Onde comprar "Os meninos da Rua Beto"



Divirta-se com um livro diferente de todos que você já leu!

"OS MENINOS DA RUA BETO"

acesse:

http://inquietovagalume.blogspot.com.br/p/os-meninos-da-rua-beto.html

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terça-feira, 29 de julho de 2014

O estranho bolo que sangrou - "Os meninos da rua Beto"

Imagem: http://loveswah.com
O que poderia explicar este fato extraordinário?!

A festa de casamento transcorria em clima de paz, alegria e fraternidade, mas de repente...

Aquele lindo e inocente bolo transformou-se em fonte de terror e medo!!!

Por que teria sangrado o bolo de casamento?

Que bruxaria era aquela?

Que terrível vingança estaria sendo perpetrada?

Quais foram as consequências desse ato de pura maldade?

Os culpados foram descobertos?
Ou não?
Foram castigados?
Ou não?!

Descubra a solução deste mistério em

"Os meninos da Rua Beto"

LANÇAMENTO: 23a BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE SÃO PAULO
Estande da Editora Scortecci - Avenida 1, Rua J
30/08/2014 - sábado - das 13h00h às 15h00h

HiStÓrIaS dE uM tEmPo Em QuE aS cRiAnÇaS bRiNcAvAm Na RuA

O ataque da batata mutante

Era uma vez um ET que morria de vontade de comer batata frita.
Os seres humanos abduzidos, levados lá para o seu planeta, viviam dizendo que sentiam muita falta de batata frita. Por isso o extraterrestre chegou à conclusão de que só podia tratar-se de algo muito delicioso. A curiosidade foi aumentando e ele resolveu obter esse alimento dos deuses durante a sua próxima missão na Terra.
Infelizmente o comandante da nave não o deixou sobrevoar nenhuma lanchonete devido ao perigo de o ovni (Objeto Voador Não Identificado) ser visto por alguém. Porém esse ET era muito espertinho, e aproveitou a chance quando o comandante ordenou que fossem a uma plantação a fim de fazer alguns “crop circles”. Então ele deu um jeito de sobrevoar justamente uma plantação de batatas. O seu plano era abduzir algumas e fritá-las sobre a carapaça de uma válvula Klystron na casa das máquinas da nave.
Pena que não deu certo. Na horinha em que o raio abdutor havia sido acionado, o comandante apareceu e perguntou, demonstrando grande irritação:
― XVBUTPWQ!!! O que você está fazendo com esse raio abdutor ligado?? Desligue já! Nós não vamos abduzir ninguém desta vez! Não leu o plano da missão?
O pobre XVBUTPWQ, muito decepcionado, desligou o raio. Mal sabia ele que já havia atingido uma planta, a qual fez um breve movimento ascendente mas logo caiu de volta. Até aí tudo bem. O problema é que o DNA do pé de batata havia sido alterado pela ação do raio.
Dias depois, quando todos os ufólogos da região já haviam examinado aqueles “crop circles” e ido embora finalmente, para alívio dos agricultores, as batatas puderam ser colhidas. A planta com DNA modificado produziu uma única, bem grande e lisinha, que foi colocada junto com as demais no depósito.
Porém uma coisa estranha aconteceu de madrugada! A batata mutante criou dois bracinhos, duas perninhas e abriram-se em sua “cabeça” dois olhos e uma grande boca.
Ela sentou-se, olhou em volta e gritou:
― Levantem-se, suas estúpidas! Vamos dominar o mundo!
As suas colegas não fizeram nada. Ficaram lá paradas, como se fossem um monte de... batatas!
A mutante ficou exasperada. Deu uns chutes naquelas mais próximas, atirou outras lá do alto do monte, gritou e berrou, mas não conseguiu ser ouvida. Por isso tomou uma decisão radical:
― Não querem fazer nada, suas idiotas? Vão ficar aí para serem devoradas pelos humanos? Já que é assim, eu vou sozinha vingar a nossa raça!
Nesse instante ela começou a crescer, a crescer, e transformou-se em uma batata monstro. Quebrou a parede do depósito e foi embora em direção à cidade. Estava a fim de devorar alguns humanos, por isso tomou o rumo da lanchonete de “fast food” mais próxima.
Enquanto ia andando pela estrada, os motoristas dos carros, ônibus e caminhões, muito assustados, batiam uns nos outros, aceleravam tentando fugir, alguns desmaiavam, e uma grande bagunça se estabeleceu. Alguém com mais presença de espírito telefonou à polícia avisando sobre o grande perigo prestes a se abater sobre a cidade.
Nesse meio tempo a batata monstro avançava com alguma dificuldade porque os bombeiros já estavam jogando jatos de água sobre ela, tentando detê-la. Apesar de tudo, não perdia a prosápia:
― Isso mesmo, humanos estúpidos! Eu adoro banho de água fria!
E continuava em frente, devagar porém resoluta. Ao atingir o centro da cidade os aviões da força aérea já a sobrevoavam.
― Pare onde está, batata monstro, ou seremos obrigados a jogar uma bomba sobre você!
Ela olhou para cima, fez um gesto obsceno na direção dos aviões, e continuou seu caminho.
Não tiveram escolha. Jogaram o projétil sobre a batatona. Numa demonstração de que não estava nem aí, ela abriu a enorme boca e simplesmente o engoliu. Depois ainda deu uma lambida nos beiços e disse:
― Delicioso! Quero mais!
Pobre e infeliz tubérculo. Toda aquela arrogância não lhe serviu de nada. Assim que chegou à sua barriga, a bomba explodiu.
O que aconteceu em seguida? Uma grande quantidade de batata frita voou em todas as direções. Uma nuvem de batata frita obscureceu o céu. Começou a chover batata frita e o povo correu a fim de recolher a maior quantidade possível.
― Batata mutante é muito mais gostosa, diziam todos.
O entusiasmo era tanto que ninguém percebeu um ovni parado logo acima do local da explosão. E ninguém ― nem mesmo o comandante ― reparou quando um bracinho longo se espichou para fora da janelinha redonda, e uma mão cinzenta com três dedos muito compridos catou uma bela porção de batata frita. 

Imagem: http://cryptid-creations.deviantart.com

segunda-feira, 28 de julho de 2014

O gatinho Mimi

Aos dez anos de idade Luizinha nunca tivera um bichinho de estimação. De pelúcia sim - às dezenas - mas nunca um bichinho de verdade. Por isso ficou tão eufórica quando apareceu em seu jardim aquele gatinho perdido. Era todo pretinho, de olhos azuis, o animalzinho mais lindo do mundo.

Seus pais esclareceram quais seriam suas responsabilidades caso adotasse o gatinho, e ela aceitou todas. Colocou-lhe o nome de Mimi e passou a paparicá-lo incessantemente, com entusiasmo quase obsessivo. O gato deixava-se paparicar, dando apenas breves escapulidas quando se cansava do apego exagerado.

Tal situação não durou muito, porém. Luizinha teve uma terrível decepção com Mimi poucos dias após sua chegada. Estavam no jardim quando uma barata veio da rua e passou perto deles. A menina deu um grito, mas Mimi foi atrás e abocanhou o bicho. Para o completo horror de Luíza, não apenas abocanhou como também comeu o inseto asqueroso.

Ela correu para a casa chorando e gritando. Contou o que tinha acontecido e disse que nunca mais queria ver Mimi na sua frente. O pai explicou-lhe que não havia nada de anormal no comportamento do gato, era assim mesmo que acontecia, os animais não têm noção das coisas e não se pode esperar deles o que se espera de seres humanos.

A menina não quis saber de nada, só queria se ver livre daquele gato nojento. O pai pegou Mimi, levou embora, e nunca foi perguntado sobre que destino havia dado ao gatinho.

Luíza cresceu e tornou-se uma mulher bem sucedida, mas ainda não se realizou afetivamente. Parece que não tem sorte no amor. Seus relacionamentos são breves e insatisfatórios. Quanto tenta lembrar de alguma paixão verdadeira em sua vida, só lhe vem à mente uma pessoa...

Ele era médico recém-formado. Tinha horários de trabalho muito longos, o que dificultava as coisas. Mas gostava de Luíza e fazia o possível para estar com ela.

Uma vez ele ligou e disse que não podia vê-la. Estava saindo de um plantão de vinte e quatro horas. Não tinha condições de ir visitá-la. Ela achou um absurdo, queria vê-lo e não admitia ficar sozinha aquela noite.

Ele foi, mas estava com uma aparência péssima, o que irritou a moça. Mais irritada ficou porque ele lhe respondia com monossílabos, embora procurasse sorrir e manter focalizado o olhar. Logo adormeceu no sofá, demonstrando total desconsideração. E, horror dos horrores, começou a roncar! Quando se aproximou para acordá-lo sentiu cheiro de suor. Foi tomada de grande repugnância e percebeu a impossibilidade daquele relacionamento. Acabou assim aquele namoro.

(Coisa mais estranha... sempre que pensa nele vem junto a lembrança do gatinho Mimi... Deve ser porque os dois tinham olhos azuis.)

Imagem: http://www.zastavki.com

domingo, 27 de julho de 2014

Dize-me onde moras...

Seu Lúcio é um homem de meia-idade, trabalha como taxista e está quase se aposentando. Não sei como andam as suas ideias hoje em dia, mas quando jovem ele tinha muitas opiniões e, principalmente, muitas certezas.

Uma dessas convicções era a de que a aparência conta, e conta muito. De tal forma que pode-se fazer juízo de valores e até prognósticos com base na aparência da pessoa ou do local onde mora ou trabalha.

Lá na rua do bairro onde ele vivia as casas não eram bonitas, com exceção de uma única. Todas as outras classificavam-se em moderadamente feias, bastante feias ou passáveis. O destino dos indivíduos, segundo Lúcio, ligava-se diretamente ao estado de suas residências, já que a personalidade das famílias - empreendedoras ou acomodadas ou explicitamente preguiçosas - revelava-se em suas fachadas.

Uma dessas casas, enquadrada na categoria das moderadamente feias, abrigava um ex-seminarista que, tendo desistido de ser padre, planejava agora seguir a carreira de engenheiro. A família era grande, todos trabalhavam e apoiavam o sonho do jovem.

Um dia o Lúcio, subindo a rua em companhia de um colega, apontou para lá e disse, com um sorriso de pouco caso: “Seja sincero, você acha que dessa casa vai sair um engenheiro?”

O colega não respondeu nem que sim nem que não, já que ele próprio tinha sonhos não menos audaciosos.

O tempo passou, o ex-seminarista tornou-se engenheiro. Lá no final da rua, uma mocinha cuja habitação era bastante feia, virou bióloga. O colega mencionado acima formou-se em física nuclear.

Esqueci de dizer que a casa de Lúcio não era feia nem bonita, era passável.

Imagem: http://almaacreana.blogspot.com.br

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Passeio à tarde


          Vamos andando pela alameda enquanto ele me conta, com segurança e tranquilidade, o seu estilo de vida. É um senhor idoso mas de porte elegante, com voz firme e suave. Pelo seu modo de falar fica evidente que tem cultura.
           “Eu moro em uma unidade residencial muito satisfatória. Fica no centro de uma área verde. No entorno, a vegetação é baixa. A altura da vegetação é proporcional à distância da residência, indo da grama rasteira próxima à porta de entrada aos arbustos floridos de porte médio, no limite do jardim. Para além, o bosque típico de região temperada, nem muito denso nem muito alto. Não há espécies animais nessa região, apenas pequenos pássaros e borboletas.”
          Eu demonstro interesse:
           “Não fica muito isolada, essa residência?”
           “Sim, mas a unidade é autossuficiente. Tem fonte de energia própria, que abrange as modalidades eólica, geotérmica e solar. A fonte de água fica ali mesmo na propriedade, com purificação automática acoplada, incluindo o aproveitamento da água da chuva. O processamento de resíduos também é automatizado e totalmente eficiente.”
          Fico curiosa e quero saber mais:
           “Deve dar muito trabalho manter tudo isso funcionando. O senhor tem empregados?”
           “Não tenho empregados. Para o funcionamento pleno de todo o aparato é necessário apenas fazer manutenção a cada cinco meses, quando também é substituída a bateria de emergência e renovado o estoque de alguns tipos de alimentos. A maioria dos recursos nutricionais eu mesmo cultivo nas cercanias da unidade.”
          Não consigo deixar de elogiar:
           “A descrição que o senhor me faz é admirável. O local me parece um paraíso.”
           “É o meu paraíso. Pretendo voltar para lá em pouco tempo. Assim que terminar os assuntos que requerem a minha atenção por aqui.”
          Nessa altura já estamos de volta à casa onde ele está hospedado. Vem nos encontrar, toda sorridente, uma das auxiliares de enfermagem:
           “Foi bom o passeio, professor? Está uma tarde muito bonita, não? Agora é hora de jantar. Vamos lá?”
          O professor vira-se para mim, estende a mão e se despede:
           “Obrigado pela companhia, doutora. Foi muito agradável a nossa conversa.”
           “Para mim também, professor. Amanhã nos vemos outra vez.”
           “Assim espero. Boa noite.”
          E lá se vai ele ao lado da auxiliar de enfermagem. Professor de engenharia. Sua mente não resistiu à perda do filho. Que bom ele ter construído uma unidade residencial tão perfeita e confortável naquele local maravilhoso, com flores, pássaros e borboletas. Seu paraíso particular. Para onde voltará após o jantar, assim que for levado ao seu quarto de dormir, nesta casa de repouso.
Imagem: http://www.independent.ie

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Barquinho furado - "Os meninos da rua Beto"

Ilustração: João Paulo Cabral Teixeira

O que terá acontecido a esses dois jovens sem noção do perigo que saíram da periferia da zona leste de São Paulo e foram à represa de Guarapiranga (do outro lado da cidade) escondidos dos pais?
E que navegaram em uma canoa furada, e ainda acharam legal?
Saíram vivos da aventura? Ou não? Os pais descobriram a traquinagem? Ou não? Os meninos levaram umas boas palmadas? Ou não?
Descubra o final deste emocionante episódio, baseado em fatos reais, em "Os meninos da Rua Beto"!

LANÇAMENTO: 23a BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE SÃO PAULO
Estande da Editora Scortecci - Avenida 1, Rua J
30/08/2014 - sábado - das 13h00h às 15h00h

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segunda-feira, 21 de julho de 2014

Flores de maracujá

No fundo de uma chácara vivia um pé de maracujá. Em um dos seus ramos desabrocharam duas flores. Uma era grande, bonita, perfeita. A outra, que deveria ser sua irmã gêmea, sofreu ataque de um inseto ainda quando em botão, por isso ao abrir-se estava defeituosa e feia. Porém, já que os seus órgãos vitais não haviam sido prejudicados, existia a possibilidade de que frutificasse normalmente.

A esse respeito conversavam dois passarinhos pousados ali perto. Tudo leva a crer, diziam eles, que a flor bonita será logo polinizada e transformada em um belo fruto. A outra também será polinizada, afinal os insetos não escolhem as flores pela sua perfeição, mas o seu fruto não será tão grande e saudável.

Estavam nessa conversa quando se aproximou do pé de maracujá um garotinho, filho do dono da chácara. Ele olhou, olhou... parecia estar procurando alguma coisa no meio das folhas.

Que garoto mal informado! - refletiram os passarinhos. Não vê que ainda não é tempo de fruta? Vai ter que esperar mais um pouco para apanhar os maracujás.

Então, de repente, o garotinho colheu a flor bonita!

Os passarinhos levaram um susto! Essa não! Como pode esse menino estragar tudo assim? O fruto mais bonito dessa planta não vai mais existir! Que perda lamentável!

Um dos passarinhos ficou muito intrigado e resolveu investigar. Por que alguém colhe uma flor de uma planta frutífera assim, tão insensivelmente? O que o menino pretende fazer com ela? Será que vai comê-la? Existe salada de flor de maracujá? Que intrigante!

E lá se foi ele voando atrás da criança que levava com muito cuidado aquela flor, como se fosse uma joia delicada. Minutos depois o passarinho voltou para contar ao colega o que vira.

Amigo, disse ele, o menino entrou na casa e eu o perdi de vista. Fui olhar pelas janelas para ver aonde ele tinha ido. Foi para o quarto da avó. Coitada da velhinha, está de cama. Fiquei observando e prestando atenção. Ele entregou a flor para a avó. Ao recebê-la ela deu uma risada de alegria, e disse que estava muito feliz porque era a sua flor predileta. E que aquela era a mais linda de todas, especialmente porque tinha sido colhida pelo seu netinho tão querido. Depois o abraçou e lhe deu um beijo.

Dito isso, os passarinhos voaram e foram embora.

A história não termina aqui, mas não sei o que aconteceu depois.

Será que a velhinha curou-se, de tão feliz que ficou com a flor oferecida pelo neto? Será que a flor bonita viveu ainda muito tempo dentro de um copo d’água em cima do criado-mudo?

Ou será que a velhinha morreu e a flor enfeitou o seu caixão?

A flor feinha, o que terá acontecido a ela? Foi polinizada? Ou murchou sem se transformar em fruto? Caso tenha frutificado, terá sido um fruto saudável que virou um delicioso suco - ou talvez comida de pássaro, espalhando suas sementes para germinarem por aí? Ou será que caiu ainda verde do ramo em uma tarde de chuva?

Impossível ter certeza sobre o que aconteceu. Só existe uma coisa certa nesta vida: raramente as coisas acontecem como parece que vão acontecer.

Indiferente a todas as incertezas, o pé de maracujá continuou lá, florescendo lindamente a cada primavera.

Imagem: http://anidri-villa-southwest-crete.blogspot.com.br

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Devaneios da rainha encarcerada

Tenho um vestido de veludo verde-escuro; é um modelo simples e elegante.
O vestido é confortável e não muito pesado. Fica ainda mais bonito com o meu colar de diamantes.
Os diamantes não são grandes nem numerosos, mas belos e perfeitos; estão montados sobre um suporte de prata escurecida;o contraste é notavelmente agradável aos olhos.
Os cabelos devem ficar presos. Pode-se usar uma rede de prata fosca para um brilho discreto. Os brincos combinam com o colar, um único diamante em cada um dos brincos pequenos e fixos.
Os anéis que uso com esse vestido são de esmeraldas, grandes esmeraldas quadradas, dois anéis em cada mão ou dois em uma e três na outra, no máximo.
Os sapatos são altos e enfeitados com seda branca. Por baixo eu trago uma camisa longa, diáfana, com finas rendas na barra. Se algum movimento soerguer o vestido, vai revelar a belíssima renda bordada com fios de ouro.
Imagem: http://www.art.com/

Os meninos da Rua Beto: capa do livro

LANÇAMENTO: 23a BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE SÃO PAULO
Estande da Editora Scortecci - Avenida 1, Rua J
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quinta-feira, 17 de julho de 2014

Bibi

Uma certa manhã, naquele estado entre o sono e a vigília, naqueles momentos em que a realidade e o sonho dissolvem os seus contornos e se misturam, ouvi uma criança gritando angustiadamente:

“Bibi! Bibi! Bibi!”

Era tão triste o seu chamado, tão tocante e doído, que tive certeza de ser a expressão de uma grande perda.

Quem era Bibi, para essa criança? Uma babá, uma irmã, uma amiguinha?

Quem quer que fosse, era alguém que estava indo embora. Ou que já tinha ido. Para não voltar.

Ela continuava chamando: “Bibi! Bibi! Bibi!”

A sua tristeza começou a entrar em mim e passei a sentir a sua dor. Existe maior padecimento do que a perda de alguém que se ama? É uma noite fria que entra no coração e lá permanece para sempre. Uma escuridão e um desamparo que jamais cessarão.

Acordei. Não era uma criança gritando. Era um passarinho cantando. O seu canto havia fluído para dentro do meu sonho e lá foi transmutado em um lamento de adeus.

Se não existia criança, se não existia Bibi, de onde tinha vindo toda a melancolia que experimentei?

Quem era a minha Bibi?

Imagem: http://www.leisacollins.com

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A bruxa, o dragão, a sapinha e a princesinha

          Há muito, muito tempo, na época em que os bichos falavam, existia uma bruxa neurótica e desagradável que morava em uma campina verde e florida. Toda vez que ela se irritava com alguém ou com alguma coisa, fazia a mágica da transformação só para se vingar.
          Uma vez, por exemplo, deu uma topada numa pedra e machucou o dedão. Não foi culpa da pedra, é claro, mas ela se irritou e... PLAFT!!! Transformou a pedra num monte de cocô. Bem feito que a varinha dela ficou toda suja de cocô, mas aí ela transformou a sujeira em uma nuvem de moscas que voaram para longe, deixando a varinha limpa de novo.
          Todo mundo tinha medo da bruxa neurótica porque ela era imprevisível e malvada. Já havia um monte de coisas transformadas por ali, o que não era nada legal.
          Então um dia ela recebeu uma carta anônima que dizia assim: “Dona bruxa, a senhora vive irritada por um motivo muito simples: as belezas desta terra não combinam com a sua pessoa. Um local muito melhor para a senhora viver é lá na cratera do vulcão. Não existem criaturas vivas, só pedras, e o ar tem cheiro de enxofre dia e noite porque nem ventinho entra lá.”
          A bruxa ficou irritada porque a ideia era muito boa e alguém tinha pensado naquilo antes dela. Fez uma bruxaria para descobrir o autor da carta, foi lá e disse:
           “Você é muito enxerido, viu? Só por causa disso vou te transformar num dragão!” ZAPT!!! Transformou o autor da carta em um dragão!
           “Dona bruxa - perguntou ele, deveras chateado - como se desfaz este encantamento?”
           “Você só vai voltar ao que era se uma princesa der um beijo no teu focinho! Mas qual princesa vai ter coragem de chegar perto de um dragão? Ha ha ha ha ha ha ha!!!“
          Gargalhando feito louca ela montou na vassoura e foi embora voando, direto para a cratera do vulcão.
          Enquanto isso acontecia, uma sapinha observava de longe, bem escondida. Quando o dragão ficou sozinho ela se aproximou e disse:
           “Meu príncipe! Que maldade ela fez com você! Como posso te ajudar?”
          O dragão, todo triste, contou sobre o método de desencantamento, dizendo que nenhuma princesa ia querer beijar o seu focinho. Mas a sapinha afirmou que ia ajudá-lo.
           “Como vai me ajudar, querida sapinha?”
           “Vou até o castelo da princesa, conto para ela o que aconteceu, e ela vem aqui te desencantar.”
           “Mas é uma viagem muito longa e perigosa!”
           “Não faz mal. Sou corajosa e vou te ajudar, meu príncipe!”
          Disse e fez. Superou todos os obstáculos e conseguiu chegar ao jardim do palácio da princesa. Ficou lá quietinha perto do lago onde a princesa ia brincar todos os dias. Esperou pacientemente, e por fim conseguiu se aproximar e contar a ela toda a história do dragão.
          A princesa mostrou-se bastante interessada:
           “Quer dizer que o seu príncipe foi transformado em dragão? Coitado! Claro que vou ajudar. Ele era bonito antes da transformação?”
           “Muito bonito! O mais bonito de todos!”
          Imediatamente a princesa pegou a sapinha, colocou-a lá no alto da cabeça, bem no meio da sua coroa, e falou:
           “Então você me ensina o caminho que vamos agora mesmo!”
          Dessa vez a viagem foi bem mais rápida porque a princesa tinha pernas muito mais compridas que a sapinha, e além disso estava apressada.
          Chegando lá, a sapinha chamou:
           “Meu príncipe, saia de onde estiver que a princesa já está aqui pra te desencantar!”
          O dragão saiu de trás de uma grande pedra onde estivera escondido e se aproximou devagarinho, meio envergonhado. Mas a princesa não se intimidou, foi até ele e lhe deu um grande beijo no focinho. TÓIMMMM!!! O dragão desencantou!!!
          A princesinha levou um susto e não entendeu nada.
           “Sapinha, o que saiu errado? Ele virou sapo!!!”
           “Não, princesinha, eu não virei sapo! Eu sempre fui sapo. A bruxa malvada me transformou em dragão mas eu era um sapo.”
          Enquanto isso a sapinha já tinha corrido para abraçá-lo, e não parava de dizer:
           “Meu príncipe! Meu príncipe!”
          Final da história: apesar da decepção, a princesa acabou achando muito fofo aquele casalzinho de sapos e os convidou para morarem lá no lago do palácio. Eles foram e povoaram tudo aquilo com muitos sapinhos graciosos. E a princesa ficou feliz.
          A bruxa também ficou feliz morando na cratera do vulcão. Os únicos seres viventes que lhe faziam companhia eram as moscas que surgiram daquele cocô grudado em sua varinha.
          Os habitantes daquele lugar bonito também ficaram felizes. Todas as coisas e seres transformados se destransformaram, e todos viveram felizes para sempre.

Imagem: http://kiddiescornerdeals.com

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O caminhãozinho do Porpeta

Trecho do livro Os meninos da Rua Beto

Janeiro de 1960

          Morava lá no bairro um jovem de origem italiana que atendia pelo apelido de Porpeta. Certa vez ele comprou um caminhãozinho Ford 38 em muito mau estado, e no dia seguinte, quando foi dar partida, constatou que o veículo não andava. Chamou então a molecada para empurrá-lo e fazê-lo pegar no tranco.
          Empurraram sem dificuldade, e assim conseguiram subir e descer a rua algumas vezes, com o caminhãozinho “pegando” e “morrendo” intermitentemente.
          Uma hora, quando estavam descendo, o Porpeta perdeu o breque! Para mal de seus pecados no fim da rua ficava um córrego, e foi lá mesmo que ele caiu.
          Esse córrego era estreito e raso, de maneira que apenas as rodas dianteiras mergulharam na água suja; o chassi ficou apoiado no barranco com as rodas traseiras no ar. O rapaz, que por sorte não tinha se machucado, pôde sair com facilidade.
          Aquele não era mesmo um dia promissor, porque ia passando uma viatura de polícia, e os policiais foram investigar aquele ajuntamento de gente. Não gostaram muito do que viram e requisitaram os documentos do veículo.
          Ora, o Porpeta era um rapaz honesto, e não hesitou em apresentar “os documentos”. Era um papel comum onde estava escrito, em letras de mão:
Este caminhão pertence ao Porpeta.
Assinado, Galocha.

          A polícia achou aquilo um tanto irregular e resolveu guinchar o veículo e levá-lo para as devidas averiguações. O Porpeta começava a ficar muitíssimo chateado com o rumo dos acontecimentos...
          Veio o guincho, mas não tiveram sucesso em retirar o caminhãozinho porque, onde quer que prendessem o gancho, na hora de arrastar só conseguiam arrancar o respectivo pedaço, de forma que na margem do córrego foram se empilhando partes e mais partes do infeliz veículo. O objeto mais volumoso de toda a pilha era o eixo junto com as rodas, porque o resto ficou totalmente fragmentado.
          O coitado do Porpeta ia assistindo à depenação do seu querido caminhãozinho e não podia fazer nada. Mas ninguém é de ferro: chegou uma hora em que ele não aguentou mais e começou a xingar, e a cada xingamento jogava alguma peça de volta no córrego. A molecada, solidária com o amigo, ajudava quando a peça era pesada demais.
          Nessas alturas a polícia desistiu de tomar outras providências, achando melhor ir embora e esquecer o assunto. Ficou lá o Porpeta, entulhando o córrego com sucatas e desabafando os seus mais íntimos sentimentos.
          Acabou-se o caminhãozinho. Em compensação, estava criado um verdadeiro parque de diversões, porque o córrego sendo raso permitia acesso a todas aquelas preciosidades: volante de direção, pneus, cabine, carroceria, etc.
          Durante um bom tempo aquele entulho ficou lá, para alegria geral da molecada.

Imagem: arquivo pessoal

domingo, 13 de julho de 2014

Infância roubada

Ele era criança numa época em que a infância se estendia até os treze, quatorze anos.
Ele tinha doze. Mais bonito do que o seu irmão mais velho, e bem mais infantil.
Brincávamos todos juntos, a molecada da rua.
Um dia houve uma quermesse na igreja do bairro; quase todo mundo foi. Na hora de voltar para casa, já tarde da noite, descobriram que o menino tinha desaparecido.
Não existia telefone nas redondezas; só se podia bater nas portas das casas, uma a uma, perguntando se alguém o tinha visto em algum lugar.
Apenas na manhã seguinte, quando foram pedir ajuda a uma amiga da família, descobriram onde ele havia passado a noite.
Essa amiga era uma senhora viúva, sem filhos, que morava sozinha. Ele estava lá, e chorava pedindo para não voltar pra casa.
Foi trazido de volta, mas passou dias sem sair à porta. Quando saiu, estava triste, distante. Tentou brincar como sempre, mas não era mais a mesma coisa.
A pedófila não foi denunciada. Se a vítima tivesse sido uma menina, ou o agressor um homem, é provável que os pais tivessem dado parte à polícia. Mas, do jeito que aconteceu, ficou por isso mesmo.
A família mudou-se de lá. Nunca mais o vimos. Espero que ele tenha conseguido, de alguma forma, reencontrar a sua alegria.
Imagem: http://www.leegallery.com

sábado, 12 de julho de 2014

Persistência bacteriana

Ela era uma bactéria vivendo junto com outras bactérias dentro de uma gota de muco nojento, em um canto esquecido de um vaso sanitário. De um banheiro público.
Mas alguma coisa diferente acontecia com ela, que não se conformava em estar ali parada.
“Quanto tempo vamos ficar aqui, sem infectar ninguém? Não aguento mais!”
As outras tentavam ser pacientes:
“Não tem jeito, companheira. A gente caiu aqui neste lugar meio afastado, então é difícil que alguém sente em cima de nós. A não ser que o faxineiro arraste a meleca um pouco mais pra lá.”
A bactéria recalcitrante se exasperava:
“Então vocês se conformam em ficar aí, torcendo para o faxineiro arrastar a meleca? Já pensaram que ele pode fazer um serviço bem feito e mandar a gente pro esgoto? Quanto tempo vai demorar para termos a chance de invadir outro corpo, se cairmos no esgoto? Nem sei se vou viver tanto tempo!”
Era difícil manter a paciência com aquele organismo unicelular desassossegado! Mas as colegas insistiam:
“Para com isso, cara! Nunca que o faxineiro vai fazer um serviço bem feito! De duas uma: ou a meleca vai secar e todas nós morreremos desidratadas, ou antes disso seremos conduzidas para um lugarzinho - digamos - mais aconchegante. O jeito é esperar.”
Mas ela não queria esperar, queria agir!
Foi nadando com esforço em direção à borda da gota de muco. Ao chegar lá viu que não era tão simples transpor a superfície. Parecia que uma cola a puxava de volta quando forçava a passagem através da película ainda mole, porém adensada pela contínua evaporação. As outras tentavam incansavelmente colocar algum juízo naquelas organelas:
“Não vê que se você sair da meleca acabará secando rapidinho? Se é pra morrer, fique aqui mesmo, porque vai demorar mais. Lá fora você não tem chance!”
Mas ninguém conseguiu convencer aquela eucariota enlouquecida.
E tanto ela fez, e tanto pelejou, que conseguiu. Depois de um tempo inimaginável e de um esforço incomensurável, viu-se do lado de fora da gota. E - surpresa agradável! - não estava sobre uma superfície seca, mas sim sobre uma reconfortante umidade proveniente de algum jato mal direcionado de xixi.
Foi assim que a bactéria, com a ajuda do seu providencial flagelo, foi nadando lentamente até atingir um local bem posicionado. Não demorou muito para que um gordo traseiro se encarregasse de transportá-la dali para uma região mais propícia aos seus objetivos de crescimento, multiplicação e perpetuação da espécie.
Enquanto isso as outras bactérias assistiam, não sem alguma inveja, ao sucesso daquela companheira inconformada que tinha um projeto de futuro e que levou adiante os seus planos, apesar de todos os desencorajamentos e perigos.
Moral da história: pense bem antes de decidir ficar na sua zona de conforto! Lá fora pode ser inseguro, mas as oportunidades serão muito mais abundantes!
Imagem: http://www.zazzle.com.br

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Aula de anatomia

“Veja! Veja, aprendiz! Eu mesmo não acreditaria se não estivesse vendo! Como pode ter vida uma criatura possuidora de um projeto corporal-fisiológico tão mal-acabado?! Pra começar, este espécime tem apenas dois olhos! Sendo que os dois ficam do mesmo lado da esfera superior! Nenhum atrás! Nenhum dos lados!”

”Calma, mestre. Quem sabe não foi algum acidente que o privou dos outros olhos?”

”Não há marcas de cicatrização, aprendiz. Esta espécie não se regenera; quando perde alguma coisa, fica a marca. Não, eu te digo: este aqui nasceu com apenas dois olhos.”

”Será um mutante, mestre?”

”Não é mutante não. Os observadores-coletores disseram que são todos assim.”

”Então é de se lamentar mesmo. Aliás parece que o número dois se repete bastante nessa estrutura. Existem dois orifícios de finalidade desconhecida diametralmente opostos na esfera, dois membros superiores e dois membros inferiores.”

"Bem observado. Absurdos compatíveis com a escassez de olhos. Este pobre ser tem de se equilibrar sobre dois membros compridos e frágeis, e precisa girar a esfera superior quando quer enxergar o que está atrás ou ao lado. Como consegue se defender de predadores?”

”Mestre, tenho uma pergunta e uma observação. Primeiro a pergunta: está este ser exposto a muitos predadores, lá no seu planeta de origem?”

”Segundo os observadores-coletores, sim. Além de outras espécies hostis, há também um fato desconcertante: eles são predadores de si mesmos!”

”Mestre, não entendi! Significa que atacam-se uns aos outros? Como assim? Para quê? Não, não posso acreditar.”

”Eu também tive essa reação quando soube. Então me mostraram imagens obtidas naquele planeta. Não queira vê-las, aprendiz. Passei mal e tive que ser medicado.”

”Só me responda isto, mestre: por quais motivos atacam-se uns aos outros?”

”Para se apoderarem de pertences. Ou de territórios. Ou dos corpos uns dos outros...
Calma, calma, aprendiz! Não fique assim! Lembre-se de que eles são uma raça inferior. Não se pode esperar muito de seres inferiores.”

”Desculpe, mestre. Não queria ter tido essa reação. É penoso, mas tenho que ser forte, faz parte do aprendizado. E falando em primitivismo, a observação que eu queria fazer é esta: reparou que a esfera superior não gira 360 graus?”

”Tem certeza? Já fez o teste?”

”Fiz, mestre. A esfera gira apenas 90 graus para cada lado. É uma estrutura muito tosca, realmente. E ainda tem um fato mais grave. Ao que tudo indica, o centro de processamento de informações está localizado exatamente nessa esfera superior.”

”Já ouvi tal hipótese, aprendiz, mas preciso de maiores evidências para acreditar. Seria um inaceitável erro de projeto que o órgão mais importante da criatura ficasse localizado em sua parte mais exposta e vulnerável. Se for assim, qualquer objeto que atinja a esfera com suficiente força pode fazer a criatura perecer.“

"Mestre, posso dar uma sugestão? Que tal interrompermos por hoje o exame deste espécime? Foram informações chocantes demais para uma única sessão. Que acha de pegarmos outra criatura para estudar?”

"Está bem. Eu mesmo me sinto um pouco abalado. Faça o seguinte, aprendiz: devolva este humano ao arquivo morto e traga para cá a chamada borboleta.”

”Borboleta, mestre? Aquele ser minúsculo com asas coloridas?”

”Esse mesmo, aprendiz. Há um grande mistério relacionado a essa criatura. Dizem que nunca foi observado um filhote de borboleta!”

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quarta-feira, 9 de julho de 2014

Lobo

Uma coisa estranha começou a acontecer com ela: acordava todas as manhãs muito, mas muito cansada.
Ficou apreensiva. Como é possível que depois de dormir a noite toda uma pessoa acorde ainda mais cansada?
Foi ao médico. Ele disse que era “stress”, afinal estava separada havia pouco tempo. Essas coisas mexem com o psicológico. Receitou-lhe algumas coisas, ela tomou, não fez nenhum efeito.
Foi a outro médico, o qual pediu exames variados. Nada se revelou nos exames.
“O colega estava certo, é “stress”. Tome aqui estes medicamentos. São diferentes dos anteriores. Estes vão resolver.”
Não resolveram. Ela se conformou em acordar com dores musculares generalizadas todo santo dia.
Uma amiga, que era espírita, avisou:
“Isso é surra espiritual. Você está sendo atacada de noite. Não você, mas o seu corpo astral. Depois você acorda e traz as dores para o corpo físico.”
“Não pode ser!” respondeu ela. “Nunca fiz mal a ninguém, quem ia querer me castigar assim?”
A amiga esclareceu:
“Pode ser alguém que acha que você lhe fez mal, mesmo não tendo feito. Tem gente maluca por aí que interpreta as coisas tudo errado. Ou então...”
“Ou então o quê?”
“Ou então é roubo de energia. Vai ver não é surra, é um roubo de energia.”
Besteira, pensou ela. Devo estar com fibromialgia.
Então começou a se lembrar dos sonhos. Frequentemente sonhava com alguma criatura em situação de perigo ou de tristeza, e aí passava muito tempo tentando ajudar a criatura. Tentava, não conseguia, tentava, não conseguia... e a angústia aumentava, e aumentava...
Geralmente eram crianças ou animais em dificuldades. Ou então pessoas idosas.
A mesma amiga deu o diagnóstico: isso era roubo de energia, com toda a certeza. Enquanto no sonho ela se compadecia da criatura, a sua energia vital ia sendo sugada. Por quem? Não importa quem, o que importa é tomar passes para se proteger.
Ela não quis tomar passes. Não, isso é uma fase. É o trauma da separação.
Depois, durante os sonhos, ela conseguia se lembrar do aviso da amiga, mas sempre tarde demais.
Quando percebia que a criatura fragilizada não era tão frágil assim, já havia acariciado, já havia embalado, já havia acalentado. E no dia seguinte, as mesmas dores.
“Não quer tomar passes?” disse a amiga. “Então reze o Salmo 91. Todas as noites antes de dormir. É para a sua proteção. Senão isso vai continuar.”
Ela não queria tomar passes, não queria rezar, não queria pensar no ex-marido, só queria esquecer tudo e dormir em paz.
Então naquela noite ela sonhou com o lobo. Se fosse na vida real teria ficado com medo, mas no sonho não ficou. Era um lobo grande, de olhos vermelhos, e parecia estar ferido. Ela se aproximou, acariciou sua cabeça, tentou falar com ele com aquele jeito carinhoso...
“O que você tem? Está com alguma dor? Como posso te ajudar?”
E o lobo se aproximou, gemendo baixo, e se aproximou, e de repente mordeu sua mão direita.
Ela acordou assustada e acendeu a luz. A mão doía muito, e lá estavam as marcas da mordida.

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terça-feira, 8 de julho de 2014

O mistério do Cascão

Trecho do livro "Os meninos da Rua Beto"

Junho de 1967

Havia por lá um homem cujo apelido era Cascão; seu nome verdadeiro nunca ninguém ficou sabendo. Ele tinha cerca de cinquenta anos, era baixinho e andava encurvado, como se carregasse alguma coisa pesada no bolso interno do paletó azul-marinho que nunca trocava.

Cascão se mudara para as redondezas havia uns três anos e morava num quartinho do cortiço do Seu Alfeu, na rua de baixo. Ele não tinha fontes de renda visíveis; nunca se soube de onde vinha o dinheiro com o qual sobrevivia.

Os adultos o consideravam retardado mental e não repreendiam as crianças que faziam gozações quando ele passava. Quando isso acontecia o Cascão dizia às crianças:

”Vocês não podem me tratar assim, porque não me conhecem e não sabem quem eu sou!”

Mas todo mundo “sabia” que ele não tinha estudos, não tinha emprego e não tinha família. Ele, no entanto, afirmava que era muito rico e que guardava um tesouro lá no quartinho. Ninguém, nem mesmo as crianças, acreditava em tais maluquices.

Um dia porém aconteceu um fato estranho. Parou na frente do cortiço um “Galaxy” azul, carro luxuoso da época, e dele desceram dois homens. Um deles era alto, de pele clara e avermelhada, parecendo estrangeiro; o outro era mais abrasileirado; os dois muito bem vestidos. Entraram no cortiço e saíram em companhia do Cascão.

Os três andaram juntos por certo tempo, conversando sobre algum assunto que parecia importante. O Cascão falava e gesticulava, e os outros dois prestavam muita atenção.

Quando voltaram desse pequeno passeio ele foi lá dentro e saiu carregando um bauzinho. Entraram todos no carro luxuoso e foram embora.

Desde esse dia o Cascão nunca mais foi visto.

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segunda-feira, 7 de julho de 2014

O figo e o mel

Reverenda Madre,

Rogo humildemente a vossa atenção para os fatos que, breve e objetivamente, passo a expor.
Tenho para mim que ao final serei favorecida por vossa compreensão e misericórdia.
Quando aqui cheguei anos atrás, criança ainda, vinha em busca de paz espiritual, recolhimento e sabedoria.
Apesar da pouca idade, havia feito uma escolha consciente entre a vida secular e a vida clerical. Eu sabia que a grande realização do ser humano se consuma no momento de sua sincera e total renúncia a qualquer interesse próprio.
Tal conhecimento não me foi transmitido por ninguém; chegou-me assim um dia, natural e espontâneo como o enuncio agora. Naquele momento decidi de que maneira queria viver, e desde então tenho sido coerente com tal decisão.
A vida no monastério não é dura como se costuma dizer lá fora; é justa em todas as suas medidas. Não temos, não fazemos e não desejamos nada a mais e nada a menos do que o necessário. Qualquer coisa a menos representaria carência e desnecessário sofrimento; qualquer coisa a mais seria supérfluo e portanto estranho ao nosso modo de ser. Ainda que o corpo se ressinta, por vezes, da privação de alguma futilidade, a recompensa aparece cem vezes multiplicada em forma de enriquecimento espiritual. Trabalho, oração, estudo e meditação, sempre nas suas exatas proporções, nos concedem a paz e a sabedoria que buscamos.
Todas essas coisas, Reverenda Madre, são de vosso pleno conhecimento. Apenas as exponho para lhe assegurar de que a minha mente está e sempre esteve em acordo com tudo isso, e que o meu coração sempre se alegrou diante da perspectiva dos anos vindouros.
No entanto, apesar de toda a certeza e segurança, uma inquietação penetrou em meu espírito. Precisamente pela convicção de viver alerta contra todas as tentações, acredito estar diante não de um simples e vulgar enleio mundano, mas sim de algo importante e até agora desconhecido.
Aconteceu recentemente que, ao atravessar os portões do monastério para a aquisição de mantimentos, vislumbrei entre os mercadores um homem jovem e rude, mal vestido e sujo como costumam ser os pobres das redondezas.
Tão rude e inculto que, ao falar comigo, me olhou diretamente nos olhos, e depois (embora tivesse eu baixado a cabeça, como mandam as regras de compostura de nossa casta ordem) continuou me examinando insolente e despudoradamente. Aquela criatura rústica, Reverenda Madre, me tratou como se eu fosse mulher do povo, o que me vexou de um modo tal que fui obrigada a voltar sem concluir o trabalho para o qual havia saído.
Desde então coisas estranhas começaram a povoar minha mente, e, de forma semelhante àquela revelação que aqui me trouxe ainda em criança, outra se mostrou ao meu espírito. Também a esta pretendo obedecer prontamente, assim como obedeci à primeira.
Quero voltar ao século, Reverenda Madre, para - entre outras coisas - poder sustentar o olhar daquele jovem rude sem ter que baixar a cabeça, e examiná-lo como ele examinou a mim. Quero desfrutar da liberdade de cometer excessos para depois me arrepender, ou então me alegrar por ter alcançado novos limites. Quero não ter certeza do amanhã, mas sim dúvidas e sobressaltos que façam disparar meu coração. Quero ter desejos, para depois tentar satisfazê-los. Quero lutar pela salvação da minha alma, estando em meio a todas as perdições.
Tudo isso deve ser bom, Reverenda Madre. Se não fosse, como se explicaria o fato de que, enquanto as nossas faces são tão pálidas e os nossos olhos tão apagados, as pessoas lá de fora (como aquele jovem de cabelos negros que mencionei) têm os olhos e as faces tão cheios de fogo?
Nossa vida aqui dentro é doce como o figo mais doce, mas se esta devesse ser a maior das doçuras não teria Deus criado o mel. E agora, sabendo que ele existe, não desistirei de prová-lo. Sei que esta é a Sua vontade, ou não me teria revelado sua existência.
Nada mais me resta a dizer a não ser pedir a vossa bênção, Reverenda Madre.

Imagem: http://www.billsphotooftheday.com

sábado, 5 de julho de 2014

Milagre do Amor

Esta é a história do Cristiano, um rapaz bonzinho que estudava lá na faculdade. Ele tinha uma característica muito especial: não tomava banho!
Se você conseguisse, com algum esforço, abstrair o seu revestimento de sujidade, descobriria que ele era bem bonito, com cabelos loiros ondulados, olhos azuis de bela tonalidade e pele rosada sem imperfeições. Além disso tinha um bom peso para a sua altura e nenhum defeito físico aparente.
Porém tudo isso se encontrava semioculto pela sujeira. Os cabelos ensebados, a roupa em péssimas condições, os pés mal cuidados nas sandálias havaianas cheias de poeira. Ele também não fazia a barba, porque achava antinatural se barbear.
Ouvi dizer que o problema era um trauma. Havia sido obrigado a servir o exército, e lá o forçaram a fazer coisas totalmente contra os seus princípios, como cortar o cabelo e as unhas, fazer a barba e tomar banho todos os dias. Tudo isso o deixou traumatizado, e agora que estava livre só fazia as coisas que o seu coração mandava.
Uma das coisas que o seu coração não mandava era estudar. Ele assistia às aulas e meditava. Afirmava que se você "meditar" não precisará passar horas e horas estudando (como nós outros fazíamos), porque vai entender tudo com muito maior facilidade já que a sua mente estará descansada e disciplinada.
Não sei se a mente do Cristiano era disciplinada, mas descansada certamente era. Todo mundo reparava na expressão os seus olhos, absolutamente tranquilos. Parecia que ele estava sempre contemplando alguma paisagem distante, em total relaxamento e despreocupação.
Uma vez ele me convenceu a assistir a uma palestra lá no instituto de meditações que ele frequentava. O palestrante falou um bom tempo (não me lembro de nada), e no final, para exemplificar a excelência do hábito, perguntou ao meu colega, notório e conhecido meditador:
"Não é verdade que depois que você começou a meditar passou a obter notas muito melhores?"
O Cristiano, que só levava pau em todas as matérias, respondeu:
"Eu exagerei um pouco e meditei demais, por isso não consegui bons resultados..."
O palestrante não se deu por vencido:
"É, realmente, tem que haver uma certa moderação, senão os efeitos benéficos são prejudicados."
O que me lembro bem daquele dia é que na hora de irmos embora tivemos a companhia de uma meditadora conhecida dele. Ela foi contando pelo caminho a sua rotina de meditação, incluindo o fato de comer uma "banana nanica" depois de fazê-lo. Fiquei maravilhada (no sentido da Bíblia) com a preocupação da menina em informar que a banana era nanica. Acabei concluindo que a meditação não era para o meu perfil.
O tempo foi passando e tudo continuava no mesmo. Mas de repente algo extraordinário aconteceu!
Uma colega chegou um tanto assustada e disse:
"Adivinhe quem eu acabo de ver no ônibus!"
"Não faço ideia."
"Vou dizer três palavras e você vai adivinhar na hora: limpo, arrumado, perfumado!
"Cristiano!"
Era o Cristiano. Consta que passou a tomar banho, vestir roupas limpas e até usar desodorante.
Como já deu pra suspeitar, ele estava apaixonado. Finalmente encontrou alguém que o fez esquecer totalmente os seus princípios e ficou interessado apenas em ser aceito como um ser humano comum.
Dizem até que começou a estudar a sério. E todos foram felizes para sempre :)

Imagem: http://www.peanuts.com

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Luz Pedra Diamante Flor Cintilante

LUZ
A letra "ele" da palavra luz representa a sua leveza; "u" traz ideia de escuridão, das trevas que são o meio onde a luz existe; "z" é a velocidade.
Nada há mais leve e mais veloz do que a luz dentro do abismo escuro do espaço.

PEDRA
Nesta palavra a sílaba "dra", que soa como um pequeno pedregulho revirando-se na ponta da língua, contém a essência do objeto "pedra". A sílaba "pe" (pronunciada "pé") transmite ideia de movimento.
Seja o movimento da pedra rolando colina abaixo, seja o movimento através do tempo caracterizando a sua perenidade.

DIAMANTE
Esta é outra palavra cujo som revela a natureza do objeto.
"Dia" significa "através". Pode-se enxergar através do diamante: ele revela sua pureza por meio da transparência.
"Mante": a sílaba "man" é musical; essa música termina bruscamente no "te", como se batesse em alguma coisa dura.
Diamante é transparência (pureza) e música (beleza) encerradas (preservadas) dentro da mais dura das superfícies.

FLOR
O "efe" de flor é o prenúncio da abertura do botão. Quando o "efe" se junta ao "ele", obrigando a língua a imitar o movimento da pétala se abrindo, é o próprio desabrochar que começa a acontecer.
O "o" (pronunciado "ô") desvenda ao meio exterior a parte interna da flor que se abre. O "erre" completa o movimento das pétalas lançando-se para fora.
Assim, a mesma pronúncia da palavra "flor" já é em si um desabrochar.

CINTILANTE
"Cin" é som sedoso, que faz lembrar o brilho e a textura da seda.
"Ti-lan-te" é um carrilhão de cristal ao vento.
"Cintilante" traz à mente a imagem de uma superfície formada por fragmentos justapostos de cristal, que brilham como seda.
Não por acaso, Cíntia é um dos nomes da Lua.

Imagem: http://socialspirit.com.br

quarta-feira, 2 de julho de 2014

A senhorinha do ponto da pracinha

Ela vai quase toda tarde, entre 4 e 5 horas, ao ponto de ônibus da pracinha.
É uma senhora de 80 anos muito simpática, sempre bem vestida e bem penteada, com os cabelos tingidos de loiro acobreado.
Ela chega, senta-se no banco do abrigo, e imediatamente começa a falar com quem estiver mais próximo. Durante essa conversa relata toda a sua vida, em detalhes. Às vezes mostra fotos.
Se o ônibus chega e ela perde o interlocutor, imediatamente se vira para outra pessoa e reinicia a conversação.
Mas não está interessada no que o outro tem a dizer.
"Olha esta foto aqui. Sou eu e o meu marido. Aqui estou bem jovem, não? Ele já morreu faz tempo. Não foi fácil."
"É, eu sei... perdi o meu filho tá fazendo seis meses... ele morreu de meningite..."
"Então, tá vendo este colar que estou usando? É de pérolas verdadeiras. Foi da minha mãe. Ganhei no dia do meu casamento."
Eu já ouvi a história de sua vida várias vezes, embora ela tenha falado comigo em apenas uma ocasião.
Sei que é viúva, que criou o filho praticamente sozinha, que foi rainha da beleza no clube que frequentava quando mocinha, que torce para o mesmo time de futebol desde criança, que trabalhou em uma malharia durante 25 anos.
Seu filho mora em Santos e ela vive sozinha aqui em São Paulo. Só há uma coisa de que ela não gosta quando ele vem visitá-la: cozinhar. Ela detesta cozinhar e fez isso a vida toda; agora que é sozinha acha muito bom não ter mais essa obrigação, mas quando o filho vem é preciso fazer comida como antigamente, e disso ela não gosta não.
Era para ela ter tido, além dele, duas filhas gêmeas. Mas devido a um acidente acabou sofrendo um aborto. Esse acidente foi provocado por um gato. Sem querer, ela pisou no rabo do bicho, então ele deu um berro tão forte que ela se assustou e caiu de mau jeito.
Mas vejam como é a vida: agora tem duas netas gêmeas! As meninas são iguaizinhas, não dá nem pra distinguí-las. Por isso vivem fazendo brincadeiras com a avó, aquelas danadinhas.
Do que ela gosta mesmo, além de tomar cerveja de vez em quando, é passear de ônibus.
Os motoristas já a conhecem, conta ela, e a levam ao centro da cidade e depois de volta até o ponto final, lá na periferia. Eles esperam os outros passageiros descerem, vão até uma lanchonete próxima e compram um salgado e um café com leite; levam ao ônibus e esperam até ela acabar de comer. Só então retomam a viagem de volta, deixando-a no mesmo ponto onde a pegaram.
“Eles gostam muito de mim.” diz ela sorrindo.
Quem também gosta muito dela são os jogadores do time para o qual torce (desde criança, faz questão de enfatizar).
“Eles não andam jogando bem não. Fui lá no clube e conversei com eles depois do treino. Eles já me conhecem porque eu vou lá às vezes. Me respeitam muito, aqueles meninos.”
Daí relata minuciosamente a bronca que deu neles, já que não estavam jogando nada.
“Então o Fulano me respondeu: a senhora acha que a gente não está jogando nada, tia? Então a senhora faz assim: vem aqui no clube, coloca as chuteiras e vai jogar no nosso lugar.”
Dito isso, ela ri e repete: “Eles me respeitam muito, aqueles meninos.”
O ônibus chega. Ela entra, eu entro em seguida e vou procurar um lugar para sentar. Ela fica em pé ao lado do motorista, e imediatamente começa a explicar pra ele tudo o que aconteceu quando uma amiga levou o cachorrinho ao pet shop.
Imagem: http://youcallthatart.files.wordpress.com

terça-feira, 1 de julho de 2014

"Os meninos da Rua Beto" - convite

Toda história envolvendo crianças, quando contada com graça e delicadeza, resulta interessante. Se a narrativa transcorre em época e ambiente muito distantes da nossa realidade, a experiência − além de agradável − funciona como uma máquina do tempo através da qual podemos espiar aquele outro mundo e voltar enriquecidos.
Então vamos voltar ao passado? Década de 60, periferia da cidade de São Paulo.
Que tal brincar de escolinha escrevendo com carvão nas tábuas do galinheiro?
Fazer exploração dentro de uma tubulação subterrânea? Furtar goiabas do quintal do vizinho (e ser apanhado)?
Ganhar esmolas sem pedir (mas não devolver depois)? Subir na jabuticabeira e comer jabuticaba até a barriga estourar? Ser salvo de um desabamento por um anjo da guarda?
No meio de tudo isso, assistir (sem entender nada) ao golpe militar de 1964, correr da polícia da ditadura para não apanhar de cassetete e testemunhar a chegada do Homem à Lua. Suponha agora que todos esses acontecimentos sejam verdadeiros, nos mínimos pormenores.
Utilizando uma linguagem leve, fácil de acompanhar, com muitos toques de humor e de reflexão, o livro “Os meninos da Rua Beto” tem o propósito de resgatar e homenagear momentos de um passado que permanece vivo nos corações de quem esteve lá e se considera muito feliz por isso.

LANÇAMENTO: 23a BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE SÃO PAULO
Estande da Editora Scortecci - Avenida 1, Rua J
30/08/2014 - sábado - das 13h00h às 15h00h
Venha brincar conosco você também! :)