Onde comprar "Os meninos da Rua Beto"



Divirta-se com um livro diferente de todos que você já leu!

"OS MENINOS DA RUA BETO"

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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Conto de Natal

Capítulo do livro "Os meninos da Rua Beto"

Dezembro de 1964
      
          Mesmo quando não precisava ajudar no sustento da família, a maioria dos meninos arranjava algum trabalho a fim de ter um dinheirinho no bolso, já que o hábito da mesada não existia então. As meninas não podiam fazer o mesmo por causa das suas “obrigações” domésticas.
          Aos dez anos de idade o meu irmão e o Izaías vendiam pirulitos. Esses pirulitos nada mais eram do que açúcar caramelizado, despejado ainda quente e viscoso dentro de pequenos cones de papel. Enquanto o xarope grosso estava esfriando e se solidificando, espetavam-se palitinhos de madeira dentro de cada cone. Depois de frios, os pirulitos eram acomodados em orifícios redondos de tabuleiros de madeira chamados “bancas”.

Imagem: http://papjerimum.blogspot.com.br

          O fabricante de pirulitos “empregava” vários garotos que percorriam as ruas com as bancas dependuradas no pescoço por meio de cordinhas. Lá pelos meados dos anos sessentas, antes de as crianças tornarem-se consumidoras de produtos industrializados, esse tipo de mercadoria tinha ainda uma boa aceitação.
          Naquela véspera de Natal, já que não tinham nada melhor para fazer, o meu irmão e o Izaías resolveram passar o dia inteiro vendendo pirulitos. Junto com eles foi o Neno, garoto de uns sete anos.
          O dia estava ótimo para as vendas. Foram andando, andando, e quando se deram conta estavam muito longe de casa: no Largo São José do Belém, a vários quilômetros de distância.
          O tempo era chuvoso, e quando a chuva apertou eles entraram em uma pastelaria já cheia de gente que também tinha ido se abrigar do aguaceiro. Os pirulitos estavam no fim, mas na banca do Neno ainda havia alguns; então o pessoal começou a comprar os últimos.
          O chinês dono da pastelaria não gostou nem um pouco! Ele começou a dizer:
          ”Aqui patelalia! Aqui vende patel, não vende pilulito!”
          Os meninos compreenderam que estavam sendo convidados para sair, mas o Neno tinha um senso de humor digno de uma criança de sete anos, e ao invés de sair começou a imitar:
          ”Aqui patelalia! Aqui vende patel, não vende pilulito!”
          O chinês, demonstrando uma total incompreensão para com a infância trabalhadora, foi lá dentro, voltou com um canecão de água e jogou no Neno.
          Foram embora, o Neno pingando água e com cara de choro. O meu irmão e o Izaías, para confortar o coleguinha (que adorava frango assado), foram a uma padaria e compraram um frango, desses que ficam girando naquelas assadeiras verticais com porta de vidro.
          Estava tudo perfeito, mas onde iriam comê-lo? Na padaria não havia lugar para sentar, e os bancos do jardim da praça estavam todos molhados. Acabaram resolvendo o problema com simplicidade: já que a chuva tinha parado e o sol reaparecido, sentaram-se na escadaria da igreja, num cantinho onde estava seco e havia uma sombra agradável. Ficaram lá, destrinchando o frango com as mãos, comendo e se lambuzando pacificamente enquanto observavam o lindo chafariz que ainda existia naquele tempo, com seus jatos de água cristalina.
          Sendo véspera de Natal, todo o jardim estava decorado com lâmpadas coloridas e enfeites cintilantes, e na igreja havia missas seguidas. No fim de uma delas começou a sair uma pequena multidão. Foi com esta cena tocante que as pessoas se depararam: três garotos pobremente vestidos (não tinham planejado ir tão longe vendendo pirulitos, por isso saíram de casa vestindo calções, camiseta e sandálias), sentados na escada comendo frango − presumivelmente doado por alguma alma caridosa! Com os corações repletos de amor fraternal após a missa natalina a que haviam acabado de assistir, não tiveram dúvidas: começaram a dar esmolas!
          O Izaías ficou vexadíssimo! Levantou-se depressa e quis devolvê-las! Mas o Neno e o meu irmão, dois notórios caras-de-pau, não deixaram! Continuaram a receber as doações, cuja totalidade acabou superando o dinheiro da venda dos pirulitos. Resolveram na mesma hora comprar outro frango, que comeram no ônibus a caminho de casa.
          Durante a viagem de volta o Izaías, envergonhado com o procedimento dos colegas, sentou-se longe deles, fingindo não os conhecer. De vez em quando olhava para trás indignado, observando os dois porcalhões de mãos engorduradas que comiam despudoradamente o frango adquirido com dinheiro de esmolas.
          Serenai, psicólogos! Nenhum dos dois tornou-se pedinte. Foi a única vez na vida que aceitaram a caridade pública. E que comeram frangos em tão precárias condições de higiene.
Imagem: http://janallegra.blogspot.com.br