do olhar, dona Amora tirou o chapéu. Devagar, com cuidado, foi revelando a vegetação que carregava entre os cabelos: uma pequena horta de morangos silvestres com vários frutinhos amadurecendo.

O médico teve de ser consultado. Após examinar as cabeças das mulheres concluiu que a situação, embora inusitada, não oferecia perigo para a saúde. Em ambas, a higiene capilar apresentava-se um tanto comprometida, mas o couro cabeludo mantinha-se preservado e os bulbos capilares continuavam saudáveis.

Embora contrariada, a diretora teve de permitir a presença da menina, com cabeça florida e tudo, na sala de aula.

A murmuração logo ganhou as ruas, praças e armazéns, que embora fosse pequena a cidade tinha lá suas ruas, praças e armazéns; e principalmente uma profusão de línguas .

Dona Amora não via mais motivos para ocultar sua hortinha de morangos, então aboliu o uso do chapéu tal qual a filha já tinha feito. Começou a receber muitas visitas, a pretexto das encomendas de costura.

O pároco já recuperado, o trabalho de Amora frutificava e a menina Edelvais florescia.

Meses depois, feliz por ter conquistado algumas amizades, um primeiro amor surgiu para a garota. Era um mocinho de sua classe, daqueles que no primeiro dia de aula haviam chegado bem perto para examinar o jardinzinho. Chamava-se Ascânio.

Dizia ele que os cabelos de Edelvais de longe tinham cheiro de flor, e de perto cheiro de terra molhada. As pessoas se perguntavam a que cabelos ele se referia, já que estavam quase totalmente cobertos pela folhagem miúda salpicada de florinhas minúsculas. E de gavinhas que se enrolavam e desenrolavam de acordo com a hora do dia. Chegava a ser sinistro.

Fosse como fosse, os jovens estavam enamorados. Naquele tempo tudo acontecia com mais vagar, por isso o primeiro beijo tardou a acontecer. Já haviam decorrido algumas semanas de namoro quando, encontrando-se ambos em lugar discreto, Ascânio fez menção de beijá-la.

Edelvais sorriu antecipando o paraíso e indicou com um gesto que ele tivesse cuidado com as suas flores. Aproximaram-se mais e ele, delicadamente, segurou-lhe rosto com as duas mãos. O beijo começou suavemente, as folhinhas sequer vibraram. Após alguns segundos nenhum dos dois se lembrava de folhas, ou flores, nem de nada ao redor. O beijo aprofundou-se, as mãos de Ascânio afundaram-se entre as ramas dos cabelos de Edelvais, e poderia ter sido o beijo mais longo deste mundo não houvesse alguma coisa misteriosa serpenteado sorrateiramente para dentro do ouvido do rapaz.

Ele afastou-se instantaneamente, arregalou os olhos, deu um grito terrível e caiu desmaiado.

Acudiram rapidamente. O médico localizou uma minhoca muito esguia dentro do canal auricular de Ascânio. Retirou-a cuidadosamente com uma pinça enquanto o menino permanecia desacordado. Recuperando-se logo depois, ele olhou para o jardim parcialmente destruído na cabeça da namorada e pôs-se a chorar de nervoso.

Edelvais, atarantada com o pensamento de que abrigara um verme nojento em sua cabeça, o qual estivera próximo de matar seu gentil conversado, decidiu que tudo precisava mudar.  

Já em casa arrancou as plantinhas, lavou a cabeça repetidas vezes com sabonete perfumado e pediu à mãe que cortasse os seus cabelos bem curtinhos. Assistindo à desoladora destruição daquela obra de arte vegetal, Amora, em sinal de solidariedade à filha, imitou-lhe o gesto e despojou-se da sua plantação de morangos.

O pároco alegrou-se diante da mudança. Nunca se sentira à vontade tendo à vista aqueles adereços que remetiam vagamente a antigos e desarrazoados costumes pagãos.

No dia seguinte Edelvais apareceu na escola sem nenhum elemento botânico na cabeça. Lá vicejavam agora apenas as raízes de seus cabelos escuros.

Ascânio, ainda abalado, olhou com surpresa e não escondeu certa decepção. Achou que ela não estava tão bonita quanto antes. Em vez de reconhecer e valorizar o sacrifício da menina, perdeu totalmente o interesse por ela. 

(E jamais, jamais em sua vida contou a alguém que aquele grito desesperado não tinha sido de dor ou de pânico, mas sim de um agudo, indescritível, excruciante surto de prazer...)


Imagem: https://d2gg9evh47fn9z.cloudfront.net

sábado, 12 de dezembro de 2015

Era esperada uma flor, mas...

Naquela tarde abafada
daquele distante verão
nasceu uma cebola.

Cada cebola tem os seus atributos;
nada sei das outras cebolas,
mas esta é assim:

A camada externa parece ser doce
mas não é
(o sabor é azedo com notas picantes, e retrogosto amargo sobre um leve toque de mel).
Simula ser transparente
mas não é
(embora deixe toda a luz entrar, pouca luz deixa sair).

A seguir, uma camada feita de olhos.
Olhos por todos os lados.
Olhos que nunca piscam,
que tudo olham e nunca se cansam de olhar.

Abaixo dessa, vem a camada das perguntas.
Breves e demoradas,
fúteis e profundas,
algumas já obtiveram resposta;
a maioria permanecerá eternamente irrespondida.

A próxima é a camada das perplexidades.
Essa é a camada mais grossa,
repleta de perplexidades ásperas e suaves 
(com alguns maravilhamentos de permeio).

Depois vem o núcleo da cebola:
um caroço aproximadamente esférico
que pode ser macio e pode ser duro
(alternadamente ou ao mesmo tempo),
que pode ser escuro e pode ser luminoso
(alternadamente ou ao mesmo tempo),
que pode ser quente e pode ser frio
(alternadamente ou ao mesmo tempo),
e todas as combinações imagináveis das possibilidades acima.

Por fim, no centro desse caroço,
lá onde ninguém jamais terá acesso,
existe uma coisa
que não se sabe o que é, nem o que foi, e nem o que virá a ser
(se é que virá a ser...

(clique na imagem)

domingo, 1 de novembro de 2015

Comendo bombons

     Nada melhor do que um bombom delicioso, comido bem devagarinho, para nos ajudar a olhar de frente a vida, reavaliar as nossas escolhas, tomar decisões... Este aqui é recheado com creme de avelã e tem uma avelã inteirinha no meio. Hmmm... delícia...
     Renato, Renato... Como você é vacilão. E como eu sou trouxa. Bem feito pra mim. Larga de ser trouxa, Gabi. Ficando velha e sempre fazendo papel de trouxa. Toma vergonha, mulher.
     Meus amigos me diziam: “Gabi, você é tão exigente que daqui a pouco vai estar pedindo currículo pros caras.”
     Eles tinham razão, eu era assim mesmo. Depois de umas experiências desastrosas, me tornei exigente sem perceber. Mas escutei os amigos e revi minhas atitudes.
     Daí conheci o Renato. Uma figura interessante. Foi logo dizendo que era ator. Se queria me impressionar, não conseguiu. Ator, poeta, artista plástico... Cada um coloca em si a etiqueta que lhe convém. Quanto à qualidade de sua arte, é caso a se conferir.
     À medida que a conversa continuava, fui me deixando envolver. Ele era ator, porém havia se formado em administração. No entanto trabalhava como vendedor em uma loja do shopping. Hein? Como assim?
     Seguinte. Seu sonho era atuar, mas por ser uma carreira cheia de altos e baixos foi cursar administração. Enquanto estudava arranjou emprego como vendedor e aos sábados e domingos animava festinhas vestido como “palhacinho Beleléu”.
     ”Nossa, Renato! Você não descansava nunca?”
     Não, ele não descansava, nem podia. Precisava de dinheiro para pagar a pensão do filho.
     ”Filho? Você já tem filho?”
     Tinha, de seis anos. Engravidou a namoradinha adolescente quando estava no último ano do colégio.
     Que figura, pensei eu. Tão jovem e já com tanta responsabilidade nas costas. Uma pessoa no mínimo intrigante. Vale a pena conhecer melhor.
     Nessa altura eu já tinha deixado de lado as exigências. Um cara que não passou no vestibular das universidades públicas e cursou administração numa dessas faculdades caça-níqueis, ajudado pelos pais e pela irmã mais velha. Que estava formado havia três anos e ainda tinha o mesmo emprego dos tempos de estudante. Que desejava ser ator mas por falta de dinheiro não fazia curso na área, só participava de um grupo de teatro mundialmente desconhecido. Que precisava pagar pensão ao filho, e para isso continuava dependendo dos pais e da irmã mais velha.
     ”Isso é gente de verdade, Gabi. Não é excepcional em nada, não é nem projeto de príncipe encantado. É só um cara que fez besteira, que ainda não se encontrou, mas que não fica parado. Ele insiste. Todo atrapalhado, mas insiste. Um dia pega o rumo certo.”
     Então tá. Vamos ver no que vai dar, pensei. Confesso que a minha boa vontade tinha algo a ver com a bela aparência do Renato. Bem bonito, o danado.
     Isso aconteceu está fazendo oito meses. E, cinco minutos atrás, recebi uma mensagem de texto dele. Levei uns trinta segundos para ler e apreender o significado. Então, há exatos quatro minutos e meio, ele deixou oficialmente de ser meu namorado. Nem sei se vou me dar ao trabalho de responder ou se vou deixar o babaca no vácuo. Depois resolvo. No momento só quero acabar de comer este bombom.
     Acabei. Vou pegar outro. Este é de nozes, com creme de café e conhaque. Combinação maravilhosa. Casquinha crocante. Que tudo!
     Retomando o fio dos pensamentos. Essa mensagem foi simplesmente a última gota d’água num copo que começou a se encher logo depois de nos conhecermos. E olha que eu usei um desses copos bem altos, onde cabe meio litro de chope.
     Foi no dia em que ele me perguntou sobre a minha família. Falei que o meu pai estava em tratamento de radioterapia contra um câncer de próstata. O que me respondeu a criatura? “Radioterapia é fogo, né?” Quatro anos de curso superior e só tinha isso no repertório. Nunca mais tocou no assunto, nem pra perguntar se o meu pai ainda vivia ou se já tinha morrido.
     Tempos depois me convidou para assistir a uma peça do grupo de teatro desimportante. Eles se apresentam no salão dos fundos da igreja. Gente fina, o pastor: deixa o grupo usar aquele espaço gratuitamente a fim de que os jovens da congregação tenham contato com a arte. Renato me recomendou chegar uma hora antes do início para que eu pudesse ver o ensaio final. Era só falar com o zelador Luizinho, que sempre fica lá tomando conta da entrada.
     Fim de uma tarde bastante fria. Cheguei no horário marcado e vi na porta um homem magro, baixinho, conversando ao celular. Não querendo incomodá-lo, fiz um gesto indicando que ia entrar. Ele me olhou e, sem afastar do ouvido o aparelho, falou bem alto, abanando a outra mão: “Espera aí, espera aí! Não pode entrar!” Imediatamente me deu as costas e foi para dentro, retomando a conversa interrompida.
     Esperei durante meia hora e nada de voltar o homem. Começou a se formar uma pequena fila em frente à janela ao lado. Suspeitei que fosse ali a “bilheteria”. Mais uns quinze minutos e a janela se abriu. Lá estava o Luizinho, para vender as entradas.
     Sem outra opção, fui para o fim da fila e comprei a minha. Ele me tratou friamente, como se não soubesse do tempo que eu tinha ficado de bobeira ali fora naquele frio. Nessa altura de que adiantava dizer que eu era a namorada do Renato e tinha vindo para assistir ao ensaio final?
     A peça. Jesusmariajosé. É verdade que eu não gosto muito de teatro, admito. Mas o que era aquilo? Meia dúzia de jovens adultos falando alto, vestidos de forma bizarra, as caras pintadas de um jeito que não percebi o porquê, movendo-se e gesticulando com exagero. De vez em quando a música aumentava extraordinariamente e todos os atores paravam como se estivessem congelados. A luz ia baixando e ficava tudo escuro, só aquele barulho ensurdecedor. Repentinamente a música cessava, as luzes se acendiam sobre o palco, e a representação recomeçava.
     Suportei aquilo o melhor que pude. Procurei não pensar no meu pai, que estava lá em casa encarando resignadamente os efeitos colaterais da radioterapia. Eu queria estar lá e não aqui, diante desses palhacinhos beleléus do caramba. No final, uma chuva de confetes caiu sobre a plateia de umas trinta pessoas, e estava encerrado o espetáculo. Que maneira patética de passar uma noite de sábado, pensei.
     Finalmente pude conversar com o Renato. “Por que você não chegou antes, Gabi? Perdeu o ensaio. Foi muito interessante, você ia gostar. Mudamos um monte de coisas na última hora. Você podia até ter dado umas sugestões, porque a criação é coletiva.”
     Ah, criação coletiva. Isso explicava muitas coisas, principalmente a total falta de sentido. Quanto a chegar atrasada, pra que eu ia reclamar do zelador imbecil que não me deixou entrar? Em vez disso, elogiei o trabalho. Vai ser falsa desse jeito lá em Teerã, dona Gabi. Mas na hora me pareceu que mentir para o bem era melhor do que ser sincera para o mal.
     Na saída cruzamos com o Luizinho. Sem saber de nada, o Renato todo sorridente disse pra ele: “E aí, conheceu a minha namorada, hein?” Virou-se para mim e continuou: “Olha, Gabi, este cara é mais do que amigo, é como um irmão para mim. Nos conhecemos desde a infância.”
     Pela maneira com que o zelador me olhou tive a impressão de que nesse momento ele se conscientizou da mancada. Mas ficou quieto. Estiquei a mão para cumprimentá-lo e fiz de conta. Ficou por isso mesmo.
     Pronto, acabou-se mais este bombom. Qual vou pegar agora? Deixe ver... Chocolate branco recheado com coco, creme de baunilha e licor de laranja. Será que é bom? Vamos ver.
     Voltando. Certo dia perguntei ao Renato sobre o seu filho. Ele contou que a ex-namorada havia se casado. O padrasto do menino se comportava como um verdadeiro pai. Uma família bem estruturada, o que deixava Renato tranquilo. Mas ele nunca desperdiçava os dias de visita porque adorava estar com o garoto.
     Quando me mostrou a foto, fiquei sem palavras. O menino era lindo, um principezinho. O detalhe é que tinha Síndrome de Down. Isso mudava tudo, no meu entender, porque durante toda a vida ele ia precisar de assistência direta. Será que o Renato estava consciente desse fato? A mim parecia que não.
     ”Renato, você precisa fazer um seguro de vida para garantir o futuro do seu filho. Já pensou nisso?”
     ”Credo, Gabi, você fala cada coisa! Sou muito novo pra pensar em seguro de vida. Além disso preciso de um emprego melhor. Com esse de agora não consigo nem pagar a pensão. Se não fosse a minha família já tinha sido preso há muito tempo.”
     Uma dificuldade tentar conversar com o Renato de adulto para adulto. Ele dizia não ter ideia do motivo que o impedia de obter uma nova colocação. Enviava currículos mas eram poucas as chamadas para entrevista. Nunca dava certo. Mesmo quando pensava ter ido bem, ficava aguardando inutilmente o retorno. Não entendia o porquê. (A culpa não seria do diploma sem valor da faculdade caça-níqueis? Ou da personalidade imatura? Ou da cultura medíocre? Ou tudo isso junto?)
     Nessas horas eu me perguntava a razão de continuar com ele. Adotava a desculpa de estar exercitando a tolerância, de que ser exigente não levava a nada, de que a vida real era assim mesmo, e outras bobagens. Agora percebo que o verdadeiro motivo era ele ser bom de cama.
     Bem feito, Gabi. Quem mandou ser depravada? Por causa disso ficou suportando o bobalhão durante oito meses, perdendo tempo, se desgastando, se decepcionando. Tudo em troca do trato que ele te proporcionava de vez em quando. Shame on you, bitch!
     Aí veio A Grande Crise. Duas coisas bem ruins ao mesmo tempo. Em ordem cronológica: minha mãe ficou doente e a casa de repouso onde trabalho começou a demitir.
     Começando pela última: a prefeitura não renovou o convênio. A mensalidade paga pelas famílias não é suficiente. Dependíamos do dinheiro da prefeitura. Então começaram os cortes de despesas e de funcionários. Passei por uma fase heavy metal, com receio de demissão. Escapei por ser a única assistente social da casa, mas se resolverem me substituir por outra com um salário menor...  Melhor não pensar nisso agora e colaborar ao máximo para evitar o fechamento.
     A outra coisa ruim: na mamografia de rotina da minha mãe apareceu um nódulo. Ficamos assustados porque a minha avó morreu disso. E, como diria o Renato, genética é fogo.
     Esse bombom acabou logo. Acho que é a ansiedade, estou mastigando muito depressa. Calma, dona Gabi. Isto é uma reflexão sobre a vida, não uma apresentação para investidores. Qual outro tem aqui? Maracujá e musse de leite condensado no chocolate meio amargo. Docinho com azedinho e um pouco de amarguinho; deve ser bom.
     Voltando à casa de repouso, começamos a pedir donativos. Nunca fizemos tal coisa, mas agora precisamos. Perguntei ao Renato se a igreja dele não poderia contribuir, afinal o pastor é um cara legal. Fomos lá, conversamos, e ele se dispôs a ajudar. Bendito seja.
     A ideia era arrecadar produtos de higiene e limpeza. Sabonete, shampoo, detergente, desinfetante, alvejante, essas coisas. Fraldas geriátricas, lenços umedecidos e papel higiênico também. Ficou acertado que ele faria o pedido nos cultos dos dias seguintes. Saí de lá agradecida e animada.
     Enquanto isso, ficou pronto o resultado da biópsia da minha mãe. Positivo, como já suspeitávamos. Começando o tratamento em 3, 2, 1, já! Sem tempo a perder. Apesar da confiança de que tudo vai dar certo, fica aquela inquietação no peito. Parece que a vida está suspensa e só voltará ao normal depois que o perigo for superado.
     Boba eu, esperando apoio do Renato. Fiz até a besteira de chorar no ombro dele, contando a barra que é ter dois casos de câncer na família ao mesmo tempo. Pai e mãe.
     Ele me abraçou? Ele me consolou? Não. Ficou parado, ouvindo. Parecia um poste. Só fez a concessão de liberar o ombro para eu encostar a cabeça. Depois de tudo, a frase padrão: “É fogo... é fogo mesmo.”
     Agora percebo que a partir daí ele foi se tornando arredio. Claro, óbvio: ele já tem os seus problemas, pra que vai querer participar dos dramas de outra pessoa? Uma namorada com doença grave em dose dupla na família. Vale a pena? Se você ama a pessoa, vale. Caso contrário...
     A arrecadação de donativos encerrou-se. Ontem de manhã o pastor ligou dizendo que o zelador estava levando as caixas de donativos. Uma notícia boa no meio do vendaval. Dei graças aos céus, fiquei esperando ansiosa. E lá vem o Luizinho, tirando da perua e trazendo para dentro cinco caixas grandes de papelão, repletas de materiais. Que maravilha. As pessoas são tão generosas! Ainda existe esperança para a humanidade. Agradeci bastante a gentileza do sujeito, tentando esquecer a antipatia que senti no dia do teatro.
     Ele perguntou para onde deveria levar as caixas espalhadas pela recepção. Falei para não se incomodar, porque eu ainda tinha que fazer o levantamento antes de encaminhá-las ao nosso almoxarifado. “Levantamento? Para quê?” perguntou ele demonstrando uma surpresa descabida. Respondi: “Tudo o que nós recebemos tem que ser registrado. Além disso preciso fazer o recibo. Mas não se preocupe, não há necessidade de ficar esperando, porque vai demorar. Depois eu levo o recibo lá na igreja. Quero agradecer pessoalmente.”
     Ele ficou lá parado, com cara de besta . “Será que está esperando gorjeta?” pensei. “Não, não deve ser isso. Se eu oferecer é capaz de ficar ofendido.”
     ”Seu Luizinho, o senhor não quer tomar um café antes de ir? Foi feito agorinha, está muito bom.”
     Não quis café. Foi embora ressabiado. Na hora não entendi, mas não estava com tempo para pensar em futilidade. Comecei a esvaziar as caixas, classificando e contando item por item. Quando terminei, pouco antes do almoço, veio nova ligação do pastor. Queria saber se eu tinha recebido direitinho os donativos, se estava tudo em ordem.
     “Claro que sim, muito obrigada. Vou lhe levar o recibo e agradecer pessoalmente, faço questão”.
     “Não se preocupe, foi um grande prazer. Nós fizemos a contagem das doações e ficamos contentes com o resultado. Na próxima vez o sucesso vai ser ainda maior, com certeza.”
     Muito legal o pastor. No final ele disse que estava enviando por email o levantamento que tinham feito. Desliguei e fui acessar a mensagem. Tendo acabado de fazer a minha própria relação, ao bater o olho logo percebi que os números não coincidiam. A não ser pelas fraldas geriátricas, todos os meus números estavam diferentes. Menores. E agora? Como dizer ao pastor que havia ladrão furtando donativo de sua igreja? Coitado, não merecia tal decepção. E como saber quando e onde se deu o sumiço? E como provar que não tinha sido eu mesma a subtrair os itens para reclamar depois? Muito complicado.
     Fiz as contas e vi que o total das coisas desaparecidas perfazia um valor não muito alto. Saí imediatamente e fui comprar — com o meu dinheiro — o que estava faltando. Assim o meu levantamento ficou igual ao deles, e ninguém jamais saberá do problema. Óbvio que nesse meio tempo não me saiu da cabeça a cara abestalhada do Luizinho. Noventa e nove por cento de certeza de que o ladrão foi ele. Ladrão e burro. Então achou que era só entregar os donativos e pronto, que ninguém iria conferir, contar, fazer relação?
     Se fosse em outro momento da vida a minha reação teria sido outra. Acho que teria denunciado tudo ao pastor. Mas agora, com tanta preocupação na cabeça, eu quis me poupar. Deixei pronto o recibo para levar à igreja no dia seguinte, que é hoje, no culto da noite. Assim posso aproveitar para agradecer a todos de viva voz.
     Acabou-se mais este bombom. Que se dane, vou pegar outro. Paçoquinha com creme de limão, recheado com amendoim. Ô perdição!
     Hoje, logo cedo, recebo essa mensagem de texto do Renato. Covarde miserável, se escondeu atrás do teclado, não teve coragem de ligar e falar diretamente. Disse que o Luizinho contou tudo o que aconteceu no dia da peça. Como eu havia me comportado mal, chegando atrasada e querendo furar a fila alegando que namorava o ator principal, criando caso com as pessoas e até falando palavrões. Que o Luizinho não tinha dito nada antes por consideração, mas agora, depois de eu ter repetido o comportamento na entrega dos donativos, não tinha mais por que se calar. Como é que eu me atrevia a duvidar da honestidade do Luizinho, fazendo questão de examinar as caixas para ver se alguma coisa havia sumido? Isso era imperdoável. Além do fato de tê-lo tratado como um reles subalterno, fazendo-o carregar as caixas para lá e para cá, dando bronca sem parar. Não, depois de tudo isso, era melhor terminarmos. Como poderia ele conviver com uma mulher grosseira que não respeitava as pessoas, e nem quando recebia um favor demonstrava gratidão? Sorte dele ter alguém para avisá-lo, seu querido amigo de infância, senão ia continuar enganado por mais tempo ainda.
     Jesusmariajosé, que decepção! Apesar de saber que o Renato tem um intelecto limitado e um senso de justiça bastante débil, eu não podia supor tamanha covardia.
     Entendo que ele não queira continuar se relacionando com uma pessoa cheia de problemas como eu. Doença grave na família e risco de desemprego, tudo junto ao mesmo tempo. Não existe nenhuma obrigação da parte dele em me dar apoio moral, sofrer junto, perder seu tempo. Nem deve, aliás. O que ele deve fazer com urgência é procurar um emprego melhor, parar de depender da família e assumir sua responsabilidade com o futuro do filho. E esquecer essa mania de querer ser ator. Renato, você é bonito mas não tem talento nenhum, eu ia acabar te falando isso um dia.
     Eu sei que a vida da gente muda, o que é conveniente hoje deixa de ser amanhã. Ele só precisava dizer que não estava mais a fim, pronto. Mas não, tinha que ser babaca até o fim. Se aproveitou das mentiras do amigo ladrão como pretexto. Me julgou, condenou e aplicou a pena sem sequer falar comigo, sem me dar chance de defesa. Depois de todos esses meses de convivência ele tinha a obrigação de saber que não sou capaz de grosseria com ninguém. Mas aceitou a palavra do ladrãozinho como verdade absoluta. Porque te convinha, né covardão?
     Ah, quer saber? Cansei! Vou fingir que você é este último bombom aqui, o de cereja com licor. Vou comer você bem devagarinho. Depois de engolido e digerido, adeus bombom, adeus Renato.
     No final das contas, pensando bem, tudo deu certo para todo mundo. A casa recebeu os donativos; os doadores estão felizes pela boa ação; Luizinho vai ficar impune para usar os produtos do furto e manter o privilégio duvidoso da sua amizade; você se livrou de uma namorada incômoda, e eu me livrei de você.
     E, o que é melhor ainda, estou me vingando. Como? Deixando você continuar amigo de uma pessoa falsa e desonesta que mais dia menos dia vai te aprontar uma boa.
     Eu cá tenho assuntos importantes para resolver. Os idosos carentes que precisam de ajuda, esses merecem a minha atenção. Quanto a você, criatura, pode ir para onde a brisa te levar.
     Adeus, Renato. Cumpra o seu destino: permaneça eternamente esse palhacinho beleléu gauche na vida.
     E que o vento sopre levemente em suas costas.


Imagem: http://i1262.photobucket.com

sábado, 10 de outubro de 2015

Espera

Parado aqui na porta da minha choupana, fitando a imensidão do céu, tenho visto o mundo se transformar. 
Sentei nesta soleira há muito tempo e nunca mais levantei. A não ser uma vez, quando peguei doença e me carregaram para dentro. Mas depois voltei e aqui estou como sempre, espiando a estradinha de terra.
Enquanto isso, o sol nasce, o sol se põe, e tudo vai mudando. 
Os morros eram verdes de tanta árvore. Aí derrubaram tudo. O verde sumiu. Só se via a terra e a poeira que o vento esparramava. 
O tempo passou, a terra verdejou outra vez. Mas não é como antes, só cresceu mato rasteiro. 
O riacho também modificou. A água, de clarinha que era, escureceu.  Agora nem enxergo mais a correnteza, deve ter secado tudo.
Quando os morros eram verdes e as águas eram claras, tinha bastante gente morando por aqui. Disso me recordo bem. 
Então veio aquele dia. Cheguei do eito e estranhei a porta aberta. Tudo escuro lá dentro. Saí procurando ela, mas ela não estava em lugar nenhum. Me disseram que tinha ido embora de manhã cedo, carregando a mala. Enveredou pela estradinha e desapareceu sem falar com ninguém.
Duvidei, fui pra casa e encontrei o guarda-roupa vazio. Era verdade, ela tinha fugido. O motivo, levou junto com ela.  
Vim aqui e sentei na soleira, esperando ela voltar. 
As pessoas chegavam e me diziam pra entrar pra dentro, que estava de noite, fazia frio e eu ia perder a pouca saúde que tinha. Me traziam comida, sentavam do meu lado e me obrigavam a comer pelo menos um pouco. Até cobertor arrumavam pra me cobrir, porque entrar eu não entrava. 
Aí fiquei doente. Eles me pegaram e me puseram na cama.
Esqueci o que aconteceu. Só sei que voltei pra cá e ninguém tornou a falar comigo. Passavam reto na estrada sem virar a cabeça nesta direção. 
Não fiz conta, prefiro estar sozinho. Acostumei. Nunca mais senti frio nem fome nem sede.
Sumiu o arvoredo dos morros, o riacho secou, e todo o povo foi pra longe. 
Só restou eu aqui, sem outra labuta além de olhar o sol nascer e o sol morrer.
Um dia, quando ela apontar na curva logo ali depois da cerca, vai me ver neste mesmo lugar, esperando. 
Vai ficar bem contente, que eu sei. E vai apertar o passo, com vontade de me abraçar.


Imagem: http://portalbigtrails.com.br

sábado, 3 de outubro de 2015

Criança perdida

Manhã bem cedinho. Andando rápido pela Rua Direita.
Rápido rápido quase correndo na direção da Praça do Patriarca.
“Não posso perder o ônibus fretado. Não tenho dinheiro para táxi. Ônibus comum vai me atrasar. Sem chance. Tô na experiência, se atrasar já era.”
Depressa, mais depressa!
E lá ia quase correndo.
Cruzando o Largo da Misericórdia, uma mulher estacou alguns metros à sua frente. Virou-se, atarantada, olhou ao redor e gritou: “Pedro! Pedro!”
Dava pra perceber: era caso de criança perdida.
Não se via nenhuma criança por ali. Onde raios estaria o menino?
A mulher passou a gritar mais alto, em tom mais desesperado: “Pedro! Pedro!”
Mas que droga de mãe era aquela que não segurava a mão do filho ao andar pela Rua Direita?
E agora? Não podia parar, sob pena de perder o ônibus fretado.
Tanta gente na rua, alguém na certa ajudaria.
Apressou-se mais ainda a fim de compensar os segundos perdidos na hesitação.
Os gritos ficaram para trás. 
“Pedro! Pedro!”


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quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Saudade



Imagem: http://forprincessbride.com

Certa noite ela sonhou que a sua amiga ainda vivia. E que estavam juntas naquela casa antiga, já há tanto tempo demolida. 
Conversavam, e riam, e matavam a saudade.
Uma hora ela se voltou para a amiga e perguntou:
“Você está mesmo aqui comigo ou isto é uma só conexão mental?”
A amiga respondeu honestamente, sorrindo, sem hesitar:
“É uma conexão mental.”
Depois disso ela acordou. 
E a sensação da presença da amiga permaneceu com ela o dia todo.



quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Chick-lit da depressão

— Então essa é a grande surpresa que você me prometeu?
— Isso mesmo! E que surpresa, hein?
— Não é possível, não acredito. Nunca em mil anos. Você tá de brincadeira comigo.
— Não estou, amiga. Juro. É ele mesmo.
— Sergei Bolotinha? Aquele feioso baixinho do colégio? Virou esse deus grego? Impossível.
— Feioso é por tua conta. Você é que tinha birra do menino. Ele não era feio não, e baixinho só no primeiro ano, porque no terceiro já estava bem alto.
— Vá lá que seja, mas além de ficar extraordinariamente lindo ele também está rico?
— Além de rico, perfumado. Você tem que chegar bem perto pra sentir. Irresistível.
— Mas como aconteceu isso? Não entendo!
— Não há o que entender. Ele se formou no colegial, fez faculdade, fundou uma empresa e ficou rico. Simples.
— Eu não apostava um tostão furado no futuro daquele moleque. Quem diria?
— É porque você tinha cisma dele. Lembra como ele era bom aluno? Ele e a dupla de irmãos gêmeos, lembra?

Sem tirar os olhos daquela figura deslumbrante, tentei me lembrar.
Sim, o Bolotinha era bom aluno. No primeiro ano do ensino médio quase ninguém se conhecia, mas logo todo mundo já estava enturmado. Menos ele e os irmãos gêmeos, uma menina e um menino recém-chegados de Angola.
O problema era que esses três não se misturavam, pareciam tímidos, não conversavam com ninguém. Daí, quando precisávamos formar grupos para fazer os trabalhos, eles sempre acabavam ficando de fora. Resultado óbvio: formaram um grupo entre eles.
O gozado é que tiravam notas altas, e a gente ficava pensando: se eles não falam, como é que se comunicam para fazer os trabalhos? Transmissão de pensamento, só pode! Ha ha ha ha!!! Devem ser mutantes!
Como éramos bobos... Com toda a nossa “comunicabilidade”, nunca chegávamos nem perto do desempenho daqueles três.
A minha amiga estava certa: eu tinha birra do Bolotinha. O motivo é que ele me olhava demais. Não era só eu que percebia, os meus colegas diziam a mesma coisa. “Olha aquilo, Larissa! O Bolotinha não tira os olhos de você! Vai dar namoro!”
Ah como isso me irritava. Eu era a it girl da classe, a descolada que se vestia diferente, usava maquiagens ousadas e mechas coloridas no cabelo. Ele tinha é que procurar uma menina igual a ele, tipo aquela do seu grupo, que era toda certinha, limpinha, penteadinha, com brinquinho de ouro e correntinha no pescoço.
O nome dela eu lembro, era Luena. A gente gostava de zoar chamando-a de Luana. Todas as vezes ela dizia, com aquele sotaque engraçado meio português, meio africano: “Meu nome é Luena.” Com certeza sabia que era zoação, mas nunca se alterou. Sempre na maior calma e elegância: “Meu nome é Luena.”
Acho que foi por isso que nunca esqueci. Já o irmão, não gravei o nome.
Durante todo o curso o Bolotinha nunca parou de me olhar daquele jeito esquisito, sem falar nada. Uma vez, já no último ano, um colega arrancou da mão dele um papel no qual desenhava. Era eu ali naquele desenho. Perfeita, com as minhas meias arrastão propositalmente furadas, a minissaia amarela, o bolerinho roxo sobre a camiseta branca. Até as botas de couro vermelho ele desenhou com perfeição. A corrente de aço que eu sempre usava, com um pingente enorme, dourado, em forma de tesoura, estava lá. Como ele conseguia desenhar tão bem uma tesoura? E os meus cabelos negros com uma linda mecha azul. Por que eu me lembro de cada detalhe? É que o meu colega deu o desenho pra mim em vez de devolver para ele.
Na hora falei que estava horroroso, que ele tinha me desenhado como uma palhaça, que estava ridículo, que eu ia limpar a sujeira do meu cachorro com aquele papel, etc., etc., mas a verdade é que achei lindo e até preguei na parede do meu quarto.
Claro que o episódio fez a turma me atazanar ainda mais com a brincadeira de que aquilo era paixão e que ia dar namoro, noivado e casamento. Mas não. O ano terminou e a gente se formou sem o Bolotinha jamais ter conversado comigo.
Agora lá estava ele. Alto, forte, muito bem vestido, sorridente. E provavelmente perfumado. Virei para a minha amiga:

— Diz aí, Sarita, como você o descobriu?
— A empresa dele, que fabrica bolsas e sapatos, fez um contrato com a nossa.
— Contrato com uma fábrica de joias? Como assim?
— Eles querem que a gente produza peças como fechos, fivelas, argolas e pequenos adereços em material nobre, ouro quatorze quilates e prata rodinada. Com design exclusivo, obviamente. E pedras brasileiras de qualidade. Estão preparando uma linha premium de alto luxo.
— Minha nossa! Então a empresa dele é desse tipo?
— Nem duvide, amiga. Com um detalhe: a matriz é em Miami. É de lá que ele gerencia tudo.
Eu cada vez mais admirada:
— Como você o reconheceu, Sarita? Se está tão mudado?
— Pelo nome! Quem mais neste mundo poderia se chamar Sergei Bolotin?
— Bolotin? Então daí é que veio o apelido?
— Claro, né amiga? Ele não era gordo, por que motivo iam chamá-lo de Bolotinha? A família dele é russa, daí o sobrenome. Não lembra quando os professores faziam a chamada?
— Eu só prestava atenção até chegar na letra L de Larissa. Se alguma vez ouvi, achei que o professor estava dizendo Bolotinha.
— Que falta de sensibilidade, amiga!
— Agora estou bem mais sensível... uau!
— Estou vendo. Dá pra ver a sua sensibilidade à flor da pele.
— Será que está solteiro?
— Não sei, mas reparei que ele não usa nenhuma aliança.

Pra encurtar a história, Sarita me levou até o Sergei para fazer as apresentações. Fiz questão de dar um beijinho. Era perfumado mesmo! Dior Homme Intense. Reconheci porque o patrão do meu ex-marido usava e dizia que era a melhor fragrância do mundo. E a mais cara também.
Mas aí tive a primeira decepção: ele não se lembrava de mim!

— Não se lembra? Sou a Larissa, aquela que você desenhou, lembra?
— Desenhei? Quando?
Tive que dar vários detalhes até ele se lembrar.
— Ah sim, a Larissa. Você está mudada.
Elogio ou crítica?
— Me formei advogada, agora tenho que me vestir dentro dos padrões.
Nenhuma reação.
Percebendo o desinteresse, Sarita improvisou:
— Então, Sergei, a Larissa estava me dizendo como gostaria de conversar com você sobre os velhos tempos!
Resposta dele:
— Mesmo? Por quê?
Ah, isso só podia ser ressentimento. Ele fingindo toda essa frieza significava que se lembrava de mim e ainda estava magoado pela maneira como eu o tratava. Ótimo! Indiferença não dá pra trabalhar, mas esse tipo de mágoa dá pra trabalhar sim, e transformar em outras coisas. Coisas muito boas.
Tomei a dianteira:
— Como assim, por quê? Para recordar, dar umas risadas, atualizar a conversa. Tanta coisa para contar! Que acha da ideia?
Tenho que confessar: ele hesitou. Depois tirou do bolso uma agenda eletrônica. Sem nenhum entusiasmo me disse:
— Tá bom. Deixe ver como está a minha programação. Quando é que você pode?

Saí de lá com o cérebro em turbilhão. Minha amiga Sarita, gerente de design da empresa que fechou contrato com o Sergei, me fez o maior dos favores ao me convidar para o coquetel de comemoração do negócio.
Eu era uma advogada mequetrefe trabalhando num escritório mequetrefe. Meu único objetivo: passar no concurso para procuradora. Agora que o meu casamento de quatro anos tinha ido pros quiabos, precisava me garantir de algum jeito. Se conseguisse o emprego de procuradora do estado poderia respirar mais aliviada.
Foi quando a Sarita reencontrou o Bolotinha, digo, o Sergei. Ora, o cara estava rico, bonito, aparentemente solteiro, e havia arrastado um bonde por mim lá nos anos do colégio. Situação promissora.
Agora eu tinha um encontro marcado com ele. Tá certo que não se tratava de um encontro romântico, nada disso, mas já representava um começo. Depois de olhar os dias e horários disponíveis ele havia me encaixado em uma quarta-feira à tarde, no escritório que usava quando estava no Brasil. Sem problemas. Eu planejava aproveitar muito bem aqueles trinta minutinhos...
Chegou a quarta-feira. Me arrumei primorosamente, procurando imitar o padrão de elegância que o vi ostentar no coquetel. O endereço também era elegante, assim como o edifício, o escritório e a secretária que me atendeu. Tudo top de linha.
Na hora combinada entrei na sala do Sergei. Lá estava ele: calmo, bonito, seguro de si. Não parecia ansioso com a visita de uma antiga paixão da adolescência. “Não importa, eu gosto de desafios.” pensei na minha cabeça.
Mas no meu coração, estava nervosa.
Desta vez não houve beijinho, só um aperto de mão, já que ele não saiu de trás da mesa ao me cumprimentar.
Sentei-me e tentei parecer alegre e charmosa. Mas ele esfriou um pouco a minha animação quando perguntou, de maneira muito profissional:
— E então, no que eu posso te ajudar?
Céus, ele estava pensando que tinha vindo pedir emprego?
Mantive a pose e fiz um ar de surpresa, sem deixar o sorriso desaparecer.
— Pode me ajudar me contando como está.
— Estou muito bem, e você?
— Eu estou ótima, obrigada.
— Que bom.
Opa! Não posso deixar a temperatura baixar desse jeito. Mesmo sem ele ter perguntado já fui falando, com grande entusiasmo, que havia me formado em direito, que trabalhava em direito trabalhista, que era bem interessante e eu adorava (completa mentira). Sem dar tempo de ele dizer nada, emendei a pergunta:
— Como você resolveu entrar para o ramo dos sapatos e bolsas?
Isso rendeu alguns minutos de conversa, ele me contando que o pai possuía uma loja de calçados e que ele cresceu no meio desse tipo de artigo. Por isso foi bem natural continuar com o comércio quando terminou a faculdade de administração. Vai daí, montar a fábrica foi um pulo.
— Administração? Pensei que você fosse estudar Belas Artes!
— Nunca pensei nisso. Eu gosto de desenhar, mas é só um hobby.
Opa de novo! Mais uma vez a conversa ameaçava esfriar. Então entrei com carga pesada:
— Queria te perguntar uma coisa. Você ainda está chateado comigo?
Cara de surpresa.
— Chateado? Como assim? Por que eu estaria chateado?
Fingimento puro, eu tinha certeza!
— Porque eu passei o colegial inteiro fazendo gozação com você.
— Não foi o colegial inteiro, foram poucas vezes.
Poucas vezes? O cara não lembra que eu o zoava praticamente todos os dias? Só podia estar fingindo. Provoquei:
— Eu te chamava de Bolotinha!
Sergei inclinou para trás a bela cabeça coroada de cachos castanhos e riu.
— Ora, isso não teve a mínima importância. Por que eu me importaria com uma bobagem dessa?
Bobagem? Eu crente que estava atormentando aquele moleque, e ele achando bobagem? Não acreditei e prossegui:
— Só queria te explicar que havia um motivo para eu te zoar.
— Mas eu já disse que não tem importância.
— Me deixe terminar. O problema é que você me incomodava muito.
— Mesmo? Por quê?
— Porque você não parava de me olhar!
Outra expressão de surpresa. Logo depois o rosto se iluminou com um sorriso e ele deu uma risada como quem se lembra de alguma coisa há muito esquecida.
— É verdade, eu te olhava mesmo! Preciso te pedir desculpas pelo incômodo.
A conversa fluía para onde eu tinha planejado.
— Tudo bem, só me responda uma coisa: qual o motivo de me olhar tanto?
Ele hesitou. Pareceu embaraçado.
— Quer mesmo saber?
— Quero!
— Você vai ficar chateada comigo, e com razão.
— Não vou não, pode falar.
Que emoção!
— É que você me fascinava.
Oh felicidade! Estamos indo na direção certa!
— Eu te fascinava? Por quê?
— Era a tua aparência.
Eu sabia! Afinal eu era a it girl da sala! Fiz carinha de inocente, como se não estivesse entendendo.
— Que é que tinha a minha aparência?
— Posso mesmo falar? Você vai ficar chateada.
— Não vou não, agora somos adultos, aquilo foi na adolescência.
— Tá bom. O motivo é que eu achava a sua aparência ridícula.
Nããããããão!!! Não posso acreditaaar!!!
Engoli em seco. Juro, não é modo de dizer. Engoli mesmo em seco. Ele percebeu porque ligou para a secretária e pediu dois cafezinhos.
— Ridícula como assim? Não, eu não estou chateada (na verdade estava chocada), só quero entender.
— Mas você não se lembra? Não tinha dia que você não aparecesse com roupas estranhas, cores desencontradas, acessórios malucos, maquiagem esquisita. Eu ficava fascinado.
Não pude esconder a decepção.
— O fascínio do horror, não é?
— Não chamaria de horror. Mas era bizarro. E cada dia uma montagem diferente da anterior. Tenho que reconhecer: era muita criatividade.
Montagem? Ele chamava o meu look de montagem? Ai que vontade de chorar. Ele teve um gesto de consolo:
— Não fique assim. Você era só uma adolescente. Nessa idade temos licença poética para agir como doidos. Faz parte do desenvolvimento normal.
Eu não poderia estar mais desapontada. Joguei um último argumento:
— Teve aquela vez que você me desenhou. Pensei que era porque tinha achado bonito o meu look do dia.
— Ah sim. Mas a verdade é que naquele dia você atingiu o ápice da... digamos... criatividade. Eu precisava registrar aquela imagem de alguma forma, e já que não podíamos usar celular na classe...
— Entendi... E não te incomodava quando o pessoal dizia que você estava a fim de mim?
— Não, eu não me incomodava nem um pouco. Outra bobagem de adolescentes. Não é pra levar a sério.
Nessa altura eu já sabia que ele nunca havia sido apaixonado e que apenas me considerava ridícula. Mas nem tudo estava perdido. O negócio é trabalhar o futuro. As possibilidades são infinitas.
Antes que eu abrisse a boca para falar qualquer coisa, a porta se abriu. Era um homem negro, alto, lindo. Segurava uma bandeja com os nossos cafezinhos. Sorriu maravilhosamente e disse:
— Posso entrar?
Sergei pareceu contente ao vê-lo.
— Claro, claro! Venha aqui que eu quero te apresentar a uma pessoa.
Ele se aproximou. Esbelto, sensual. Só havia homem bonito naquela empresa?
— Larissa, quero te apresentar o gerente de contabilidade, meu cunhado Lukeny.
Cunhado???? Tive um mau pressentimento, mas resisti. Retribuí o cumprimento do tal de Lukeny e perguntei, cheia de esperanças:
— Você é casado com a irmã do Sergei?
Nesse instante os dois se entreolharam e começaram a rir muito. Eu fiquei ali com cara de tacho.
— Desculpe a gente, Larissa. É que foi engraçado.
Eu ficando nervosa.
— Engraçado? Por quê?
Lukeny tomou a palavra:
— Por dois motivos: primeiro que o Sergei é filho único, segundo que eu sou gay.
E voltaram a rir. Minha cara de tacho tornou-se indisfarçável.
Sergei foi até a mesa e virou na minha direção um porta-retratos grande, de moldura vistosa. Era a foto de uma família feliz: ele abraçado a uma mulher bonita, de aparência aristocrática, junto com duas crianças graciosas, uma menina e um menino.
— Eu casei com a Luena. Veja os nossos filhos gêmeos. Não são lindos?
Eram sim. Mais do que lindos. Saudáveis, sorridentes e felizes.
Nessa hora dei bandeira. Choraminguei:
— Mas você nem usa aliança...
— Aliança me causa desconforto no dedo. A Luena não se importa. Não é, Lukeny?
Depois disso me despedi e fui embora. Nem tomei o cafezinho. O pior foi tê-lo deixado perceber as minhas reais intenções. Espero nunca mais ver o Sergei nem o Lukeny e muito menos a Luena.
Ai, ai, ai, o que eu vou dizer à Sarita?
Que eu não gostei dele, que o Sergei continua sendo o mesmo Bolotinha de sempre, pelo menos para mim. Chato e sem graça. Sei lá, vai ver que os nossos santos não combinam, sabe como é?
De volta à vida real. Escritório mequetrefe, vida mequetrefe.
O jeito é investir no concurso. Uma hora eu consigo passar. Com certeza.
Aliás, preciso chegar em casa e acessar aquela apostila on line.
O que estará fazendo meu ex-marido a esta hora?

Imagem: http://drprem.com/



sexta-feira, 31 de julho de 2015

Um aluno famoso

Genoveva trabalhou muitos anos como professora. Desde a aposentadoria retomou um hábito da juventude: ler, todas as manhãs, o jornal impresso.
Uma das suas lembranças mais felizes: o pai, depois do café da manhã, ainda sentado à mesa lendo o jornal. E a pequena Genoveva na ponta dos pés querendo ver que coisas bonitas eram aquelas, pra merecer tanta atenção do pai.
Depois de aprender a ler, ela também ficava à mesa e recebia algumas páginas para se distrair. E como se sentia importante! Eu também leio jornal, pensava com orgulho.
O pai morreu e ela continuou com o hábito; não deixava de ser uma forma de homenageá-lo. Mas chegaram as obrigações da vida e a rotina teve que mudar.
Agora finalmente o tempo voltou a ser seu. Todas as manhãs, depois do café, lá está ela com as folhas espalhadas sobre a mesa da sala. Vai lendo calmamente, dando muita atenção às notícias de política, nenhuma atenção às notícias policiais, deixando para o fim os quadrinhos, as resenhas literárias e as críticas cinematográficas. Horóscopo? Fofocas? Colunas sociais? Não prestam pra nada.
Naquele dia ela encontrou uma reportagem que a interessou muito. Falava sobre um ex-aluno seu. Estava famoso o rapaz! Continuava bonito como era aos dezessete anos. Rosto bem desenhado, olhos muito azuis, cabelos claros.
Genoveva parou de ler e ficou recordando. Muitos anos de trabalho, centenas e centenas de alunos. Da maioria não se lembrava de nada, nem nomes nem feições. Porém alguns são inesquecíveis, por motivos bons ou por motivos ruins.
Esse aluno em particular era péssimo. Fazia parte de uma turminha completamente desinteressada, sequer os cadernos eram abertos. Algumas vezes faziam uma roda com as carteiras para facilitar o bate-papo. Genoveva lembra-se desse jovem, agora famoso, virado de costas para o quadro enquanto a aula era dada.
Certo dia o absurdo ultrapassou todos os limites e ela, normalmente compassiva e gentil, precisou gritar pedindo silêncio. O jovem virou e disse: “Dona Genô, eu vou fazer silêncio, mas só se a senhora me der um beijinho.”
Genoveva ficou absolutamente escandalizada. Senhora de respeito, nunca havia dado abertura para tal tipo de conversa. Desde jovem sempre usou jaleco branco de mangas compridas, nenhum tipo de joia chamativa nem maquiagem pesada. Sua convicção era de que o professor não deve chamar atenção para a sua figura, mas sim para a matéria que leciona. Seu linguajar era formal, só usava a norma culta. Tudo para manter uma distância saudável entre ela e os estudantes. Sem isso, acreditava que os papéis se misturavam, a disciplina se esfarelava, e o aprendizado deteriorava.
Os tempos haviam mudado, ela admitia, mas na medida do possível procurava preservar os antigos valores. Até entendia a inutilidade de exigir daqueles jovens a mesma atitude que exigira de outros, apenas meia década atrás.
Ia levando as coisas do jeito que conseguia. Ficando nervosa, desgastando-se, a pressão arterial subindo, mas sempre mantendo a postura de professora séria e competente. Exigente sim, mas compreensiva, sem jamais perder a linha.
Perder a linha! Como estava difícil nos últimos tempos não perder a linha. Cada ano que passava, mais e mais difícil.
E naquele dia específico a coisa chegou ao fundo do poço. Ao ouvir a frase insolente, ela engasgou, sentiu o rosto ficar vermelho e os olhos se encherem de água. A única coisa que conseguiu dizer foi: “Isso não vai ficar em brancas nuvens.”
Não foram as palavras, mas sim a expressão no seu rosto que deve ter alarmado o jovem. Ele permaneceu quieto pelo restante da aula e foi embora como se nada houvesse acontecido. Genoveva saiu de lá diretamente para a sala da orientadora pedagógica.
Consta que o estudante foi advertido verbalmente, nada mais do que isso. Pelo restante do ano, que por sorte chegava ao fim, ele retomou o seu comportamento debochado. Não voltou a se expressar daquela maneira, mas o rendimento continuou nulo.
Último dia letivo, última avaliação, últimos alunos despedindo-se e saindo. Ele foi ficando. Sala vazia, apenas ele e um colega. Aproximaram-se juntos da mesa para entregar as provas. Ele perguntou se podiam conversar. Claro que sim. Pediu ao colega que esperasse lá fora. Então começou a representação.
“Que cena, meu Deus!” Até hoje Genoveva lembra claramente.
O rapaz, com um ar muito consternado, os olhos azuis brilhando (lágrimas contidas?) pediu desculpas pelo procedimento tão reprovável.
“Não foi por mal, dona Genô. É que a senhora é uma pessoa muito carismática. Eu lhe tenho em grande consideração. O que me atrapalha é esse meu problema de hiperatividade.”
(Falta de vergonha mudou de nome, pensou Genoveva.)
“Ah, você tem hiperatividade? Eu nem tinha percebido.”
“Tenho sim, é que tomo remédio. Mas às vezes fico sem tomar por causa dos efeitos colaterais, então as coisas fogem do controle.”
Genoveva ouvia tudo aquilo com frieza. O jovem deve ter percebido, porque fez uma expressão muito triste e começou a chorar. Com lágrimas.
(Que ator! pensou ela. Ator ou sociopata. Como desempenha bem o papel!)
“É verdade, professora. O remédio me faz ficar calmo, mas em compensação me dá sono, eu não consigo acompanhar a aula, é horrível. Então de vez em quando fico sem tomar, mesmo sabendo que vou tumultuar um pouco o ambiente. Não sei mais o que fazer.”
“Deve ser muito chato mesmo.” respondeu ela com a mesma frieza. Ele viu que precisava aumentar a dose. Esfregou os olhos, que ficaram vermelhos, e a encarou chorosamente.
“Pra piorar, professora, o meu pai bebe.”
Genoveva só olhava. “Que problemão, hein?”
“A senhora nem imagina. Eu vou na igreja, tento rezar, mas a hiperatividade me atrapalha. Não consigo me concentrar nem quando estou rezando.”
“Uma pena mesmo.” (O que esse garoto quer de mim, afinal?)
“Olha, professora, eu peço para a senhora ser paciente comigo. Sei que errei, mas não foi por mal. Também sei que as minhas notas não são boas, mas veja que se nem pra rezar eu me concentro, quanto mais pra estudar a sua matéria. Eu peço a sua compreensão.”
“Vou ver o que posso fazer.”
“Eu lhe agradeço. Posso dar um abraço?”
“Pode.” (Deixe estar, maganão, que a sua batata está assando.)
Abraço comovido. Mais desculpas. O colega lá fora no corredor, esperando. Genoveva não ouviu nada, mas tem certeza de que ao sair o jovem disse ao colega algo como “Tudo certo, passei a conversa na velhota.”
Final de ano, conselho de classe. Quem ficou reprovado em até três disciplinas não é retido, mas tem que prestar novas provas. Só repete de ano quem ficou em quatro ou mais. O tal aluno foi reprovado em quatro. Mas está no último ano...
“Gente, vamos mesmo reter esse menino? Será que alguém aí não pode alterar a nota dele? É uma pena se ele repetir. Não se forma, fica ocupando uma vaga, e a gente vai ter que aguentar a criatura por mais um ano. Será que não dá pra ajeitar as coisas?”
Genoveva mal pôde acreditar. Abriu a boca para falar mas não conseguiu porque a indignação travou as palavras. Nisso, a professora de matemática resolveu colaborar. Pois é, ele só precisava de mais um ponto e meio. O que é um ponto e meio, no final das contas?
O professor de português também achou que o caso não era tão grave assim. Que custava dar os dois pontos que ele estava devendo?
O sangue de Genoveva subindo. Conseguiu falar.
“Vamos mudar as regras assim, sem mais nem menos? Vocês acham que os outros estudantes não vão perceber que a aprovação foi arranjada? Como vamos ter autoridade sobre as próximas classes se eles souberem que em tudo se pode dar um jeitinho?”
Não adiantou protestar. Logo em seguida o professor de física também decidiu ser bonzinho, e só restou ela, a chata de química, insistindo no seu ponto de vista.
“Pelo menos vai constar no histórico escolar dele a reprovação em química?”
“Não, professora. Isso seria considerado constrangimento.”
Foi assim que aquele jovem insolente, irresponsável e manipulador formou-se no ensino médio. Agora, vários anos depois, lá estava ele na primeira página do jornal. Bonito como sempre e agora famoso, muito famoso.
A sobrinha de Genoveva passa pela sala e vê a tia compenetrada sobre as folhas do jornal.
“O que foi, tia? O que tem de bom aí, que a senhora está tão interessada?”
“Nada não, filha. É só mais um político corrupto e sem-vergonha que acaba de ser preso.”
Genoveva, lá no seu íntimo, sentiu um pouquinho de culpa — só um pouquinho — pelo prazer que experimentou ao dizer tais palavras.
Imagem: http://imgadvisor.com

terça-feira, 28 de julho de 2015

Maçã verde

Que delícia. Domingo, manhã de chuva. Friozinho gostoso. Adoro.
Nem precisava ter levantado tão cedo. Mas eu gosto de acordar, abrir os olhos e ver que estou aqui, no meu apartamento.
Tá bom, é quitinete, mas eu considero apartamento. E nem é meu, só aluguei, mas é como se fosse.
A prova de que estou no meu apartamento, meu e de mais ninguém, é esta maçã que estou comendo. Verde, bem grande, gostosíssima, sabor de pera misturada com maçã. Vou ficar aqui comendo e olhando pela janela e vendo essa paisagem que nem é tão bonita, mas não faz mal, porque só o prazer de estar sozinha, em paz, sem dar satisfação a ninguém, já compensa.
Se eu estivesse lá na casa dos meus pais logo logo a minha mãe ia aparecer dizendo: “Letícia, comer fruta crua em jejum não é bom pro estômago, você precisa tomar café com leite e comer um pãozinho.”
Hahahahahahaha! Olha eu aqui, mãe! Tô comendo maçã e bebendo água. Tá vendo aquele copo ali no parapeito? É água pura, fresquinha. Se eu quisesse café, estaria bebendo café, mas não quero. Agora sou eu quem manda no meu estômago, valeu?
Tive que esperar dezoito anos para começar a viver. Até que enfim. Meu quartinho-com-banheiro tem tudo o que preciso: a cama, o armário, um fogãozinho de duas bocas, a mesa com cadeira, um radinho e o filtro de água.
“Ai que pobreza, Letícia!”
Pobreza nada. É tudo limpo, arejado, sem insetos, não passo frio nem calor, não preciso de geladeira, computador uso o da faculdade, televisão nunca gostei mesmo, o chuveiro é bom e o colchão macio. Pronto, perfeito.
E para ficar mais perfeito ainda, estou fazendo o curso dos meus sonhos. Jornalismo! Em universidade pública! Só de pensar nisso me dá um arrepio de felicidade. Adoro todas as matérias, principalmente História da Comunicação.
Como não sou boba nem nada, consegui duas coisas bem legais: bolsa-alimentação e emprego de meio período. Daí que não tenho problema com grana. E a coisa só tende a melhorar, porque...
Droga! Tem gente batendo na porta. Odeio quando ficam batendo na porta do banheiro.
— Letícia! Sabe há quanto tempo você está nesse banheiro?
— É que estou lavando o cabelo, mãe!
— Mas precisa demorar tanto?
— Hoje é domingo, mãe!
— É domingo mas tem mais gente precisando usar o banheiro. Já tá formando fila aqui na porta.

Ai meu Deus. Nunca consigo chegar na parte mais legal, quando a chuva acaba e eu vou passear no parque. E depois volto pro apartamento e faço aquele macarrão delicioso com molho branco e brócolis. E depois estudo um pouco e então saio com a turma da faculdade. E a gente vai ver aquele filme brasileiro que tá bombando e depois...
— Leticia! Quantas vezes vou ter que te chamar?
— Já vou, mãe. Já tô indo.

Droga de vida.

Letícia sai do banheiro. Os dois pirralhos que ela chama de irmãos estavam mesmo fazendo fila na porta, estapeando-se enquanto esperavam. Ela vai pro quarto, começa a secar os cabelos com a toalha.
— Vem logo tomar café, Letícia! Hoje você vai pra feira comigo.
— Não quero café, mãe. Não tem aí uma maçã?
— Maçã em jejum? Vai te fazer mal. Come primeiro um pãozinho.



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quarta-feira, 8 de julho de 2015

Valsa dos Noivos

Acabo de chegar do enterro da minha cunhada. Inventei uma dor de cabeça e pedi para o meu marido ir comprar um remédio. É tarde, as farmácias estão fechadas, ele vai demorar. Quero ficar um tempo aqui sozinha, escrevendo este relato. Sinto que preciso fazer isso e tem que ser agora, caso contrário não vou conseguir me despedir dela por completo. Este papel eu colocarei dentro de um envelope que nunca mais será aberto. Necessário agora é escrever, colocar pra fora, despejar em algum lugar estas lembranças e estas confissões .

Eu já estava casada há dez anos, e tudo caminhava bem. Sem filhos, porque nunca quisemos tal responsabilidade. Gostávamos da nossa vida do jeito que era, com independência e privacidade.

Foi então que a bomba estourou. Meu marido apareceu com uma novidade: sua irmã mais velha tinha que vir morar conosco. Mas como? Por quê?

Ele explicou detalhadamente. Estava coberto de razão, eu é que não queria entender. Hoje sei que era o certo a fazer. Ela havia ficado solteira a vida toda, cuidado dos pais até a morte de ambos, era idosa, não tinha a menor condição de continuar sozinha na antiga moradia, precisava estar com alguém para um caso de necessidade.

Fiquei revoltada. Vamos perder toda a privacidade, disse eu. Nunca mais sairemos, nunca mais viajaremos em paz: ou levar junto ou deixar alguém tomando conta, as duas únicas opções. Vai ser uma preocupação constante, pior do que teríamos com um filho, porque mais cedo ou mais tarde ela vai precisar de alguém para cuidar, levar ao médico, dar banho. Mais despesas também. Adeus à vida organizada, despreocupada e tranquila. Uma pessoa estranha sempre presente, exigindo atenção. O que nós fizemos para merecer isso?

Só parei de falar quando percebi que ele estava ficando chateado e triste. Era a sua única irmã e, devido à grande diferença de idade, quase a sua segunda mãe. Ela sempre soubera que tinha a missão de cuidar dos pais até o fim, mesmo que casasse. Não casou, dedicou-se integralmente a eles. Agora, após o falecimento da mãe, restava ali um bagaço de ser humano, alguém que não havia realizado nenhum sonho porque sempre pensara no bem estar dos outros e jamais no seu. Merecia ficar abandonada naquela casa deserta, onde já há muito tempo se sentia cansada de tantas obrigações e afazeres? Ou colocada em uma instituição para idosos, sem contato com os únicos laços familiares que lhe restavam?

Não, claro que não. Ao contrário, merecia um pouco de descanso e conforto. Concordei. Contrariada, mas procurando não demonstrar; querendo preservar o que possuía de mais valioso na vida: o meu casamento.

Então ela veio. Tímida, envergonhada. Hoje entendo que se sentia triste pela perspectiva de viver de favor. Como pagar por esse favor? Sendo submissa, quieta. Sorrindo quando achava que era pra sorrir, nunca pedindo nada, nunca manifestando irritação ou descontentamento.

Saíamos para trabalhar e ela ficava só. Lia, fazia tricô, regava as plantas do apartamento, ouvia rádio. Não gostava de televisão. Fez algumas tentativas de ajudar no trabalho doméstico, mas a desencorajamos. Não era necessário e podia ser perigoso devido à idade. Quando a diarista vinha para a faxina ela aproveitava e dava brilho nos espelhos, tirava algum pozinho.  Às vezes fazia um passeio a pé. Comprava frutas, um doce, um refrigerante, que trazia para casa a fim de compartilhar conosco. Não tinha aposentadoria nem pensão, só o rendimento da poupança resultante da venda da casa.

Sou uma pessoa má. Não sabia disso antigamente, mas depois da convivência com minha cunhada não há como ignorar o fato de que sou uma pessoa essencialmente má. Essa maldade provém do meu egocentrismo. Hoje eu sei, e tento me controlar. Olá. Meu nome é Alexandra. Sou uma pessoa má, e estou há quatro anos e cinco meses sem praticar nenhuma maldade.

Prova desse desvio de caráter é que eu me irritava com a presença dela no café da manhã e no jantar. Antes da sua vinda aqueles eram momentos gostosos que eu tinha com o meu marido. Conversávamos, trocávamos as impressões do dia de trabalho, fazíamos planos para o fim de semana, ríamos juntos. Mas com ela ali na nossa frente ficava difícil, porque era necessário incluí-la na conversa e não sabíamos como. Tornava-se uma coisa forçada, sem graça, artificial. Confesso que me senti aliviada quando, depois de algumas semanas, ela perguntou se podia fazer as refeições antes de nós. Estava acostumada a se levantar e deitar muito cedo, então achava melhor voltar aos antigos horários. A partir de então, ao levantarmos, o café da manhã já estava pronto na mesa. E quando chegávamos à noite ela já havia comido o seu jantar e adiantado os preparos para o nosso. Tive de reconhecer que tal arranjo era bastante satisfatório.

Vai daí, só restou um outro motivo de irritação. Era a música que ela ouvia todas as noites quando se recolhia ao quarto para dormir. Por volta das oito e meia, religiosamente, lá vinha aquela música tocada na vitrolinha velha. O volume era baixo, mas dava pra reconhecer a Valsa das Flores de Tchaicovsky. Cheguei a cronometrar: durava sete minutos e seis segundos. Todas as noites, invariavelmente. Graças aos céus ela não recolocava o long play, tocava a valsa apenas uma vez. Mas por que sempre a mesma música, no mesmo horário? Eu podia ter perguntado, mas não o fiz por receio de invadir a sua privacidade, de parecer rabugenta, de inibir essa rara fonte de prazer que ela ainda possuía.

Certa noite fazia frio, eu e o meu marido estávamos enrodilhados no sofá da sala, abraçadinhos, vendo a novela. Começou a música. Baixinha, não chegava a incomodar. Mas a irritação me fez levantar e fazer uma coisa muito feia. Disse ao meu marido que estava indo ao banheiro, mas fui olhar pelo buraco da fechadura do quarto dela. O que vi me deixou de respiração suspensa.

Ela estava vestida de noiva. Um traje antiquado, desgastado pelo tempo, horroroso. Mais parecia uma mortalha. Ela dançava lentamente ao som da Valsa das Flores, pra lá e pra cá, os braços estendidos como se houvesse alguém dançando com ela. O véu oscilava, a cauda do vestido se arrastava pelo chão. Era tétrico, era horrível.

Saí de lá lentamente, com um nó na garganta. Fui para o banheiro tentando me recompor. Quando voltei à sala o meu marido notou que eu estava diferente. Acho que estou gripando, respondi. Mais tarde, já na cama, perguntei a ele por que sua irmã nunca havia se casado. Tinha sido de propósito, para cuidar dos pais, ou apenas aconteceu?

Ele me contou uma história trágica. Ela não havia planejado ficar solteira. Era uma moça ativa, alegre, tinha um emprego, namorou e ficou noiva de um homem que trabalhava em uma oficina mecânica do bairro.  Parecia estar tudo bem, ele sabia que iam morar na casa dos pais dela mas se mostrava contente porque vivia em uma pensão, tinha vindo do norte e era sozinho, por isso achava que ter família outra vez seria uma grande felicidade. Pelo menos assim dizia.
Estava tudo pronto para o casamento. O quarto dos noivos, o vestido, o horário na igreja e o salão de festas, tudo preparado. O civil era no sábado e o religioso no domingo. Naquela tarde ela vestiu um tailleur branco, discreto e elegante, colocou um colarzinho de pérolas, um ramo de flores no cabelo, e foi com toda a família para o cartório. Esperaram bastante, mas o noivo não chegava. Telefonaram para a pensão e ficaram sabendo que ele tinha viajado na noite anterior. Viajado? Sim, respondeu a dona da pensão. Colocou tudo em uma mala, pagou a conta do mês e disse que estava voltando para o norte.
O mundo caiu para ela. O que poderia explicar aquilo? A melhor hipótese foi de que o rapaz já era casado lá no norte, e alguém avisou a sua mulher. Parece que um dia antes ele havia recebido uma carta, e depois disso tudo mudou.
A noiva entrou em depressão. Deixou o emprego, perdeu a alegria e a motivação para viver. Foi se recuperando devagar, mas a partir de então era outra. Permaneceu em casa, nunca mais quis sair para estudar ou trabalhar. Tornou-se essa que estava lá agora.

Depois de ouvir tudo fiquei pensativa. Como eu conseguira, até aquele momento, me manter tão indiferente à vida da minha cunhada? Por que aconteceu de nunca ter me interessado, nunca ter perguntado nada ao meu marido?
A resposta era simples: egocentrismo. Não me importava o que acontecia no resto do mundo. Eu, o meu marido, o nosso lar, nossos empregos e nossas diversões: nada fora do meu microuniverso me dizia respeito. Assim foi até o momento em que o universo lá de fora meteu o seu focinho frio e pegajoso nessa bela perfeição.

Já na manhã seguinte olhei com renovado olhar para a minha cunhada. Ela não era ridícula, nem quando ficava sentada conosco sem dizer nada, nem quando colocava aquele vestido de noiva maltrapilho e dançava secretamente a valsa dos noivos. O fantasma da sua valsa dos noivos. Todas as noites, sempre no horário em que deveria ter ocorrido, muitos anos atrás.
Ela não era ridícula, apenas tinha o coração partido.

Após desse dia mudei a minha atitude, não porque planejasse, mas porque os meus sentimentos haviam mudado. Finalmente acolhi de boa vontade a nova pessoa da nossa família, e acredito que ela foi feliz nos anos que lhe restaram.

Quando adoeceu, pedi licença do trabalho e fiquei com ela. Cuidei, levei ao médico, dei banho. Quando faleceu, fui eu quem a preparou para o enterro.
Foi sepultada toda de branco, de véu na cabeça e buquê nas mãos. Fiz questão de lhe colocar um vestido de rendas quase igual àquele traje que vi pelo buraco da fechadura. Nunca contei ao meu marido sobre a valsa dos noivos. Nunca contei a ninguém. Guardarei esse segredo.

Adeus, minha cunhada. Que descanse em paz. Se há alguma vida após a vida, que o seu coração fique curado daquela dor. Que seja feliz e tenha com quem dançar.  Não a Valsa das Flores, mas sim esta outra música de Tchaicovsky, que é alegre e combina muito mais com você: A Bela Adormecida.

Imagem: http://www.gilantiguedades.com.ar

Para ouvir as músicas citadas clique nos respectivos títulos: Valsa das Flores / A Bela Adormecida