Onde comprar "Os meninos da Rua Beto"



Divirta-se com um livro diferente de todos que você já leu!

"OS MENINOS DA RUA BETO"

acesse:

http://inquietovagalume.blogspot.com.br/p/os-meninos-da-rua-beto.html

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sábado, 13 de setembro de 2014

Palácio de cristal

Ah, que bom que você parou aqui para conversar! É verdade que recebo muitas visitas, mas são tão rápidas! Mal dá tempo de dizer “olá, como vai?” Raramente alguém chega, senta, e se interessa em saber alguma coisa sobre mim. Então vou te contar tudo direitinho.
Foi assim: eu era uma pessoa como outra qualquer, morava em uma casa, tinha uma família, e trabalhava muito.
O problema era que, por mais que eu me dedicasse, por mais que me esforçasse, nunca parecia ser suficiente.
Engraçado que eu não percebia isso. Tinha a impressão de que a vida era aquilo mesmo: muito trabalho e uma constante sensação não estar cumprindo as expectativas. Sempre havia alguma coisa que alguém queria, que alguém precisava, e eu falhava em satisfazer. Depois me culpava e tentava fazer um esforço maior ainda.
Acho que vivi assim muitos anos. Nem sei quantos, mas foram muitos. Essa insatisfação, esse sentimento de culpa, que sempre me incomodaram, começaram a ficar insuportáveis.
Sabe que de tanto trabalhar fiquei com problema de dor nas costas, nos braços e nas pernas? E dor de cabeça, então? E insônia?
Além de tudo eu não tinha tempo para me tratar. Comecei a ficar cada vez mais feia. Não ia ao médico e nem cuidava da aparência. Me olhava no espelho e me achava horrorosa, mas tinha tanta coisa pra fazer que deixava pra depois arrumar o cabelo, dar um jeito nas unhas ou comprar uma roupa nova.
E as cobranças aumentando cada vez mais. Cobranças, reclamações, recriminações. Nunca um “obrigado”. Nunca um “deixe isso pra depois, vá descansar um pouco”. Nunca um “vou te ajudar a fazer isso”. Nunca um “parabéns, ficou muito bom”.
Então um dia olhei pela janela e vi aquele palácio de cristal. Engraçado que nunca tinha visto antes, embora tenha olhado naquela direção tantas e tantas vezes. Nessa hora pensei: “é para lá que eu vou! e vai ser agora!”
Por isso construí este barquinho, todo acolchoado por dentro, bem confortável. Plantei essas flores todas para ele ficar bonito e perfumado.
Levei o barquinho para o rio, entrei dentro, e desde então estou viajando na direção do palácio.
É tão bom ficar aqui deitada, sem fazer nada, só descansando. O barquinho vai navegando sozinho, porque o rio se encarrega de levá-lo. Assim, sem pressa, sem turbulência. Enquanto isso eu fico olhando o céu azul, respirando o ar puro, vendo as borboletas chegarem para pousar nas flores. São tão bonitas as margens deste rio, tão coloridas, que às vezes dá vontade de desembarcar e ficar morando aqui mesmo.
Mas o meu destino é o palácio de cristal. Há um quarto lindo esperando por mim, onde vou poder ser feliz. Muitos livros para ler, um espelho bem grande com moldura de prata, uma cama maravilhosa com colunas nos quatro quantos. Já pensou que beleza? Ninguém me amolando, me cobrando, me recriminando.
Este rio tem muitas voltas, por isso a viagem é longa. Mas eu não me importo, porque sou feliz desde já, desde que entrei no barquinho e deixei tudo para trás.
O que foi, passarinho? Precisa voar agora? Está bem, mas volte outras vezes, se puder. Vá me visitar lá no palácio. A minha janela é aquela que dá pra ver daqui. Está vendo? Aquela dourada, com cortinas de renda branca.
Tchau, passarinho! Seja feliz!

Imagem: http://crosti.ru

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O último vôo do passarinho

Foi depois de uma chuva forte que os irmãozinhos - uma menina e um menino - encontraram no jardim um passarinho caído no chão.
Se as próprias plantas se mostravam maltratadas por aquela tempestade cheia de ventos e de raios, o que dizer daquele ser pequenino e tão vulnerável?
As crianças o recolheram e o colocaram em um ninho improvisado feito com paninhos limpos e macios.Tentaram dar-lhe comida e água, sem muito sucesso.
A mãe disse: “Não se preocupem que a própria natureza vai cuidar dele. Esses bichinhos são muito fortes. Logo ele vai estar bom de novo.”
Porém no dia seguinte ele ainda estava mal. As asinhas não pareciam estar quebradas e não havia ferimentos visíveis, mas ele não dava mostras de que ia se levantar.
Continuaram tentando alimentá-lo, mas ele pouco bebeu e comeu. Dava muita pena o seu estado.
Era domingo, dia de missa. O menino não queria saber desses negócios de religião, mas a menina era bastante devota de Nossa Senhora. Então naquele dia ela foi à missa e rezou pela recuperação do doentinho.
Pediu para que ele melhorasse logo e ficasse completamente bom; ou então que morresse rapidamente, porque o pior era o sofrimento pelo qual estava passando aquele bichinho inocente.
Ao voltar para casa imaginava encontrar o passarinho cantando, já pronto pra voar. Caso tivesse morrido, iria fazer uma cova no jardim para se lembrar dele para sempre, com muito carinho.Talvez pusesse uma pequena cruz e plantasse uma flor sobre o local.
Cheia de esperanças, chegou e perguntou se ele tinha melhorado. O irmão respondeu, sem nenhuma emoção, que - muito pelo contrário - tinha morrido.
A menina sentiu um soco no coração. Nesse caso era preciso fazer o enterro.
Perguntou:
“Onde vocês colocaram o corpinho?”
“Jogamos na enxurrada.”
Que pena. Que falta de sensibilidade. Nem um enterro decente o coitadinho teve. E não adiantava reclamar. Os meninos não sentem as coisas como as meninas.
Mas, no final, Nossa Senhora havia atendido ao pedido, e ele não sofria mais. Tinha voado para o céu dos passarinhos.
Imagem: http://www.123rf.com

terça-feira, 9 de setembro de 2014

O Homem Dourado

Éramos apenas um bando de errantes. Mulheres, crianças e idosos andando devagar sob o sol. 
Precisávamos de outro lugar para viver, precisávamos nos integrar a uma nova comunidade ou então reconstruir a nossa, porém longe daquela devastação. Sem saber aonde ir, tomamos aquele caminho e seguimos em frente. Sempre em frente, afastando-nos da aldeia destruída pela guerra. Não que tivesse sido atacada pelos inimigos, mas a partida sem retorno de todos os homens aptos para a luta levou o nosso pequeno mundo à completa deterioração. Os animais morreram, as plantações secaram. Tudo se tornou árido e estéril. 

Naquele dia da nossa partida o céu estava muito azul e as cigarras cantavam. 
O verde do mato, o cheiro morno da terra... Uma sensação morna também na alma, como se alguma coisa importante estivesse para acontecer. 
A desesperança parecia ter ficado lá atrás, junto às nossas choupanas em ruínas, infestadas de insetos e ratos. 
Só importava agora o que estava por vir. 

Continuamos por toda a tarde. Silenciosos, vagarosos, mas serenos. 
A noite ainda não havia chegado quando avistamos à frente, do lado esquerdo do caminho, uma pequena ponte de pedra. Não havia rio nem riacho sob ela, apenas a depressão deixada pelo curso d'água que não mais existia. 
Porém a nossa atenção foi desviada para algo extraordinário do outro lado da ponte. Uma cabana de cânhamo e palha, de tamanho amplo e aparência acolhedora. 
Ao seu lado, sentado sobre uma pilha de pedras, um homem completamente dourado. 
Mesmo à distância dava para ver que se tratava de um ser muito belo, como uma estátua primorosamente esculpida em ouro. Mas não era estátua, porque se movia e nos observava silenciosamente. 

Paramos todos, admirados demais para entender o que víamos. 
Finalmente alguém disse que a cabana seria um lugar propício para passarmos a noite. 
Sim, mas precisaríamos da permissão do homem dourado. 
Quem seria ele? Uma divindade, sem dúvida. 
Poderíamos nos aproximar e pedir? Seria apropriado? Seria perigoso? 

Não havendo outra escolha, resolvemos seguir em frente e atravessar a ponte. Éramos tão poucos, tão inofensivos! Ele não veria ameaça nessa aproximação. 
Recomeçamos a andar, mais vagarosamente do que antes. Atravessamos a ponte, paramos em frente ao monte de pedras e ficamos em silêncio, olhando para o chão. 
Desrespeitoso seria olhá-lo diretamente, e mais grave ainda tomar a iniciativa da conversa. 
Os nossos corações batiam forte de medo e de esperança. As crianças, embora não entendessem a situação, sentiram que era preciso ficar muito quietas. 

Não esperamos muito tempo. Ele logo se levantou ─ era alto, perfeito, a materialização da beleza ─ e veio em nossa direção. 
Falou com uma voz muito humana que éramos bem-vindos, ouviu a nossa história e o nosso pedido, e nos deixou entrar na cabana. 
Por dentro era ainda mais acolhedora do que pensáramos. Muito limpo, o chão era revestido por esteiras de palha onde se podia deitar confortavelmente para passar a noite. 
Ninguém ousou perguntar quem era o homem dourado. 
Ninguém ousou suspeitar que a cabana fosse um tipo de chamariz, uma armadilha para algo incerto. 
Ninguém ousou tocar no homem dourado. A não ser uma criança, que inocentemente deslizou o dedo sobre a sua pele para ver se a cor de ouro saía. 
Nem todos viram isso acontecer, mas quem viu teve um momento de horror diante da possível fúria da divindade ultrajada. Eu sei porque vi, e tenho certeza de que o meu sangue parou de circular naquele momento. 

Não houve fúria, mas sim um sorriso. A cor de ouro não ficou no dedinho da criança, que, incentivada pelo sorriso, retribuiu com uma risadinha breve e musical. 
A primeira risada que ouvíamos desde muito, muito tempo. 

As outras crianças se apressaram em imitar o gesto, e riam felizes com a brincadeira. 
Para meu espanto, os adultos do grupo começaram a tomar a mesma iniciativa. 
Não sei explicar de onde os meus companheiros, normalmente reservados, tiraram coragem para tão insano atrevimento. 
A cada vez, o homem dourado sorria e aparentemente se divertia com a admiração que causava. 

Então resolvi me aproximar e fazer o mesmo. Apesar do sobressalto enorme dentro do peito, não quis agir diferentemente dos outros. O que viesse depois, fosse para o bem ou fosse para o mal, era melhor que acontecesse a todos sem exceção. 
Isso foi a explicação dada pela mente, mas o coração sabia que a motivação era outra. 
Fui a última a estender a mão, mas ele imediatamente se afastou e disse: "Você não. Você não pode me tocar." 

É impossível descrever a tristeza que senti naquele momento. Mais do que uma surpresa, mais do que a mágoa da rejeição, era uma tristeza muito profunda que me fez chorar amargamente. Jamais tinha me sentido assim. Não sabia, até aquele momento, que poderia haver no mundo uma tristeza tão profunda. 
Enquanto as pessoas começaram a se ajeitar para passar a noite, eu, parada em um canto, vi quando o homem dourado se afastou da cabana. 
Tudo era tão incompreensível... sem pensar no que fazia, fui atrás. 
Ele se deitou no chão, colocando um dos braços sobre a testa. Ao me ver fez sinal para que me aproximasse. 
Quando cheguei perto ele estendeu a mão e disse: "Agora você pode me tocar." 

Sentei-me ao seu lado e o abracei. Abracei muito, muito. Ele se deixava abraçar, e parecia estar ficando cansado, cada vez mais cansado. Em dado momento abriu as pálpebras pesadas, me contemplou com seus olhos cor de ouro e disse: "Entende agora por que você não podia me tocar? É que você me ama, por isso se me tocar eu morro." 
E eu o abraçava mais e mais, e ele morria. 

No dia seguinte ninguém mais viu o Homem Dourado. Havia desaparecido. Mas um novo ânimo parecia habitar todos os corações. Retomamos a jornada, encontramos o local que desejávamos, reconstruímos as nossas vidas. 
Quando nasceu o meu filho, seus cabelos loiros reforçaram a suspeita que já existia. 
Suspeita transformada em certeza assim que ele abriu os seus olhos cor de ouro e iluminou para sempre as nossas existências.
Imagem: http://paintthemoon.net

sábado, 6 de setembro de 2014

Como se escreve um best seller?

Então um dia fui a um evento literário. Palestras com temas interessantes: uma sobre microcontos, outra sobre mercado literário, outra sobre criação, etc.
Durou o dia todo. Palestrantes muito carismáticos que pareciam entender do que falavam.
Um deles se sobressaiu pela fluência e simpatia; jovem autor de sucesso que, generosamente, expôs toda a sua trajetória dando informações e dicas.
O evento encerrou-se com uma feira de livros. Comprei vários, incluindo o volume 1 da saga sobre anjos escrita pelo palestrante simpático.
Comecei a ler no metrô, mas a viagem foi curta demais e o ambiente não favorecia a concentração, por isso achei o início da história um pouco desinteressante. Em casa havia melhores condições para apreciar a obra.
Já em casa, reinicio a leitura.
“Ele era um jovem muito bonito. Tinha longos cabelos loiros e olhos tão azuis que lembravam um céu sem nuvens. Alto e forte, de pele rosada e dentes alvos como pérolas. Sua esposa também era linda. Possuía cabelos castanhos e encaracolados, sua pele era morena, suave como uma seda, e os seus olhos eram verdes e brilhantes.
Naquela manhã ele se levantou, preparou o café e chamou a esposa, que estava tomando banho:
- Venha, meu amor. Hoje preparei as panquecas que você tanto gosta.
Ela saiu do banho ainda enrolada na macia toalha cor-de-rosa decorada com lindas flores vermelhas. Estava adorável com os cabelos envoltos por uma toalha azul, como se fosse um turbante, pois tinha acabado de lavar os cabelos com um xampu muito cheiroso. “
- Ah, meu querido! disse ela. O que seria de mim se não eu não tivesse você?
Mal sabia a bela jovem que aquele seria o último dia de vida do seu amado esposo.”

Para tudo! Para tudo!
Está certo que o autor é uma graça de pessoa, mas é assim que começa o seu best seller?
Avanço mais algumas páginas. Quem sabe melhora lá na frente.
Ele não podia se conformar com aquela situação. Outros, em seu lugar, estariam felizes por terem sido alçados ao paraíso, aquele lugar divino que todos almejam e sonham em conquistar pelas suas boas ações. Mas não ele, que pensava somente em sua linda esposa, agora uma viúva inconsolável que não cessava de derramar mornas e cristalinas lágrimas de pesar e de saudade.
- Jamais desistirei de voltar aos braços daquela a quem tanto amo! bradava ele à fresca brisa que soprava suavemente à beira daquele lago tranquilo, colorido pelas luzes de um maravilhoso arco-íris, na colônia celeste para onde fôra enviado.

Parei nesse ponto. Nunca terminei a leitura. Doei o livro. Jamais saberei como se escreve um best seller.

Imagens:
http://www.taossagewaters.com
http://www.photofacefun.com
Interessante artigo sobre o assunto "best-seller"
escrito por Paulo Rónai, pode ser lido aqui.





sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Vendendo poesia

Lá estava eu num ponto de ônibus cheio de gente, vendendo os meus livros de poesia.
Escrevi três até hoje. O primeiro foi à mão. Mandei xerocar e eu mesmo grampeei as folhas.
O segundo bati à máquina lá no serviço. Depois xeroquei e grampeei.
Este terceiro levei para uma gráfica. Ficou muito bom o acabamento.
Sou um rapaz pardo. Sofro preconceito porque as pessoas não acreditam que preto também escreve poesia.
Preto pode fazer música, mas fazer poesia não faz. É isso o que a maioria acha.
Então eu estava lá oferecendo os livros para o pessoal que esperava os ônibus. Passam diversos naquele ponto, cada um pra um lugar, por isso não tem fila, só um aglomerado de gente.
Vai daí ofereci os livros para uma moça que parecia preocupada. O ônibus dela estava demorando demais, deu pra perceber.
Ela respondeu: “Não, obrigada.”
Eu insisti: “Mas por que não quer? Não gosta de poesia?”
Ela nem olhava pra mim, ficava prestando atenção pra ver se o ônibus estava chegando. Falou: “Pra dizer a verdade não gosto de poesia não.”
Mas eu estava decidido a vender alguma coisa pra ela, então apelei:
“Já sei por que você não quer comprar. É porque eu sou negro.”
Ela se sensibilizou. Não queria que eu pensasse que ela era racista. Respondeu: “Não tem nada a ver, é que não gosto de poesia mesmo, mas tudo bem, vou levar um livro seu.”
Me deu a impressão de que ela estava só querendo se livrar da amolação. Dei o livro, ela pagou, e nesse instante o ônibus dela chegou.
Na pressa de embarcar, e não tendo como ajeitar o livro no meio das coisas que carregava, ela o empurrou de volta para a minha mão e foi embora.
Ela não gostava mesmo de poesia. E acabou que me deu uma esmola para eu calar a boca.
Não gostei de ganhar esmola.

Imagens:
http://blog.serialreaders.com
http://www.mobilize.org.br

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Pequeno incidente no Sistema Solar

A estrela Sol levava um papo com o seu vizinho mais próximo, o planeta Mercúrio.
“Poxa, cara, hoje eu estou mal.”
“O que você está sentindo, Sol?”
“Uma queimação danada.”
“Deve ter sido alguma coisa que você comeu.”
“Acho que você está certo. Isso começou depois que engoli um satélite.”
“E desde quando satélite dá azia?”
“Esse era um satélite artificial construído por aqueles microbiosinhos tecnológicos do planeta Terra. Eles colocaram dentro um reatorzinho nuclear recheado de urânio com cobertura de chumbo. Sou alérgico a esses dois elementos químicos. Se pelo menos passasse por aqui algum cometa bem gelado, rico em água no estado sólido... ”
“Chi... então complicou, porque não estou vendo nenhum cometa se aproximando."
Coitado do Sol. Estava mal mesmo, com cara de que ia vomitar. Suas erupções estavam aumentando visivelmente. O planeta Mercúrio não gostou nada da ideia de ser inundado por um jato de radiação eletromagnética misturado com um monte de partículas atômicas.
“Vira pra lá, Sol! Já chega eu ter de viver nessa temperatura infernal. Mais radiação ainda não vai me fazer bem nenhum.”
O Sol, daquele tamanhão, não conseguia se virar, coitado. Mas tentou dirigir o jato pra longe de Mercúrio.
E atingiu em cheio o planeta Terra!!!
Depois desse vômito estelar ele começou a sentir bem de novo. E gritou para o planeta Terra:
“Desculpa aí, Terra! Foi sem querer! Acho que acidentalmente eliminei aquela raça de microbiosinhos tecnológicos que infestava a sua superfície.”
O planeta Terra gritou de volta:
“Tudo bem, Sol. Não se preocupe não, porque aquilo é uma praga. Deve haver milhares ainda, alojados dentro das cavernas, no fundo do mar, e em lugares que nem ouso imaginar. Logo logo vai estar tudo contaminado outra vez. Pelo menos você me livrou temporariamente daquela terrível coceira.”
Estando felizes e aliviados a estrela Sol e os planetas Mercúrio e Terra, tudo voltou ao normal no Sistema Solar.

Imagem: http://thelandofenglish.blogspot.com.br

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Amanda e sua mãe

           Amanda morreu não pela doença, mas porque não precisava viver. Não tinha nada o que fazer neste mundo. Senti isso, de alguma forma, desde que ela nasceu.
           Jamais sorria, só olhava. Com aqueles olhos grandes e cinzentos que pareciam penetrar tudo.
           Aprendeu tarde a falar. Na verdade, nem sei quando aprendeu. Um dia, com quase dois anos, simplesmente falou. Alguém lhe fez uma pergunta esperando ouvir aquela pronúncia engraçada das crianças, mas ela respondeu perfeitamente, articulando bem as palavras e o raciocínio.
           Quase caí pra trás. Quem lhe ensinou? Eu, com certeza, não fui. Pai não tinha para lhe ensinar nada. Então como? Só posso imaginar que foi pela observação, prestando atenção nas conversas.
           Isso aumentou um pouco a sensação de desconforto que me causava. Eu sentia que ela me observava e analisava, que sabia quando eu estava mentindo. Mesmo naquela idade, quase um bebê.
           Nunca me chamou de mãe. Sempre que precisava falar comigo, me chamava pelo nome. Nunca perguntou pelo pai. Nunca me pediu nada. Só vivia. E observava. Era assustador.
           Quando foi para a escola, as professoras diziam que ela era quieta e não fazia perguntas. Em compensação, entendia tudo, o que ficava demonstrado pela perfeição dos trabalhos e das lições. Que aliás nunca ajudei a fazer. Nunca me pediu, nunca me ofereci. Se tivesse pedido alguma vez, eu teria ajudado, mas parecia não precisar de nada, então deixei de lado essa preocupação.
           Engraçado é que na escola ela era querida pelos colegas. Interagia bem, brincava e ensinava as coisas que os outros achavam difícil, como aritmética. Quando me contaram, nem acreditei. Amanda brincando e conversando com as outras crianças? Nem dava pra imaginar.
           Então ficou doente. Ninguém lhe falou da gravidade da doença, mas ela sabia. Porque sabia tudo. Já nasceu sabendo tudo.
           Era horrível ficar perto dela nessa época porque ela me observava com os grandes olhos cinzentos e me analisava e obviamente já tinha adivinhado que a sua futura ausência seria um alívio para mim. É terrível dizer isso, mas era verdade.
           Horas antes da sua morte, quem fez uma adivinhação fui eu. Ou assim pensei.
           Pelo jeito que me olhava achei que ia me fazer uma pergunta. Que ia perguntar pelo pai. Fiquei nervosa, não queria falar do pai dela, nem mesmo naquele momento extremo.
           Então me chamou:
           “Alzira.”
           Me preparei para a pergunta.
           “Onde está a minha mãe?”
Imagem: http://sigulu.blog.uol.com.br

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Tesouro

Aquele menino adorava coisas brilhantes e reluzentes. Juntava caquinhos de vidro, continhas perdidas de colar, fragmentos de correntinhas quebradas e tudo o mais que se parecesse com pedras e metais preciosos.
Já que não tinha um baú de pirata e nenhuma caixa de madeira, colocava tudo dentro de uma lata vazia de leite em pó, bem tampadinha.
Uma noite, na hora de dormir, contou à avó que havia brincado de pirata e enterrado o seu tesouro perto da goiabeira, lá no fundo do quintal.
Sua avó coçou o queixo, muito pensativa. E perguntou:
“Por acaso tem alguma moeda nesse tesouro?”
“Tem sim, vó. Aquelas duas moedinhas que ganhei do padrinho.”
Ela pareceu preocupada.
“Olha, meu filho, não presta enterrar dinheiro, viu? Se a pessoa morrer, ela tem que voltar lá da outra vida pra pedir a alguém que desenterre, senão sua alma nunca vai ter descanso.”
O menino arregalou o olho, assustado. Jogou pra longe as cobertas e correu, descalço mesmo, pra desenterrar a sua latinha. Logo ele, que tinha medo de escuridão. Mas nessa hora não pensou nas assombrações nem nos bichos nem em nada. Sequer lembrou-se de levar a sua pazinha. Passou por debaixo da parreira de chuchu, pisou sem dó no canteiro de cebolinha, chegou perto da goiabeira e cavou com as mãos, bem depressa. Ainda bem que o buraco era raso e a terra ainda estava fofa.
Voltou pra dentro com a latinha; o pijama sujo de terra, os pés e as mãos em triste estado.
“Menino, que desespero foi esse? Não precisava tanta pressa pra desenterrar!”
“Precisava sim, vó. No catecismo ensinaram que a gente tem que rezar de noite porque se morrer dormindo a alma vai pro céu. Quer dizer que a gente pode ir dormir vivo e acordar morto. Então imagina se eu morresse dormindo com o tesouro enterrado! Ia ter que voltar e pedir pra senhora desenterrar.”
“Então eu desenterrava, ué! Você pensou que eu ia ficar com medo do seu fantasma? Não ia não!”
“Eu sei, vó. Mas o perigo é que se eu voltasse pra cá, podia não achar o caminho de volta para o céu. Já pensou eu virar alma penada? Cruz credo!”
“Eita menino inteligente!”, conjecturou a avó, toda orgulhosa. “Pensa em tudo! Esse quando crescer vai ser doutor.”

Imagem: http://embracinglife-rose.blogspot.com.br

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Despertar

Qual era a idade dele? Uns treze anos...
Há quanto tempo ele tinha treze anos? Não se lembrava. Também não se lembrava da última vez em que tinha dormido. Gostaria muito de conseguir dormir, mas não conseguia mais.
A casa onde morava era velha, decrépita. Havia gente demais lá. Ele não gostava de companhia, preferia vagar pelos arredores. Não pareciam sentir falta dele, então muitas vezes nem se preocupava em voltar à noite.
Seu local preferido para passar o tempo era a torre de uma igreja em ruínas, bem na beira do bosque. Ninguém entrava lá por medo das aranhas e morcegos, mas ele não tinha medo nenhum. Ficava no alto, olhando pela janela, esperando as horas passarem e a noite chegar. Não para dormir, que não conseguiria mesmo, mas a escuridão era de certo modo aconchegante.
Quase todos os dias, sempre à tardinha, bem na hora do sol se por, um casal de jovens se aproximava. Eles se sentavam em uma pedra e ficavam namorando singelamente. Depois iam embora de mãos dadas.
Ele ficava imaginando os dois casando-se, formando um lar com muitos filhos. Que sorte teriam os filhos desse casal. Pais amorosos, um lar harmonioso. Felicidade completa.
Certo dia, ao se aproximarem da pedra, pareciam diferentes. Ele não soube distinguir o que era, mas definitivamente havia alguma coisa diferente no modo como se comportavam.
Ficaram pouco tempo ali e logo foram embora, de mãos dadas como de hábito. Mas em vez de tomarem o caminho de sempre, desapareceram por entre as árvores.
Ele ficou lá olhando as copas do bosque sem enxergar mais o casalzinho. Minutos depois foi ficando com sono... há quanto tempo não sentia sono? Nem se lembrava mais... Mas agora estava com sono. Foi se deitando, se enrodilhando no chão, fechando os olhos...
Quando acordou, estava deitado em um berço. Sentia-se muito bem, aquecido e confortável. Duas pessoas olhavam ansiosamente para ele. Procurou abrir bem os olhos e viu que as pessoas sorriram. Reconheceu claramente: era o casalzinho do bosque.
A moça se aproximou, pegou em sua mãozinha e disse suavemente:
“Meu filhinho...”
Imagem: http://hostingkartinok.com